segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O outro lado da liberdade - por Graça Andreatta

O outro lado da liberdade - por Graça Andreatta
O outro lado da liberdade
Em 37 anos de espera pela anistia nunca havia chorado por ela ou por ter necessidade dela. Sim, não fui uma prisioneira política mas estive algemada durante todos esse tempo às conseqüências da Ditadura. O que significa que só quem viveu o sabe.
Descrever a visita da Caravana da Anistia em 24 de setembro, a Vitória, ao Estado-ES, é derramar, enfim, algumas muitas lágrimas. Sim, pois todos os que estavam no recinto da sala 398, se não me engano, na turma 2, pois eram muitos os anistiados – alguns não compareceram e devemos buscar saber o porquê – todos choraram, inclusive a mesa julgadora.
Se houve justiça econômica, ou não, para ressarcir os desmandos acontecidos, as sequelas físicas e morais que permanecem, não é este o caso. O grande momento, o grande ressarcimento tem dois momentos marcantes: a oferta da bandeira que vai crescendo a cada entidade ou órgão que envia um retalho para que ela, a bandeira da anistia, se torne do tamanho do Brasil em forma de liberdade; e o segundo momento quando todos se levantam para que o Estado do Brasil possa pedir perdão ao, enfim, anistiado ou à anistiada.
Ali foram descritas, de forma resumida, as torturas sofridas por mulheres grávidas, na época, cujo fruto, uma linda filha, estava lá para também ser anistiada; ali estavam as ex-mulheres que fugiram junto com seus então maridos para que o sonho de liberdade pudesse continuar após as várias prisões que sofreram; ali estavam sonhos e vidas interrompidas em estudos, em lazeres, em amores, em separações e uniões, em mortes e saudades.
Ouvir o relato de torturas da Dra Magdalena Frechiani e sua filha Janaina; de Iran Caetano e sua ex-esposa Ângela; ouvir a leitura de suas denúncias tímidas, diante do tanto que sofreram por lutar por um Brasil justo... foi dignificante e emocionalmente uma catarse. Só hoje, dois dias depois, consigo responder aos inúmeros telefonemas e e-mails que recebi de muitos lugares onde amigos aguardavam conosco o momento de levantar o véu da chaga que mancha nossa democracia.
Também me trouxe muita harmonia interior saber que o ex-Governador Vitor Buaiz estava sendo anistiado pelo Brasil pois acompanhei parte de sua vida como companheira de partido, amiga e assessora e das injustiças sofridas.
Mas mais que tudo, ter ali o meu filho – Gorki Pomar - se orgulhando, mais ainda, de seu pai, Clóvis Ruy Coelho e Silva, com seus irmãos Jairo e Marcelo, fez reviver toda a saga empreendida até aqui para que isto tudo viesse à tona e pudéssemos enfim quebrar as algemas.
A solidariedade dos companheiros de Guarapari – Arivald e Pampanelli - e Carlos Alberto F. Perim e Chico Celso, que permaneceram na sala de julgamento na Universidade Federal do Espírito Santo para serem representantes, com seu filho, do companheiro Paulo Luiz Ribeiro que se encontra doente, a fala complementar de quem quis dar seu depoimento, a lágrima dos estudantes que acompanharam a sessão. Ahhh....” Meninos, eu vi”, como diria meu querido poeta Gonçalves Dias.
Mas há uma pergunta que muitos se faziam desde o início do evento: Por que o reitor da Universidade não estava presente? Tenho certeza que deve ter um bom motivo para não prestigiar o dia da Liberdade de tantos companheiros capixabas ou que fizeram de nosso Estado seu carinhoso abrigo. Seria muito importante sua presença. Creio mesmo que só um outro motivo muito maior o tenha impedido.
Nos desculpamos com os dois companheiros que ficaram para depois do intervalo. Moramos no interior e não poderíamos ficar à tarde e parabenizamos a tod@s não pela anistia em si apenas mas por, além da liberdade sonhada chegar enfim, sabermos que todos os que estavam ali sendo anistiados nesse dia, continuam na luta por um novo Brasil que, certamente vira´. E será bom, alegre, ético, harmonioso e justo.
A OAB – Ordem dos Advogados do Brasil esteve presente na pessoa do Dr. Homero Mafra e pude me lembrar que foi seu pai, o Desembargador Homero Mafra quem, há anos, proporcionou a anistia aos catadores de papel nas lutas da Região da Grande São Pedro. Ele e a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória em pessoas que não podemos esquecer.
Na solenidade estava também o Prefeito de Vitória, João Coser, presentes alguns vereadores e deputados e/ou alguns candidatos – que por motivos de legislação eleitoral não citarei os nomes – estudantes, povo em geral e nós Ruy e sua família, Gorki e eu que agradecemos especialmente aos companheiros do São Pedro que compareceram, aos companheiros das CEBs, aquelas que fundamos nos idos de 1970 /80 e que não morreram mas progrediram em organização (que é fruto de caridade), em esperança e fé e que foram mantidas pelos padres que por ali passaram, hoje administradas pelo Padre Kelder e, com muito carinho, a Perli Cipriano, cujo nome nunca sei se se escreve com I ou Y mas que deixa sua marca de amor aos deveres da Justiça e aos Direitos dessa mesma Justiça por onde passa. Obrigada Perli, obrigada aos membros da Comissão de Anistia. Não terminou. Vamos buscar o que aconteceu com os que não compareceram, vamos revisar cada item que a emoção não nos deixou perceber, vamos refazer caminhos de estudos, de seqüelas, de consequências, de perdas, mas, mais que tudo, daqui a pouco – pois é madrugada – eu vou à missa agradecer à Vida por todos nós por termos tido a oportunidade de chegar até aqui e poder ver a liberdade moral reconstituída.
Há uma canção na Igreja que cantamos assim.
Um novo sol se levanta
Sobre uma nova Civilização
Que hoje nasce
Uma semente mais forte
Que a guerra, que a morte
Nós sabemos
Que o caminho é o amor

Graça Andreatta
26 de setembro
Enviado por E-mail
Nota Blogueira: para mim esta caravana em especial me faz emocionada em ver reconhecidos verdadeiros companheiros, alguns que fizeram e/ou fazem parte da minha vida de lutas e/ou pessoal. Grande abraço a todos vcs. companheiro das lutas capixabas ontem e hoje (por incrivel coinscidencia. Nanda Tardin

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