terça-feira, 22 de junho de 2010

JS - A PERGUNTA QUE NÃO QUER CALAR

Candidato José Serra,

no final de outubro de 2008, eu lhe pedi, por meio de carta aberta, que tomasse as providências cabíveis, como governador de São Paulo e como cidadão que foi perseguido pela ditadura militar, para que a página virtual do 1º Batalhão de Polícia de Choque da PM, mais conhecido como Rota, não continuasse exibindo elogios rasgados à ditadura de 1964/85 e ao papel que ele próprio desempenhou na repressão aos que resistiam à tirania.

Depois, diversas vezes voltei ao assunto. Idem, o portal "Brasil de Fato", que chegou a receber uma falsa promessa da Polícia Militar de que o site seria revisado, para adequar-se aos valores da democracia e da civilização.

Até hoje continua no ar, por exemplo, o seguinte:
"Marcando, desde a sua criação, a história desta nação, este Batalhão teve seu efetivo presente em inúmeras operações militares, sempre com participação decisiva e influente, demonstrando a galhardia e lealdade de seus homens, podendo ser citadas, dentre outras, as seguintes campanhas de Guerra: (...) Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco".
Então, pergunto:
  • O Sr. concorda com a afirmação de que os golpistas de 1964 estavam apoiando a sociedade?
  • Se não concorda, por que permitiu que ela permanecesse no ar, inalterada, durante todo seu governo?
Celso Lungaretti (jornalista, escritor e ex-preso político anistiado pelo Ministério da Justiça)

* * *

Compareci nesta 2ª feira (21) à sabatina da Folha de S. Paulo/UOL com o presidenciável José Serra unicamente para entregar a uma funcionária a pergunta acima, já que o envio prévio de questões só era admitido na forma de vídeo e eu não sou atração gratuíta do circo da mídia.

Seria ela pertinente, numa campanha eleitoral?

Nada seria mais pertinente, na verdade. Pois, a campanha inteira tem ignorado os grandes temas políticos e se travado em torno de ninharias como dossiês fantasmas, com um acusando "você fez!" e outra retrucando "eu não fiz!".

Então, o eleitorado ganharia subsídios mais ricos para sua escolha se pudesse avaliar o caráter de José Serra.

Ou a falta dele, caso assumisse, de viva voz, já não dar a mínima se e quando uma corporação sob sua autoridade mantém no ar a mais repulsiva retórica ditatorial.

Mas, o mediador Fernando Rodrigues poupou o entrevistado de constrangimentos, ao omitir que eu havia interpelado Serra em carta aberta -- enviada, como manda o figurino, primeiramente para o destinatário.

Também não citou o nome do "internauta" que fez a indagação, o que já é de praxe na Folha: meu nome deve ser, tanto quanto possível, omitido; e minha atuação, minimizada.

Pelos critérios jornalísticos, seria mais do que relevante ele esclarecer que a cobrança era feita por uma vítima da ditadura, que tinha todos os motivos para indignar-se com tal descaso em relação aos valores democráticos.

Noblesse oblige, Serra negou rapidamente que estivesse certo quem apoiou o golpe.

Que mais poderia fazer um ex-presidente da UNE? Evitou, entretanto, qualquer afirmação mais contundente, que pudesse indispô-lo com seus aliados atuais.

Disse não ter tomado conhecimento da existência de tais excrescências na página virtual da Rota - e ninguém lhe perguntou se era normal que uma carta aberta a ele encaminhada por um ex-preso político, expondo uma questão que envolve a fidelidade aos princípios democráticos, não chegasse às suas mãos.

Comparou a omissão de sua administração em resolver tal problema à do Governo Lula quanto ao viés totalitário dos manuais de História dos colégios militares.

E já ia mudar de assunto quando a jornalista Renata Lo Prete lhe indagou se não caberia, afinal, a tomada de alguma providência para sanar tal aberração.

Serra respondeu que não via isso como algo prioritário, mas aquiesceu.

Para que não fique o dito por não dito, encaminharei em seguida uma mensagem ao governador Alberto Goldman, fazendo-lhe a mesma cobrança.

De resto, não fiquei para assistir à sabatina. Entreguei o papel e fui tratar de assuntos mais relevantes. Afinal, avaliei, quem se atrasa 42 minutos para um debate não deve ter mesmo nada de importante para dizer.

E a versão integral disponibilizada pelo UOL (que vi depois) confirmou isso. O que ele falou foi mais do mesmo... de novo. Nada que valesse manchete.

Mas, houve algo marcante, sim. A entrada de Serra, assim descrita pelo colunista Fernando de Barros e Silva:
"Eram 11h42 quando o candidato tucano à Presidência entrou no palco da sabatina Folha/UOL, evento com transmissão ao vivo marcado para as 11h.

"Esperavam-no sentados na primeira fila, à frente da plateia que lotava o teatro, Gilberto Kassab, Geraldo Alckmin, Orestes Quércia, Aloysio Nunes Ferreira, entre tantos outros. Não é fácil descrever a cena, mas todos ali pareciam seus empregados. Serra chegou sério, sem dizer bom dia nem pedir desculpas pelos 42 minutos de atraso".
Como cinéfilo inveterado que sou, logo me ocorreu um paralelo com a sétima arte.

O atrasadíssimo Serra surgiu sem aviso no fundo do palco, por trás dos entrevistadores sentados, caminhando lentamente. Magro, careca, envelhecido, carrancudo e meio encurvado, deu a impressão de ter... encolhido.

Os espectadores foram surpreendidos por essa irrupção em cena que deveria ser jovial e esfuziante (política é a arte da representação...), mas foi, isto sim, sinistra. Houve um átimo em que todos ficaram estupefatos e não se ouviu ruído nenhum. Silêncio ensurdecedor.

Depois soaram as palmas, mas sem convicção. Foram aplausos pra lá de constrangidos.

Sempre achei de mau gosto as comparações que fazem na internet, mas -- juro! -- Serra lembrou mesmo o Nosferatu, de Murnau e Herzog.

Quase cheguei a temer que desse um bote para cravar os caninos na jugular da Lo Prete...


Foi exatamente assim a entrada de Serra no palco do Teatro Folha...

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