sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

AOS COMPANHEIROS E AMIGOS...

...principalmente os que de alguma forma colaboraram com minha campanha a vereador de São Paulo, comunico que estou reassumindo a condição de independente.

Acreditei que meu engajamento no Partido Socialismo e Liberdade pudesse contribuir para o resgate de algumas posturas dos revolucionários de minha geração, como a de que só devemos disputar posições e assumir postos no Legislativo e no Executivo burgueses com a finalidade tática de acumularmos forças. 

Encarando o capitalismo como o maior obstáculo à felicidade dos seres humanos e a maior ameaça à sobrevivência da humanidade, avaliei que, se conquistasse algum naco de poder nas suas entranhas, isto serviria para amplificar minha voz e dar mais amplitude à minha atuação, no sentido de aguçar-lhe as contradições e evidenciar seu caráter desumano e predatório, fazendo avançar a luta por sua extinção.

Também pretendia impulsionar a união de todas as forças anticapitalistas na luta contra o inimigo de classe, fundamental neste momento em que somos minoritários e quase impotentes para influir verdadeiramente nos rumos políticos da Nação.

Fui fiel aos meus valores e princípios: lutei. Mesmo sabendo que assumia uma missão praticamente impossível, tentei de todas as formas abrir um caminho para mim e para outros.

Até para não desestimular jovens idealistas, prefiro não esmiuçar os motivos pelos quais fracassei e hoje considero inalcançáveis tais metas.

Apenas deixo registrada minha opção pessoal de não continuar no PSOL nem me filiar a qualquer outro partido empenhado em repetir, corrigindo-a, a trajetória do PT --ou seja, crendo na hipótese de que seja possível não se desviar do objetivo revolucionário no meio do caminho. 

Conclui que havia uma única oportunidade histórica para tal via ser bem sucedida: aquela em que também me empenhei ("Quem não dormiu no sleeping-bag nem sequer sonhou") e que foi, lamentavelmente, desperdiçada. 

E que é "nas escolas, nas ruas, campos, construções", na praça que "é do povo como o céu é do condor", que nossa luta pode atualmente resultar. Não no seio dos (ou com um pé nos) podres Poderes.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

UMA CANDIDATURA CONTRA A FASCISTIZAÇÃO

"Agora vou terminar
Agora vou discorrer
Quem sabe tudo e diz logo
Fica sem nada a dizer"
(Gilberto Gil, Roda)

Restando apenas uma quinzena  de campanha eleitoral, chega a hora de dizer exatamente a que venho e por que nela estou. A sinceridade é sempre o melhor caminho.

Eterno otimista, durante o Caso Battisti eu superestimei o papel da internet como ferramenta para o bom combate. Pensei que continuaria obtendo a mesma repercussão nas lutas vindouras.

As decepções se sucederam: a ocupação militar da USP, que representa um retrocesso aos tempos nefandos da ditadura de 1964/85; a higiene social na Cracolândia, desumanidade a serviço da especulação imobiliária; e a barbárie no Pinheirinho, que em qualquer país civilizado acarretaria o impeachment do principal culpado, o governador do estado.

Parte da esquerda  não quis  reagir à altura, nos três episódios. Eu  muito tentei e me esforcei, mas não obtive resultados concretos. E estou com os três entalados na garganta até hoje.

Não só pelo que eles têm de incompatíveis com tudo em que acredito e com todos os valores que prego. Mas, também, por saber que são apenas a ponta de um iceberg. O perigo é muito maior do que a maioria supõe.

Desde o Cansei! venho alertando: São Paulo é o principal laboratório de testes e aprimoramento do totalitarismo que a extrema-direita gostaria de implantar no País.

As  viuvas da ditadura  e os   cuervos   por elas criados haviam participado, como efetivos secundários, da tentativa de impedimento do presidente Lula por conta do escândalo do  mensalão, como forma de evitar sua reeleição.

Quem conduziu o espetáculo, contudo, foram os tucanos, seus aliados e a imprensa que caninamente os serve. E se tratava apenas de  meio-golpe, objetivando não a instalação de uma ditadura, mas apenas a recondução ao poder, na eleição seguinte, dos derrotados em 2002.

Lula, contudo, segurou a onda.  E, logo no início do segundo mandato, a direita troglodita mostrou suas garras, tentando reeditar o figurino golpista de 1964 com uma versão 2007 da  Marcha da família, com Deus, pela liberdade. A partir daí, São Paulo assumiria a vanguarda... da incubação do ovo da serpente.

Do fiasco retumbante do Cansei! os golpistas extraíram a mesma lição de 1961 (quando a resistência do governador gaúcho Leonel Brizola e dos subalternos das Forças Armada frustrou o complô direitista para impedir a posse do vice-presidente João  Goulart): recuaram, reagruparam suas forças e estão se preparando bem melhor para a próxima tentativa.

Então, o que temos visto em São Paulo, nos últimos cinco anos, são sucessivos balões de ensaio para se testar a resistência da sociedade a um novo totalitarismo.

As sucessivas intimidações e vandalizações que os herdeiros de Erasmo Dias promoveram na USP saíram baratas.

O dantesco escorraçamento a pontapés dos dependentes químicos que vegetavam no centro velho, idem.

Mas, a brutal repressão da  Marcha da Maconha   pegou tão mal que os brutamontes fardados se viram obrigados a recuar, saindo moralmente derrotados.

O impacto ainda mais negativo do festival de arbitrariedades no Pinheirinho, culminando no sequestro de um idoso para que a imprensa não constatasse seu estado lastimável após o espancamento sofrido (a ponto de duas semanas depois ele falecer), deve ter feito soar um sinal de alarme no QG golpista. Estão sendo evitadas as ações que possam causar impacto equivalente.

O que não impede a Polícia Militar paulista de continuar atuando como força exterminadora, segundo o modelo sinistro do  mate primeiro e maquile depois!. Com o aval e defesa entusiástica do governador adepto do ideário do Opus Dei.

Os episódios de mortes de suspeitos por  alegada resistência à prisão  se multiplicam, com a cumplicidade da imprensa que não os denuncia como as chacinas que são. Em tiroteios reais há feridos e mortos, não apenas mortos. Quando todas as testemunhas morrem, é porque foram executadas. Simples assim.

O controle  (talvez seja melhor dizer  terror) policial nos bairros pobres chega a abater-se até sobre os inocentes saraus dos jovens, mais uma vez evocando os  anos de chumbo, quando as forças auxiliares da ditadura vandalizavam teatros e agrediam atores. 

E a existência de uma articulação mais ampla, direcionada para o estado policial, evidencia-se na insólita designação de oficiais da reserva da PM para gerirem 30 das 31 subprefeituras da capital paulista.

Quem conhece a cultura dessa corporação, satelizada pelas Forças Armadas durante o período do arbítrio, sabe muito bem o que isto representa. Até recentemente, sua unidade mais truculenta, a Rota, mantinha no portal do Governo paulista um elogio explícito ao golpismo, só o deletando sob vara da ministra de Direitos Humanos.

O dispositivo golpista já está montado em São Paulo, devendo servir como modelo para outras cidades e estados. A oportunidade golpista, contudo, ainda não surgiu.

Pode demorar  anos --foram quase três, entre o fracasso de agosto/1961 e o sucesso em abril/1964-- ou nem sequer se apresentar. A desconstrução da imagem do PT a partir do julgamento do  mensalão  talvez torne desnecessária uma virada de mesa; os grupos cujos interesses estão sendo contrariados poderão, eventualmente, atingir seus objetivos pela via eleitoral.

Mas, não é confortável vivermos com uma lâmina de guilhotina pendente sobre a cabeça.

Então, o sentido maior da minha candidatura é este: tendo a internet sido insuficiente para esmagarmos o ovo de serpente que incumbaram em São Paulo, tanto que o ofídio não só nasceu como se fortalece cada dia mais, resolvi ir à luta em outras frentes. Pois assumo como minha grande missão atuar com eficiência e contundência contra esta ameaça que tenho visto crescer e já fazer bastante mal, além de prenunciar ocorrências muito mais graves. 

Mas, perguntarão os leitores, por que eu? Não sou o candidato de esquerda mais douto, nem o mais enraizado nos movimentos sociais, muito menos o mais popular --admito-o francamente.

No entanto, por um destino insólito, tive de lutar sozinho durante muito tempo e aprendi a travar batalhas de opinião nas circunstâncias mais adversas, seja para salvar em 1986 os  quatro de Salvador  que faziam greve de fome sem o apoio de quase ninguém, seja para obter em 2005 uma anistia à qual tinha pleno direito mas a União teimava em postergar, seja para restabelecer a verdade histórica a meu respeito.

Foi a experiência acumuladas nestas e outras batalhas que me ensinaram a encontrar o foco certo em termos jurídicos e a palavra certa para sensibilizar as pessoas imbuídas de espírito de justiça. 

Quem acompanhou o Caso Battisti deve lembrar-se que eu tinha visão clara do rumo que os acontecimentos tomariam e a utilizava para propor as linhas de ação mais adequadas para nosso comitê de solidariedade.

Acostumado a travar lutas desiguais, rechaçava o sectarismo,  tudo fazendo para agregar todos os bons cidadãos à nossa causa. A união foi essencial para nocautearmos um inimigo do 1º mundo e todos os seus quinta-colunas no Brasil (principalmente na imprensa, cuja tendenciosidade atingiu o paroxismo). Éramos poucos, éramos fracos, mas soubemos nos aglutinar e dar sempre os passos certos.

Não podemos nos associar aos inimigos de classe, mas são admissíveis e justificáveis as alianças táticas com forças pertencentes ao campo da esquerda ou que tenham uma tradição de esquerda, desde que o objetivo do momento seja comum.

Então, como participante de uma bancada de esquerda que tenderá a ser minoritária, acredito poder dar contribuição destacada para estimular a união das forças progressistas, denunciar/atrapalhar as maracutaias dos poderosos, desencavar razões legais para colocar suas políticas em xeque e fazer com que tais questões repercutam na sociedade, trazendo a opinião pública para nosso lado.

O que me manteve vivo, depois da derrota trágica nos anos de chumbo,  foi a esperança de ainda contribuir para que frutificassem os ideais da minha geração, em nome dos quais tantos companheiros imprescindíveis foram martirizados ou destruídos.

Preparei-me durante quatro décadas para o papel que me proponho a desempenhar na luta contra a fascistização; mas, travá-la em melhores condições e com mais visibilidade, dependerá da confiança e do apoio que receber dos companheiros. 

É o último apelo que lanço pois tudo que eu tinha para dizer, está dito.

E a sorte, lançada.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

EU, CELSO L., 61 ANOS, EX-RESISTENTE, TORTURADO E...VEREADOR?!

Sou o candidato a vereador nº 50005 da cidade de São Paulo, pelo Partido Socialismo e Liberdade.

Os que acompanham minha trajetória, provavelmente estranharão: por que entrar na política oficial aos 61 anos, depois de uma jornada tão atribulada? Não deveria estar curtindo esta fase tranquila da vida familiar, dedicando-me às filhas e netos?

Parafraseando Brecht: eu não consigo agir assim.

Os objetivos que, aos 16 anos, me motivaram a contestar uma ditadura sanguinária ainda não foram atingidos. Nem considero este Brasil com democracia tão imperfeita e desigualdade tão gritante suficiente para justificar a perda de 20 companheiros estimados e os terríveis sofrimentos impostos a tantos outros.

Como sobrevivente de uma luta que tragou alguns dos melhores cidadãos que este país já produziu, assumi o compromisso de dedicar o resto dos meus anos aos ideais pelos quais eles se sacrificaram.

Foi assim que em 1986, mesmo sem as facilidades da internet, consegui, com um golpe de sorte, evitar que a greve de fome dos quatro de Salvador  terminasse em tragédia.

E o advento da web facilitou em muito as cruzadas em defesa dos direitos humanos, como a vitória épica que ajudei a conquistarmos no Caso Battisti, contra a perseguição inquisitorial e as pressões arrogantes de um país do 1º mundo, apoiado pelo que havia de pior na Justiça, na imprensa e na política brasileiras.

Mas, a influência das redes sociais não é ilimitada e, em várias outras lutas, tenho me chocado com o boicote da grande imprensa que, além de me negar o direito de exercer a minha profissão de jornalista,  esconde-me  como personagem histórico e participante de embates políticos marcantes. Nem o direito de resposta e de apresentar o outro lado ela me concede, mesmo quando tal direito é incontestável à luz das boas práticas jornalísticas e não há ninguém para o exercer além de mim.

Não nego: é terrível a sensação de impotência que sinto por não estarmos conseguindo obter a responsabilização dos culpados pela barbárie no Pinheirinho nem o levantamento imediato da ocupação militar da USP, dentre outros episódios inadmissíveis numa verdadeira democracia.

Os balões de ensaio para testar a resistência dos brasileiros a uma recaída totalitária não estão tendo resposta à altura; daí minha ansiedade em buscar maior amplitude de atuação. E, como este novo macartismo vigente no Brasil tenta me transformar num fantasma virtual, quero mais é mostrar ao sistema que estou bem vivo, firme e forte.

Se não me mataram nos porões nem conseguiram me destruir com a estigmatização por eles ensejada, tampouco me farão recuar com ameaças, pressões nem manipulações midiáticas.

Foi um motivo a mais para eu ter aceitado de pronto o convite do professor Carlos Giannazi, no sentido de somar forças com ele na campanha municipal de 2012.

Ou outros são a concordância básica que temos na maioria dos assuntos e o fato de vê-lo como o único candidato da esquerda anticapitalista com reais chances de derrotar a direita e os reformistas na cidade mais importante do País.

Tenho razões para crer que o PSOL não só tende a adquirir a influência que o PT adquiriu, como pode obtê-la sem abandonar suas principais bandeiras pelo caminho.

Até porque o mundo começa a ser varrido por uma nova onda revolucionária, potencializada pela depressão que o capitalismo está engendrando; e, neste novo cenário, o PSOL tem-se alinhado decididamente com a contestação nas ruas (o que é um antídoto ao deslumbramento com os gabinetes do poder...).

Não há nenhum fatalismo histórico a tanger os partidos de esquerda ao comprometimento com o status quo como condição indispensável para crescerem; a decisão que o PT tomou há uma década, de negociar com banqueiros e grandes capitalistas a  permissão  para chegar ao poder e as concessões que teria de fazer em troca, não foi imposta pelos deuses, foi decidida por homens.

Agora, é imperativo provarmos ao cidadão comum que a esquerda pode decidir noutro sentido, mantendo a fidelidade a seus grandes ideais em quaisquer circunstâncias; até porque disto depende o ressurgimento da esperança na política. A minha parte eu farei.

Também quero ajudar a manter vivos alguns valores dos revolucionários da década de 1960, como o de que os vários agrupamentos da esquerda anticapitalista devem ver a si próprios como integrantes de um  campo, parceiros e aliados no bom combate, e não como adversários na disputa por migalhas de poder numa sociedade desumana.

O de que mandatos legislativos e posições no Executivo só se justificam no nosso caso quando colocados a serviço dos explorados e injustiçados, e se nos permitirem acumular forças para a mudança maior da sociedade. São meios, nunca fins em si. Nosso objetivo não é ganharmos a eleição seguinte, é prepararmos o terreno para o  reino da liberdade, para além da necessidade.

O de que honestidade pessoal e coerência para nós não são méritos, apenas obrigação.

E o de que temos de honrar os mandatos, pois nossos ideais serão julgados pelo desempenho visível. Vereador ou presidente da República, cabe-nos dar o exemplo de como age um militante de esquerda, tanto em termos de probidade, quanto de competência e coragem.

A partir daqui os meus textos referentes à campanha separam-se das comunicações costumeiras, a menos que os donos de cada espaço os autorizarem. Peço a todos que passem a acompanhá-los no blogue Diário de Campanha do Lungaretti, cujo endereço é este aqui: http://quero50005.blogspot.com.br/

E que, concordando com minhas propostas e conteúdos, ajudem-me a torná-los conhecidas no Facebook, no Orkut e no twitter, bem como seguindo e divulgando o novo blogue –no qual tentarei oferecer um enfoque bem diferente de uma campanha eleitoral, mais reflexivo, jornalístico e literário–, até porque é isto que os leitores habituais esperam de mim. Sempre considerarei mais importante propagar os nossos ideais do que convencer alguém a votar em mim. Manterei esta linha.

De resto, inexperiente, sem mobilização na base e sem recursos, só terei sucesso se os internautas alavancarem a minha campanha, que vai ser bem do tipo  tostão contra milhão. [Se receber doações, produzirei folhetos caseiros e vou distribui-los pessoalmente; quem quiser me dar uma força, por favor, escreva p/ lungaretti@gmail.com.]

E peço antecipadamente desculpas pelos textos mais ligeiros que produzirei, até o 7 de outubro, para os outros espaços e tribunas. De qualquer forma, o compromisso há muito assumido de colocar todo dia algo novo no blogue Náufrago da Utopia será respeitado.

A sorte está lançada.


TEXTOS RECENTES DO BLOGUE "NÁUFRAGO DA UTOPIA" (clique p/ acessar):
VIVA E DEIXE VIVER

COMPARTILHAMENTO VIRTUAL É O SOCIALISMO EM MINIATURA

sexta-feira, 4 de maio de 2012

NADA IMPEDE QUE USTRA RESPONTA PELO ATENTADO DO RIO CENTRO


Eis dois incisos do Artigo 5 da Constituição Federal, com grifos meus:
  • XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;
  • XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático.
E eis o que o ex-delegado do Dops/SP, Cláudio Antônio Guerra, declarou a respeito do atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981: os comandantes da operação foram “os mesmos de sempre”, quais sejam (ele apontou) o coronel de Exército Freddie Perdigão, do SNI; o comandante Antônio Vieira, do Cenimar; e o então coronel Brilhante Ustra, do DOI-Codi paulista.

Guerra, portanto, acusou Brilhante Ustra de comandar um atentado terrorista, que não só é imprescritível e insuscetível de graça ou anistia, como nem sequer estaria abrangido pela anistia de 1979, pois esta só abarcou fatos ocorridos até 15 de agosto de 1979. Desta vez não há como ele sair pela tangente do  pacto de  conciliação nacional...
Quando ainda era uma revista, a
veja apontou os reais culpados.

Temos, portanto, um antigo comandado fazendo denúncia pública contra os comandantes (e também os outros executantes) de uma  ação terrorista. Nada, absolutamente nada, isenta os que continuarem vivos de responderem por tal tentativa de provocar um pânico que, ao que tudo indica, teria consequências as mais terríveis, com um sem número de espectadores de um espetáculo musical morrendo pisoteados.
  
A crermos no que a Folha de S. Paulo publica nesta 6ª feira (4), as autoridades estão, simplesmente, ignorando este crime gravíssimo:
"A Polícia Federal abriu investigação sobre o paradeiro de supostas vítimas do ex-delegado Cláudio Guerra, que afirma ter matado e incinerado corpos de presos políticos na ditadura militar.
O ex-policial prestou depoimento a um delegado da PF há cerca de um mês. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foram informados do relato, que está em sigilo.
A intenção é enviar as informações à Comissão da Verdade, ainda não instalada".
Não é só à Comissão da Verdade que devem ser enviadas as informações. O Ministério Público tem de ser imediatamente acionado, para verificar se existem criminosos a serem acusados e, em caso afirmativo, iniciar de imediato tais procedimentos.

A INTENÇÃO ERA INCULPAREM A ESQUERDA: 
PLACAS FORAM PICHADAS COM A SIGLA VPR.

O atentado em questão foi um dos casos mais emblemáticos de feitiço virando contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo de quem pretendia utilizá-la contra inocentes.


Agentes da repressão política, insatisfeitos com a desativação das unidades criadas especialmente para combater os grupos guerrilheiros, tentaram explodir três bombas para criar pânico durante uma apresentação de Chico Buarque e outros músicos famosos no Riocentro, em homenagem ao Dia do Trabalhador de 1981.

O objetivo era inculpar a esquerda pelo atentado, como forma de convencer o ditador Figueiredo de que os DOI-Codi's e outros centros de tortura continuavam sendo necessários e não deveriam ser extintos.

A confirmação veio de um ex-delegado/terrorista que virou pastor evangélico e agora sente remorsos dos crimes que praticou ou testemunhou.

Ele deu depoimentos aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto, cujo Memórias de uma guerra suja está sendo lançado pela editora Topbooks. O portal Último Segundo antecipou vários trechos do livro--vide aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Eis o que Guerra conta:
"Participei do atentado ao Riocentro e fiz parte das várias equipes que tentaram provocar aquela que seria a maior tragédia, o grande golpe contra o projeto de abertura democrática.
O destino daquela bomba era o palco. Tratava-se de um artefato de grande poder destruidor. O efeito da carga explosiva no ambiente festivo, onde deveriam se apresentar uns oitenta artistas famosos, seria devastador. A expansão da explosão e a onda de pânico dentro do Riocentro gerariam consequências desastrosas. Era evidente que muitas pessoas morreriam pisoteadas.
 Aquela bomba [que estourou por engano no colo do sargento Guilherme Pereira do Rosário] era uma das três que deveriam explodir no show. O capitão Wilson [Luís Chaves Machado] estacionou o veículo embaixo de um fio de alta tensão e a carga elétrica desse fio, a energia que passava em cima do Puma, fechou o circuito da bomba, provocando a explosão. O erro foi do capitão. (...) Eu era especialista em explosivos".
Em seguida, Guerra e sua equipe deveriam prender os esquerdistas a serem responsabilizados pelo atentado:
"Fui para lá com uma lista de nomes. (...) Mas deu tudo errado. Com a explosão da bomba no Puma, os militares policiais civis e os policiais civis que levavam outras duas bombas abortaram a operação".
Guerra revela que haviam sido suspensos todos os serviços de apoio do Riocentro, incluindo o policiamento e a assistência médica, para que não houvesse socorro imediato às vítimas. Até as portas de saída foram trancadas e, nas placas de trânsito, picharam a sigla da extinta VPR, para que parecesse ser um atentado da esquerda.

DELEGADO FLEURY, UM "ARQUIVO QUEIMADO".
SÓ O PERCIVAL DE SOUZA NÃO SABIA...

De resto, quem acompanha meu trabalho não terá sido surpreendido por nenhuma das ditas  revelações bombásticas  do livro. 

Nem a de que resistentes foram executados e tiveram seus restos mortais incinerados, nem a de que o delegado Sérgio Fleury (e também o jornalista Alexandre Von Baumgarten) foi vítima de uma queima de arquivo. É o que eu sempre disse. 

Quando a luta armada acabou, Fleury e outros rapinantes viram evaporarem duas fontes de vultosos ganhos adicionais: a divisão de tudo que apreendiam com os militantes e as gratificações de empresários fascistas.

Os torturadores da PE da Vila Militar (RJ) resolveram compensar as perdas achacando contrabandistas, depois tentaram até tomar deles uma carga mais valiosa, mas o episódio acabou em tiroteio e no desmascaramento dos bandidos fardados.

Já Fleury, bandido à paisana, desesperou-se com a falta de fundos para sustentar o vício na cocaína e chantageou seus ex-patrocinadores ricaços, ameaçando revelar o que sabia sobre eles: não só o financiamento de práticas hediondas, mas também a participação voluntária de alguns deles nas torturas. 

Reaças, canalhas e tarados, eles tomaram as providências cabíveis para manterem escondidas suas vergonhas. Onde já se viu dono de barco morrer afogado?

Percival de Souza que me desculpe, mas 2+2 continuam sendo 4. Então, desde sempre eu contava esta história como minhas fontes me relataram. E o delegado arrependido confirma agora a veracidade do que sempre afirmei: 
"Fleury tinha se tornado um homem rico desviando dinheiro dos empresários que pagavam para sustentar as ações clandestinas do regime militar. Não obedecia mais a ninguém, agindo por conta própria. E exorbitava. (...) Nessa época, o hábito de cheirar cocaína também já fazia parte de sua vida. Cansei de ver.
....Dias depois [de Guerra ter começado a vigiá-lo, buscando detectar uma oportunidade para o assassinarem] os planos mudaram, porque Fleury comprou uma lancha. Informaram-me que a minha ideia do acidente seria mantida, mas agora envolvendo essa sua nova aquisição – um ‘acidente’ com o barco facilitaria muito o planejamento".
Segundo Guerra, Fleury foi dopado e ainda atordoaram-no com uma pedrada na cabeça, antes de o atirarem no mar.

Por último: quanto aos 11 companheiros massacrados e  sumidos  pelas bestas-feras da repressão, os casos eram igualmente notórios; só se acrescentaram detalhes, reavivando nossas feridas. 

Prefiro lembrar-me do sempre sereno Joaquim Pires Cerveira cantando seus sambas para nos animar durante o calvário no DOI-Codi carioca e do jeito ingênuo de  garotão  que o Bacuri exibia nos seus bons momentos.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O CALVÁRIO DE BATTISTI NO BRASIL É O TEMA DE "AO PÉ DO MURO"

Já lançado em outras capitais brasileiras, o novo livro de Cesare Battisti, Ao pé do muro (Martins Fontes, 2012, 304 p.), será apresentado aos paulistanos amanhã (5ª feira, 26), a partir das 18 horas, no anfiteatro da Faculdade de Geografia da Universidade de São Paulo.

Dá sequência ao relato de suas vicissitudes desde que o governo italiano conseguiu fazer com que a França traísse o compromisso solene com ele (e outros fugitivos italianos) assumido, de lhe proporcionar refúgio enquanto se mantivesse afastado da política. Depois de levar vida comum e produtiva entre 1991 e 2004, começando como zelador e aos poucos se consagrando como autor de novelas policiais, foi atirado no que apropriadamente definiu como Minha fuga sem fim (título do volume inicial de suas memórias de perseguido político, Martins Fontes, 2007, 288 p.).

Nele narrou, de forma empolgante, a formidável campanha de manipulação da opinião pública e as pressões políticas e econômicas orquestradas para que os franceses revogassem, na prática, a generosa Lei Mitterrand. Em segundo plano, vão desfilando as lembranças da família comunista, do progressivo engajamento político até chegar à contestação armada, da militância nos Proletários Armados para o Comunismo, da prisão, do julgamento, da fuga, da clandestinidade na França e no México e, finalmente, dos 13 anos de existência tranquila em Paris. 

Depois veio Ser bambu (Martins Fontes, 2010, 224 p.), quando a traumática retomada da fuga o leva à ilha da Madeira e às ilhas Canárias, sempre controlado atentamente pela espionagem européia. 

Ao pé do muro recapitula o período que viveu clandestino no Brasil, de 2004 até sua detenção em março de 2007, mais o dia a dia na área de custódia da Superintendência da Polícia Federal no DF (em que permaneceu até julho de 2008, quando foi transferido para um local bem menos opressivo, o Centro Penitenciário da Papuda). O muro em questão é aquele no qual ficava encostado, refletindo, enquanto tomava banho de sol

Foi a fase em que ficou conhecendo sua atual companheira, que estava incumbida de o vigiar, tendo, paradoxalmente, a relação evoluído para um caso de amor.  

Suas memórias cariocas mostram o lado da  Cidade Maravilhosa  que  não aparece nos guias turísticos:  os morros submetidos à autoridade das gangues, as pessoas simples vitimadas por fogos cruzados e balas perdidas, prostituição, desigualdade, pobreza. Passa o tempo mais a observar e interpretar do que a agir, como o Mersault de O Estrangeiro, de Albert Camus. Leva uma vida provisória, atravessando os dias sem perspectivas, temendo e adivinhando o desfecho funesto.

 "SUBVERSIVOS" BRASILEIROS: IRMÃOS À DISTÂNCIA

Este trecho me sensibilizou, pois viria a ser eu um dos  irmãos à distância  brasileiros que, em nome das dores comuns, o ajudariam:
"...dentro de alguns minutos, estaria sentado nas pedras do Arpoador. Um lugar de beleza e morte. Eu tinha lido em algum lugar que, na época da ditadura, naquela rocha lisa e clara que mergulha no oceano separando a praia de Copacabana da de Ipanema, os militares aqueciam a pedra em brasa antes de nela estenderem os 'subversivos'. Seria isso que me consolava naquele lugar, depositar minhas dores junto à daqueles homens que haviam sido meus irmãos à distância? Não sei, só ficava ali olhando o sol confundir-se com a água." 
As histórias da prisão da PF, dos outros prisioneiros e até de um carcereiro nos remetem ao Dostoievski de Recordações da Casa dos Mortos, a muitos livros de Jorge Semprún e a outros tantos de Alexander Soljenítsin. Algumas são interessantes e pungentes, outras nem tanto. Mas ajudam a compor o painel que Battisti vai montando do Brasil, com direito  a incursões pela prática generalizada da corrupção, pelo inferno das drogas, pelas ocupações dos sem-terra, pela manipulação mesmerizante/bovinizante da indústria cultural, pelos crimes contra a natureza e contra os homens que ocorrem impunemente na Amazônia, etc.

E de que forma o homem acossado, espionado, monitorado e até drogado por uma rede permanente de vigilância se define? Como um ser tão prostrado quanto o Joseph K. no final de O Processo:
"Eu vinha de uma viagem demasiado longa, e estava exausto, fragilizado por anos de perseguições, mentiras, ameaças e privações  (...) Tempo demais arrastando a vida numa mochila. De um lugar para outro sem destino certo, de avião, de barco, a pé, de táxi. Uma quantidade enorme de táxis amarelos sempre parando em ruas anônimas. Fugas grandes e pequenas, perigos reais e falsos alarmes, circunspecção legítima e delírio, medo, sempre o medo dos onipresentes perseguidores, homens e mulheres, caçadores oficiais e clandestinos, sempre no meu encalço, dia e noite, onde quer que eu fosse. Por que não me prendiam? Por que vigiar todas as minhas idas e vindas a esperar, dia após dia, durante meses, anos? E esperar o quê?
Em breve descobriria o jogo deles, mas seria tarde demais. Enfim, tarde demais para quê? Para continuar tremendo a cada porta que batia? Para optar pela solidão de modo a não poluir uma mulher com meus problemas? Para me alimentar aqui e ali, e dormir nos arredores das estações, sempre perto demais dos traficantes de toda espécie? Para quebrar a cabeça fotografando esses homens e mulheres que revistavam sistematicamente toda morada em que eu vinha parar, mesmo que por meio dia apenas... Era assim que eu vivia no Rio".
A espiã/namorada e outra personagem constataram, surpresas, que ele era inofensivo, bem diferente do  perigoso terrorista  que seus contratantes haviam pintado. Battisti concorda, avaliando-se como "um restolho dos anos 1970, que já na época era um pequeno sonhador, e hoje é um velho sonhador babaca".  

"UM PEQUENO EXÉRCITO EM DEBANDADA"

O desalento vinha de longe. Antes mesmo de voltar a ter a cabeça a prêmio, já se rompera nele o encanto, golpeado rudemente pela sucessão de tragédias que marcou sua geração:

"...naqueles tempos de transição entre a efervescência revolucionária pós-1968 e o baixo astral dos anos 1980, eu vagava, com os outros todos, na névoa de uma clandestinidade sem volta e sem objetivo que não sobreviver. Éramos o que restara de um pequeno exército em debandada".

Minha postura é outra: permaneço na luta até hoje, também sofrido, sem a ingenuidade de outrora, mas com o mesmo ardor.

Tenho, contudo, máxima simpatia e respeito pelo antigo guerreiro que hoje busca o merecido repouso --e nem isto está conseguindo, pois continua enfrentando muitas dificuldades e tem evidências de sobra de que não foi esquecido pelos inquisidores.

É impossível não se comover com este desabafo de Battisti, situado em 2006 ou 2007
"...estou cansado de arrastar minha vida de um lugar para outro, fugindo do inevitável. Não aguento mais, estou exausto, os anos vão passando e eu não vejo minhas filhas crescerem. Não consigo mais imaginar o rosto delas. Eu faço força, mas não consigo, e sinto vergonha disso. Eu perdi tudo. Mas não elas. Eu quero as minhas duas filhas. Eu sou o pai delas".
Agora pode, ao menos, recebê-las em liberdade. Mas acompanhá-las no cotidiano, só quando a Itália desistir de sua  vendetta  infame ou a França lembrar que um dia já quis ser a terra da liberdade.

Pois o que Battisti mais sonha é com a volta à Paris onde se deu tão bem e de onde nunca deveria ter saído.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

SOBRE O ESCRACHO, O PIG, O MACARTISMO E OUTROS TEMAS

Surpreendeu-me encontrar na minha caixa postal uma mensagem de Francisco Foot Hardman, escritor, ensaísta, crítico literário e professor de Teoria e História Literária da Unicamp.

Ele me recomenda o seu artigo publicado neste domingo (22) em O Estado de S. Paulo, O poder do escracho, por ser afim dos meus escritos sobre o mesmo tema.

Corretíssimo. Tem mesmo tudo a ver comigo, tanto que o recomendo enfaticamente (vide íntegra aqui). Eis uma amostra:
"Os espectros dos desaparecidos são o GPS real que guia essas alegres levas do Levante. Boa parte das centenas de jovens e representantes de familiares de desaparecidos da ditadura que se espalharam em manifestações políticas contra o esquecimento e a impunidade de torturadores e outros responsáveis pelas ações do aparato de terrorismo do Estado durante a ditadura militar em cidades como São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Fortaleza, não viveu aqueles anos. 
Isso é tanto mais notável quanto virou idéia fixa repetir que o Brasil é o país da desmemória. Quantos Harry Shibatas precisarão ser ainda desmascarados? Porque é certo que este médico-legista coqueluche da 'legalização' dos extermínios praticados por agentes da Oban e do Deops, não foi caso único no amplo aparato do terror instalado pelos serviços da inteligência do regime militar.
Quantos mais foram cúmplices dos perpetradores, administrando a ciência médica a serviço da 'otimização' das dosagens de tortura? Quantos juramentos de Hipócrates rasgados sem nenhuma punição dos conselhos regionais ou nacional de medicina?
O escracho é uma manifestação legítima e eficaz. Comprovou-se isso na Argentina, no Chile e no Uruguai...
...É, na verdade, um livre momento de expressão e desabafo da sociedade civil organizada. A informação precisa e atualizada, a rapidez e leveza de sua estrutura de mobilização, em que a internet joga, como em outros exemplos recentes de democracia direta, um papel decisivo, bem como a imaginação criadora de suas variadas formas, esses são seus ingredientes de sucesso".
DESINFORMAÇÃO E LISTAS NEGRAS

Meu estranhamento se deveu a serem raros os  acolhidos na grande imprensa  que têm coragem de assumir vínculo ou identificação com os  boicotados pela grande imprensa: nós, os que só conseguimos divulgar nossos textos na internet. Quanto muito, repetem nossas teses e argumentações sem citarem a fonte.

O PIG e a web cada vez mais se tornam dois planetas diferentes e, na maioria dos casos, hostis. O primeiro ignora a segunda. A segunda critica acerbamente (quase sempre com justos motivos) o que faz o primeiro.

Para quem escreve com o objetivo de influir nos acontecimentos e não por deleite ou vaidade, é uma limitação terrível. 

Duelando em igualdade de condições com os inquisidores no território livre da internet, conseguimos convencer as minorias conscientes de que seria uma ignomínia extraditarmos Cesare Battisti para cumprir a sentença farsesca de um tribunal de cartas marcadas, que funcionou sob uma legislação típica de ditaduras (passados os  anos de chumbo, a escabrosa lei instituída exclusivamente contra os ultraesquerdistas foi revogada, mas não se anularam as condenações dela decorrentes!). 

Um dos principais coadjuvantes da ofensiva italiana, juiz aposentado que escreve na CartaCapital, chegou a desertar do debate que iniciara comigo numa tribuna virtual, com os comentários postados pelos internautas quase todos me apoiando.

Então, era extremamente frustrante assistirmos, impotentes, à mídia desinformando o cidadão comum, a  maioria silenciosa cuja cabeça ela faz, sem a mínima consideração pelas boas práticas jornalísticas, como a de publicar contestações relevantes do  outro lado. Se nos dessem o mínimo de espaço, pulverizaríamos um por um os Minos Cartas da vida --que, sabiamente, esquivavam-se de polemizar conosco (caso do dito cujo, desafiado "n" vezes pelo Rui Martins, pelo Carlos Lungarzo e por mim).

O Lungarzo e eu chegamos a enviar para mais de mil jornalistas o oferecimento de provas incontestáveis de que Battisti tinha sido defendido no segundo julgamento por advogados que não constituiu, munidos de procurações falsificadas. E, como quem desmascarara a tramóia havia sido a Fred Vargas (principal novelista policial da França, tida como uma nova Agatha Christie ou Patricia Highsmith), incluímos um brinde: ela se dispunha a conceder, complementarmente, uma entrevista exclusiva. Um presentão para qualquer profissional de imprensa. NENHUM(A) se interessou.

Vários meses depois, o correspondente do  Estadão  na França ouviu o mesmíssimo relato da boca da Fred e mandou a notícia de lá. Foi, afinal, publicada.

Será que aqueles mais de mil jornalistas tinham desaprendido o ofício? Ou o bloqueio contra qualquer conteúdo contrário à corrente dominante (pró linchamento) era total nas editorias de Política Nacional, de forma que só poderia ser driblado numa menos  estreitamente vigiada, como a do noticiário internacional?

 Agora mesmo, teve grande destaque a acusação do digno ministro Joaquim Barbosa a um atrabiliário medievalista que nunca mereceu integrar o Supremo Tribunal Federal e finalmente pendurou a toga, de manipular um julgamento da Lei da Ficha Limpa.

Aproveitando a deixa, divulguei amplamente um crime adicional --muito pior!-- cometido pelo mesmo indivíduo, o de manter o escritor Cesare Battisti sequestrado depois do seu caso já estar decidido, na esperança de induzir seus colegas a uma virada de mesa legal.

Com palavras mais veementes, apenas repeti o que haviam afirmado o grande Dalmo de Abreu Dallari e o ministro mais articulado do Supremo, Marco Aurélio Mello: a prisão de Battisti deveria ter sido relaxada tão logo o Diário Oficial publicou a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornando-se, a partir daquele instante, ilegal. E a ilegalidade durou mais de cinco meses, ao cabo dos quais o próprio STF reconheceu que nada mais havia a se discutir, só lhe cabendo cumprir a decisão que delegara a Lula.

Por que não responsabilizarmos por tal aberração o linchador que presidia o Supremo (e também o relator Gilmar Mendes)? Por que a grande imprensa deu tanto destaque a uma acusação difícil de se provar e nenhum a uma indiscutível e irrefutável?

Por dois motivos principais:
  • para não dar a mão à palmatória quanto às muitas arbitrariedades cometidas contra Battisti que ela tinha omitido ou minimizado anteriormente; e
  • para não levantar a bola de jornalistas revolucionários (agiria da mesmíssima forma se a acusação proviesse do Ivan Seixas, Laerte Braga, Rui Martins, Alípio Freire, Altamiro Borges, etc.).
OS JOVENS VOLTAM ÀS RUAS

Mas, repito, tal macartismo velado não impede que jornalistas e outros autores que têm espaços fixos na mídia inspirem-se em nosso trabalho e o reconheçam.

Por mais exasperante que seja a situação de confinado à web, eu me consolo com a lembrança dos anos de intimidação e censura: tudo era bem pior.

E, tanto quanto naqueles tempos sombrios, continuam verdadeiros os versos de Sérgio Ricardo: "cada verso é uma semente/ no deserto do meu tempo".

O deserto continua causticante, mas as sementes já começam a frutificar:
  • os jovens foram às ruas lutar contra o autoritarismo redivivo nos episódios da proibição da Marcha da Maconha, da ocupação fascistóide da USP, da blitzkrieg na Cracolândia e da barbárie no Pinheirinho;
  • fizeram passeatas contra a ganância e a corrupção;
  • protestaram contra a ilegalidade cometida pelos saudosos do arbítrio ao exaltarem os horrores ditatoriais (com a conivência de autoridades que ignoraram olimpicamente seu compromisso com a democracia);
  • e aplicaram a antigos carrascos e serviçais do terrorismo de estado a única punição possível (moral) face à tibieza dos Poderes constituídos, aos quais caberia aplicar-lhes penas compatíveis com a gravidade dos crimes hediondos que cometeram.
Foram manifestações que nos lavaram a alma e revigoraram nosso ânimo!

Nós, os que marchamos contra a corrente da desumanização, continuaremos travando o bom combate na internet e nas ruas, sem nunca desistirmos de invadir as praias do sistema e com a certeza de que nossos textos são as sementes de um futuro igualitário e livre.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

COMISSÃO DA VERDADE NÃO PODE IGUALAR ALGOZES E VÍTIMAS!!!

Deu na coluna Panorama Político do jornal O Globo, que geralmente acerta:
"Comissão da Verdade - O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), por delegação da presidente Dilma, está fazendo consultas e convites para os sete integrantes da Comissão da Verdade. Já estão confirmados o ex-ministro Nilmário Miranda e o cardeal Dom Evaristo Arns. A comissão terá um tucano: José Gregori ou Paulo Sérgio Pinheiro. E um familiar de vítima da repressão pela ditadura militar: Clarisse Herzog, mulher de Wladimir Herzog, ou Vera Lucia Facciolla Paiva, filha do ex-deputado Rubens Paiva.

...Estão ainda em aberto as vagas destinadas a um historiador e a um jurista. (...). O sétimo nome será escolha pessoal da presidente Dilma".
Reitero minha afirmação de que é inaceitável o veto a quem pegou em armas contra a ditadura.

Trata-se de mais uma pretensão das bancadas reacionárias do Congresso; já passou da hora de a presidente Dilma Rousseff mostrar a que veio, não cedendo a pressões e chantagens obscurantistas. A igualação das vítimas a seus algozes seria uma afronta para todos que sangramos na luta contra o despotismo e para todos os companheiros bestialmente assassinados durante a vigência do terrorismo do estado.

Não faria mesmo sentido nenhum termos um Jarbas Passarinho ou um Brilhante Ustra defendendo na Comissão os crimes e práticas hediondas pelos quais deveriam há muito ter sido condenados (um na condição de ministro da ditadura e signatário do AI-5, outro por haver comandado o pior centro de torturas da repressão, sendo o responsável último por cada sevícia e cada morte nele ocorridas).

Mas, fará todo sentido um Ivan Seixas, p. ex., estar presente para lutar pelo resgate integral da verdade, como lutou encarniçadamente para resgatar as ossadas de Perus.

Se nós, que participamos da luta armada, formos tidos como desprovidos de legitimidade e isenção para ajudarmos a revelar a história do período, tal objeção deveria, evidentemente, ser estendida à própria escolha dos sete integrantes por parte da companheira Vanda. É simples assim.

O que está em confronto são duas posições bem definidas:
  • a dos que resistimos à tirania e consideramos aberrante a comparação da luta quase suicida que travamos, em condições de extrema inferioridade de forças, com o genocídio e as atrocidades perpetrados pela ditadura e seus esbirros;
  • a dos culpados por tais genocídio e atrocidades, que tentam relativizar as chacinas impunes alegando que "excessos foram cometidos pelos dois lados", de forma que o melhor seria passarmos uma borracha em cima de tudo.
Em nome de sua biografia e de tudo que sacrificamos para travar o bom combate, não cooneste esta infâmia, Presidente!!!
OUTROS TEXTOS RECENTES (clique p/ abrir):
SARACENI (1933-2012): NO TEMPO DO MEDO, ELE OUSOU LANÇAR O DESAFIO
CRÔNICA DA PONTE QUE PARTIU
COPA DOS HORRORES E DO FRACASSO ANUNCIADO
BANCOS DEITAM E ROLAM: BRASIL É UMA MÃE PARA OS AGIOTAS

terça-feira, 10 de abril de 2012

SRª TORTURADOR: SÓ TEME A VERDADE QUEM TEM ESQUELETOS NO ARMÁRIO

A senhora Maria Joseita Silva Brilhante Ustra me critica (vide aqui) por "cercear a liberdade de expressão dos militares da reserva", o que nunca fiz.

Refere-se ao meu inconformismo diante da exaltação impune do golpismo, da tirania, do terrorismo do estado, do genocídio, da tortura, das prisões arbitrárias, do estupro e da ocultação de cadáveres que teve lugar dia 29 no Clube Militar do Rio de Janeiro.

A civilização repudia incisivamente todas estas práticas, dona Joseita.

As nações que fazem respeitarem os direitos civis e humanos punem com detenção quem faz apologia de tais monstruosidades. O proselitismo da prática de atrocidades só é consentido no Brasil em razão da covardia e pusilaminidade de nossos legisladores e governantes.

Se tivessem agido a partir de 1985 como a ONU recomenda, seu marido Carlos Alberto Brilhante Ustra, declarado torturador pela Justiça Civil por ter comandado um dos piores infernos do regime infernal de 1964/85, estaria há bom tempo cumprindo merecida pena de prisão, após um julgamento como o de Nuremberg.

Em benefício dos jovens que geralmente são educados na ignorância daqueles horrores, bem como dos idosos que só recebiam informações censuradas e distorcidas, vou citar aqui a definitiva avaliação que a revista Época (vide aqui) fez de tal personagem:
"Entre 1970 e 1974, Ustra foi o comandante do DOI paulista, uma antiga delegacia reformada na Rua Tutóia, na Vila Mariana, em São Paulo. Lá funcionou o mais conhecido centro de torturas do regime militar que governou o país entre 1964 e 1985. Ustra assumiu o comando no apogeu da repressão. Durante sua passagem, o número de mortes e desaparecidos é calculado em 47 pessoas.

...As denúncias de tortura chegam a muitas centenas. Era um período de tanto medo e tanta insegurança que as famílias ficavam felizes quando liam num jornal que um filho fora preso. A publicação da notícia dava ao menos a esperança de que, embora estivesse condenado a padecer sob tortura, ele poderia ser encontrado com vida nas semanas seguintes.
 ...Ustra acabou identificado como símbolo daquilo que o regime militar brasileiro produziu de mais nocivo – a crueldade, a morte, o desaparecimento, a violência contra cidadãos desarmados e sem defesa"
São inuteis seus esforços para tapar o sol com a peneira, dona Joseita. O veredicto da História sobre Ustra já é definitivo e foi sucintamente expresso pelo ex-ministro da Justiça José Carlos Dias numa frase antológica: “emporcalhou com o sangue de suas vítimas a farda que devera honrar”.

Sua grotesca impunidade dá razão ao juízo sobre o Brasil que é atribuído a Charles De Gaulle, de não ser um país sério: não há lugar nenhum do mundo em que seja outorgado aos mais desalmados tiranos e a seus mais terríveis esbirros o direito de anistiarem a si próprios, em plena vigência do despotismo, como um habeas corpus preventivo para evitarem punições após a saída das trevas.

O Supremo Tribunal Federal avalizou esta ilegalidade e imoralidade. Caso os nazistas houvessem tido a mesma idéia, sem que ninguém impedisse os loucos de ditarem as regras no hospício, inexistiria o Julgamento de Nuremberg.

Também recuso a pecha de  machista, pelo menos da forma como a senhora me quis rotular.

Ao qualificá-la de alegada  administradora do site A Verdade Sufocada, não foi por duvidar de sua capacidade intelectual para administrar uma página virtual.

Foi, pelo contrário, porque é muito difícil para mim aceitar a idéia de que uma mulher seja a responsável última por tal depósito de imundícies.

Ficaria igualmente chocado se me dissessem que uma mulher pilota um site de pedófilos, p. ex.

Concedi-lhe o benefício da dúvida, admitindo a possibilidade de tratar-se apenas de outra Eva Braun ou Clara Petacci. Elas ligaram seus destinos a abominações, mas não se acumpliciaram com atos abomináveis.

Infelizmente não é o seu caso, dona Joseita, conforme fiquei depois sabendo, a partir de uma busca virtual. Posso até desculpar as falácias e bobagens que escreve a meu respeito, mas jamais perdoarei a utilização do nome de suas inocentes crianças numa canhestra tentativa de fazer crer que Ustra não fosse um ogro.

Lembra? Foi em 1985, quando Bete Mendes, grande atriz e extraordinária mulher, arrancou a máscara do seu marido, que até então escondia dos brasileiros seu passado infame de  dr. Tibiriçá.

Ainda é encontrada na web (vide aqui) a mensagem que a senhora teria manuscrito apenas para suas filhas Patrícia e Renata, mas foi amplamente divulgada pelo Ustra nos espaços virtuais ultradireitistas, como o site do Grupo Guararapes.

Nela se pinta um quadro absolutamente fantasioso do que era o DOI-Codi, conforme se constata neste parágrafo (há muitos outros na mesma linha):
"...nos 'porões da tortura', como eles chamam, onde 'se ouviam gritos e se mostravam presos mortos à pauladas' como eles dizem, participei e tu também, Patrícia, ainda que pequenina (3 anos) de uma pequena 'obra assistencial' a algumas presas, mais ou menos seis, uma inclusive grávida. Íamos quase todos os dias. Tu brincavas com algumas enquanto eu, com outras, ensinava trabalhos manuais como tricô, crochê e tapeçaria. Passeávamos ao sol, conversávamos (jamais sobre política), levava tortas para o lanche feitas pela minha empregada. Enfim, as acompanhávamos"
É este o local em que 47 dos melhores cidadãos que este país produziu foram abatidos como cães e centenas de outros sofreram suplícios atrozes?

É este o local em que Ivan Seixas, então um menino de 16 anos, foi torturado juntamente com o pai Joaquim Seixas (em seguida assassinado) com tamanha violência que a algema que os ligava se rompeu?

É este o local em cujas celas várias vezes estive de passagem para depor nas auditorias paulistas (pois era prisioneiro do 1º Exército), mas o suficiente para ouvir a barulhada da pancadaria, os gritos desumanos dos torturados e, mais tarde, seus relatos agoniados?

É este o local em que, na minha primeira passagem, o comandante anterior ao seu marido fez questão de me mostrar, orgulhosamente, o trono do dragão, cadeira metálica na qual as vítimas eram atadas para receber choques elétricos?

Por último, dona Joseita: é inútil tentar desqualificar-me repetindo velhas acusações que faziam contra mim antes que a verdade histórica fosse restabelecida... exatamente com base naqueles documentos secretos que os antigos torturadores negam existir, mas utilizam a todo momento na sua propaganda enganosa e em suas campanhas de satanização dos heróis e mártires da resistência à tirania.

Nem que eu fosse mesmo culpado das fraquezas que me atribuíram erroneamente, ainda assim não passaria de um jovem que aos 17 anos assumiu, por amor ao povo brasileiro, o risco de confrontar uma ditadura assassina.

Nunca isto servirá como atenuante para um militar que, com o amadurecimento dos seus 35 anos, aceitou cumprir ordens ilegais e hediondas, cometendo indiscutíveis crimes contra a humanidade.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

AUTORIDADES ALERTADAS SOBRE INSTIGAÇÃO DE BRILHANTE USTRA

O professor Carlos Lungarzo (foto), militante da Anistia Internacional há 32 anos, considerou das mais perigosas a situação criada pelo torturador Brilhante Ustra, ao trombetear nome, dados pessoais e fotos de cinco participantes da manifestação de repúdio à ditadura de 1964/85 que teve lugar diante do Clube Militar do Rio de Janeiro na semana passada.

Assim, Lungarzo enviou um alerta máximo, em inglês, francês e espanhol,  às redes de direitos humanos no Brasil e no exterior, pedindo-lhes para tornarem amplamente conhecida tal ameaça.

Cientificou também o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo e o senador Eduardo Suplicy

Espera-se que providências sejam tomadas para garantir a vida e a integridade física dos manifestantes.

Na manhã desta 4ª feira (4) continuava no ar, no site em que Brilhante Ustra (tendo sua esposa como alegada administradora...) defende o totalitarismo e o terrorismo de estado do qual foi uma das principais expressões, o post Identificado jovem cuspidor do conflito no Clube Militar. Vide aqui

O justificado temor é que seus seguidores entendam a publicação como o que parecer ser: uma instigação a retaliações violentas.

Repito o que disse na minha primeira denúncia: se qualquer um deles sofrer uma agressão covarde como as que eram marca registrada da ditadura militar, já sabemos quem deve ser responsabilizado como indiscutível instigador e provável mandante.

Assim como reafirmo minha perplexidade diante da forma acintosa com que Ustra retoma suas antigas atividades, agora à frente de uma espécie de DOI-Codi privado. Afinal, se até as intimidações da ditadura continuam sendo consentidas, para que serviu 1985?

Finalmente, é repulsiva a chantagem emocional de Ustra, ao fazer uma novela lamurienta acerca da idade do coronel aviador Juarez Gomes da Silva, o alvo da cusparada.

Não se trata de um doce e inofensivo octogenário, mas sim do presidente do Ternuma-RJ, portanto dedicado dia e noite à justificação/exaltação do arbítrio, minimização de atrocidades, distorção de episódios históricos e satanização dos heróis e mártires da resistência à tirania (contra os quais move campanhas permanentes de difamações, calúnias e injúrias).

Ele pode ser visto numa IstoÉ de 2003 se dispondo a desenvolver uma campanha publicitária para apresentar membros do governo (inclusive a então chefe da Casa Civil Dilma Rousseff) como "terroristas" e declarando que o então ministro da Justiça Tarso Genro não passaria de um "canalha" (acesse aqui).
TEXTOS CORRELATOS (clique p/ abrir):
CLUBE MILITAR: BRILHANTE USTRA INCITA REPRESÁLIAS CONTRA MANIFESTANTES
PM FRATUROU BRAÇO DE MANIFESTANTE NO PROTESTO DIANTE DO CLUBE MILITAR
TUMULTO NA FESTA ANUAL DO CLUBE DOS MONSTROS

terça-feira, 3 de abril de 2012

PM FRATUROU BRAÇO DE MANIFESTANTE NO PROTESTO DIANTE DO CLUBE MILITAR


Santana: "O troglodita que me agrediu é produto
de uma formação militar absolutamente equivocada".
A jornalista Ana Helena Tavares entrevistou um manifestante que sofreu ferimentos leves e outro cujo braço foi fraturado pela PM no último dia 29, diante do Clube Militar do Rio de Janeiro, durante o protesto contra oficiais da reserva que cometiam, impunemente, o crime de fazer apologia do totalitarismo e do terrorismo de estado. Leia a íntegra aqui.

Como na canção célebre de Chico Buarque, parece que o jeito é chamar o ladrão, pois a polícia barbariza os homens de bem e atua como guarda pretoriana dos pregadores de quarteladas, ditaduras, torturas, genocídios, execuções a sangue frio, estupros, ocultação de cadáveres, etc.

Várias vezes já propus às forças democráticas brasileiras e aos cidadãos com espírito de justiça que levantem a bandeira da proibição de se fazer apologia do golpe de 1964, com o indiciamento e instauração de processos contra os infratores. 

Negar o Holocausto é crime nos países civilizados, levando à prisão até historiadores. Está mais do que na hora de o Brasil assumir idêntica postura em relação aos que até hoje envenenam a mente das novas gerações com exortações em tudo e por tudo equiparáveis às dos nazistas.

Eis os principais trechos da excelente reportagem de Ana Helena:
"'Ali, a gente não estava fazendo um carnaval, não estava fazendo palhaçada. Para ver um cara que foi do regime que matou rindo das fotos dos companheiros que foram mortos e sumiram. Rindo também de gente que estava lá, que tinha sido torturada e que traz cicatrizes no corpo', desabafa Rodrigo Mondego, de 27 anos, bacharel em direito, que esteve na quinta-feira, 29 de março, em frente ao Clube Militar no Rio de Janeiro, protestando contra a comemoração do golpe de 64.
Ele não estava sozinho. Segundo seus cálculos, havia cerca de 700 pessoas. Gustavo Santana, sociólogo, de 28 anos, também estava lá. Ambos dizem ter sido agredidos por PMs. Mondego sofreu ferimentos leves, porém Santana teve o braço quebrado e terá de ser operado.
Os jovens pensam em processar o Estado pelas agressões dos PMs e o Clube Militar por apologia ao crime: 'Para mostrar que alguma coisa tem de ser feita. Porque nós ainda não chegamos ao ideal pretendido pelos que lutaram contra a ditadura e o Estado tem que ser responsabilizado pelas atrocidades cometidas naquele período', diz Santana, que completa: 'O troglodita que me agrediu pode até ter consciência do que fez, mas ele é produto de uma formação militar absolutamente equivocada. E temos que discutir, inclusive, por que a polícia tem de ser militar. Ela pode nos proteger, mas é o contrário'.

Os dois estão receosos pela vida de um colega, Felipe Garcês (conhecido como 'Pato'), de 22 anos, que foi fotografado cuspindo em um militar e está sendo ameaçado de receber represálias. A foto (...) foi publicada na Veja.com, no blog de Reinaldo Azevedo, que chama Garcês de 'baderneiro'.

Eles [Santana e Mondego] consideram que participar do ato contra a comemoração do golpe foi uma obrigação cidadã: 'Nós tínhamos a obrigação de estar ali. Muita gente deu a vida para que nós pudéssemos ter o direito à livre manifestação. E a essas mesmas pessoas foi negado o direito de ter história, porque muitos desapareceram. E acho que nós, como signatários dessa luta, temos que estar na rua para dizer que enquanto essas pessoas não aparecerem a luta ainda não acabou. A luta delas ainda existe e é a nossa luta', diz Santana.
O jovem sociólogo [Santana] descreveu a forma como foi agredido na manifestação do dia 29: 'Eu estava correndo e tomei uma pancada. Vi quando o PM me bateu e olhei na cara dele. Ele sabe que bateu para me machucar. Fumaça, bomba… Só senti quando meu braço ficou pendurado', lembra Santana, que conclui: 'Vivemos num Estado Democrático de Direito, mas as atrocidades (da PM) são as mesmas'.
Segundo Mondego, o ato contra a comemoração do golpe de 64 'começou de maneira pacífica, tranquila'.
Mondego: os oficiais da reserva
faziam "apologia do crime".
Considera que os militares participantes do evento pró-golpe, mesmo os que não foram torturadores, 'estavam lá, por livre e espontânea vontade, festejando um período onde houve estupro de militantes, pau-de-arara, desaparecimentos. O fato de ele estar comemorando aquele golpe faz com que ele esteja torturando hoje os filhos de todo mundo que foi torturado. Está torturando os filhos dos desaparecidos. Está fazendo apologia do crime'.
Alguns manifestantes, sentido-se provocados por militares que, contam os entrevistados, 'debochavam e faziam gestos obscenos', resolveram comprar ovos na hora. Mondego estava com alguns na mão, quando ouviu de um senhor ao seu lado: 'Meu filho, me dá a honra de me dar um ovo desses para eu tacar num fascista'. Ele tinha tido um irmão morto pela ditadura.
'Aqueles ovos não davam para acertar em ninguém, tinha muita tropa de choque. Mas era uma questão simbólica. A gente queria tacar ovo na comemoração, não em ninguém específico', pondera o jovem.

Além da agressão que ele próprio sofreu, levando um soco na boca do estômago, Mondego conta ter presenciado a cena de um colega seu da UFRJ caído no chão e recebendo choque com pistola elétrica de PMs.
'A organização do evento não foi boa e a polícia foi extremamente irresponsável. Muita gente apanhou. Muito gás lacrimogêneo. Enquanto isso, os militares saíram de fininho pelas escadas do metrô. Teve cuspe, porque provocaram. Mas ninguém os agrediu', garante.
E completa: 'A sensação que ficou é que, como eles nunca foram punidos, se acham no direito de debochar da história do País'".
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