sábado, 30 de janeiro de 2010

Comentários sobre a defesa de Carlos Lungarzo à Celso Lungaretti

Marcos Rebello




Comentários sobre a defesa de Carlos Lungarzo à Celso Lungaretti

"Em seus blogs de anteontem, Celso apresentou uma matéria singela, rigorosa, sem alarde, como é seu estilo, comentando a declaração de Kerrie Howard (diretora adjunta do Programa da Amnesty International para as Américas) sobre Honduras. Kerrie exige ao novo governo, surgido do golpe de estado que deslocou a Zelaya e colocou a Micheletti, uma apuração profunda e independente dos crimes cometidos contra os DH na gestão anterior, e a individualização e condenação dos responsáveis."

Vamos por partes. Mas bem curto para chegarmos no fundo da questão.
Como seria possivel desenvolver uma matéria rigorosa ao comentar a declaração da diretora da AI sobre Honduras quando o governo instalado por eleições hiper-parciais e em estado-de-sítio sob os auspícios de interesses corporativos que incitaram e planejaram o golpe são os mesmos a serem beneficiados?

Como seria possível o mesmo conjunto de juizes que sancionaram o golpe, que se calaram durante o período de alta repressão, com assassinatos encomendados, cerceamento de TODOS os direitos públicos e civis pudesse com a mesma tinta absolver aqueles que lhes impõe um veredito?

Que consciência é capaz de abrigar dois opostos irreconciliáveis ao ponto de, em um tribunal de justiça, absolver e condenar o mesmo crime ao mesmo tempo?

Que espécie de malabarismo mental pretende a AI que se faça nesses senhores?

Apenas a Amnesty International consegue essa proeza!

Em nome de que, e de quem? Do debate para um pseudo-desenvolvimento pela dialética Hegeliana? Em prol de interesses democraticos legítimos? Balela!

"Pedir o julgamento dos torturadores, executores de brutalidade policial, homicídio e estupro, é atuar em direção a uma comissão de verdade e justiça e contra a impunidade."

A cartilha já está escrita! Destroem-se os direitos garantidos pela plena democracia para depois concertar por meio de anistias e comissões de verdade e reconciliação. Sim, concerta-se o que estava certo depois que os interesses estejam garantidos. Em Honduras, o processo do golpe, da repressão e da negação dos direitos não servem de exêmplo. Não existiu e não existe. É um sonho. Acorda, imbecil! É uma cirurgia!

Agora pergunta-se por que a ênfaze em que se aceitem esses absurdos. A resposta é muito simples. Porque os poderes sabem da ansiedade que habita em qualquer um que pretenda ter a sua voz no meio dos debates de consequência, e que deve fazer vista grossa às mais óbvias transgressões que uma mente que raciocina lógica e independentemente abomina. É o preço a ser pago para sair do obscurantismo e fazer parte daquela esquerda que negocia com o grande capital, o mesmo que dá golpes em todo estado de direito a qualquer hora sob qualquer pretexto. É a chicana na reta dos verdadeiros direitos, e que aponta, la na frente, à existência de uma direita e de uma esquerda perfeitamente controlaveis pelos Think Tanks que ditam as ideologias de ponto e contraponto para fazer crer que existe alternância de poder na democracia de cartas marcadas. Acontece, entretanto, que quando esse script não é seguido à risca, aparecem esses "sonhos" incômodos que são os golpes de estado onde morrem dezenas ou centenas de pessoas que não se submetem. Tudo perfeitamente aceitável. Afinal, deve haver alguma "ordem" nesse mundo. Certo?!

Meus cumprimentos à Amnesty International em preservar essa "ordem" e promover um "diálogo" para simular democracia e acomodar interesses.

Marcos Rebello

29/01/2010

Marcos Rebello é parte da comunidade de Diplomatas Brasileiro, estudioso de documentos secretos da CIA e das CPIs brasileiras a partir da "abertura pós ditadura". Analista , consultor e comentarista Político.

O Jornalista Lungaretti, Honduras, Anistia Internacional e a CIA

Fazendo um resgate cronológico do debate coloco os links abaixo para apreciação de todos:

http://juntosomos- fortes.blogspot. com/2010/ 01/dissecando- o-primarismo- politico. html Ultima treplica de Lungaretti ao artigo que postei aqui:
http://juntosomos- fortes.blogspot. com/2010/ 01/demagogia- fantasiada- de-revolucionari a.html

E que parece ter sido o motivo de antagonismo do Lungarzo e do Lungaretti a Rede, aos grupos revolucionários e aos "novos" militantes pretensiosos de espaço dentre os revolucionários de Esquerda.

Numa mistura de conceitos e de ideais, para mim a justificativa e tréplicas saíram ainda mais clara aos que acompanham o debate e a luta virtual travada por maior ONG de DH do Mundo e Lungaretti, com a rede social e a ideía que coloquei explicita no artigo
http://juntosomos- fortes.blogspot. com/2010/ 01/demagogia- fantasiada- de-revolucionari a.html


De minha parte afirmo cada palavra que coloquei nesse artigo e questiono o que é de fato ser revolucionário e humanista. Para ser vanguarda de humanismo precisamos ser coniventes com o que prega a AI? Ou ser coniventes com a omissão da ONU no caso relativo a Honduras e aos golpes, violações e crimes lesa humanidade?

Sim, sou uma militante de DH, sem pretensões de ser maior, pois sou ciente que nessa luta o que importa é o todo e a junção de forças desse todo. Aprendi isso no útero, na infância, na adolescência e em toda a trajetória de vida adulta, nas diversas batalhas travadas em prol dos DH . Citá-las aqui seria travar uma disputa de quem é melhor. Não vem ao caso isso em nada vai alterar ou corroborar com os ideais de luta.

De qq maneira o que me impressiona foi a contra argumentação vazia e irada, onde ambos relevam a importância de resistir e lutar. Citam Marx e esquecem do "OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER" e tb. esquecem do "navegar é preciso, Viver não".

Celso, ao contra argumentar: "Simplesmente porque não consigo suportar a idéia de que um jovem tentado a fazer algo para melhorar o mundo, ao considerar a opção revolucionária, o faça a partir de modelos tão reducionistas, atrabiliários e pouco inspiradores como os de Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad. " esquece o verdadeiro motivo que o leva a sair em retaliação:

Penso que o verdadeiro motivo, implícito na defesa de Lungarzo e na de Celso, são as colocações que fiz aqui:
Então, Não existe camarada, humanista, militante ingênuo nessa luta. Quem deu a "maior ONG de DH do Mundo" ( eita papo capitalista, tenho 41 anos e nunca vi camaradas classificar um ou outro quanto à cor, sexo, grau de importância ,,,,)o direito de se pronunciar sem considerar a resistência e os movimentos de DH ( o resto ao que parece para a tal maior ONG de dh) em Honduras?
Apoio o escrito por Castor, alias , mantenho o que escrevi
Não reconheci ontem um revolucionário/ camarada em parte alguma do artigo. E Olha que nasci da barriga de uma revolucionaria. Guerrilheira do Caparaó. Uma mulher que grávida, perdeu a filha , por decorrência da tortura. MAS NÃO ENTREGOU SEUS PARES.Mesmo grávida e sob tortura “.

Sei lá, alguma coisa me diz que: O revolucionário de ontem, o KID do Grupo Lamarca, e esse humanista da nova era, defensor de "pacificação" de uma luta justa e valida contra a ditadura instalada em Honduras e que ameaça diversos países de Nuestra America, quer desqualificar qq "jovem tentado a fazer algo para mudar o mundo"... defendido por Lungarzo, que claramente é contra qq grupo de resistência: “Como se faz, então, para aliviar a condição dos Direitos Humanos? É a política de “Tudo ou Nada” e “Quanto Pior Melhor” dos Tupamaros, dos Montoneros, do ERP da Argentina e do MIR do Chile? Devemos entrar com nossas tropas no coração das prisões hondurenhas para que o sistema tenha mais mortos e possamos nos gabarmos de sermos vítimas do inimigo?”

Eita papo descabelado, de direita, de caserna mesmo, papo semelhante aos mantidos pelos “defensores do estado democrático de direito”. Nem vc. e em ninguém é obrigado a gostar de estilos de Chávez, de Fidel, de Lula, como sei que vc. não gosta e vc. sabe que eu gosto. Mas ...um revolucionário é obrigado a entender que o momento em que vivemos é um momento de junção de forças nessa luta.

Te digo Celso, mais uma vez e quantas forem preciso: Tenho exatos 41 anos de idade ( completo-os hoje: 29/01), mas como falei, Nasci de uma barriga revolucionária, que 10 meses antes de meu nascimento, havia perdido a que seria a sua primeira filha, pq. no dia 01 de abril de 1968, aos seis meses de gravidez, foi presa e torturada MAS NAO ENTREGOU SEUS PARES.
Cresci vendo e participando da luta de resistentes, hora escondendo amigos, hora assistindo aos internos de manicômio, hora em manifestações, hora em defesa/palestras a de excluídos hora reunindo para formar a CEBs, o PT, a CUT... E depois crescida, adulta uma militante aprendiz, nem melhor e nem pior aos resistentes antigos com uma trajetória maior que a minha. Em momento algum me deparei com "revolucionários" que tentavam me ensinar esse lado "importante" da revolução que vc. quer defender . Ao contrário, vivi e vivo ao lado de companheiros que pregam exatamente o contrário.

Enfim, novamente coloco em questão o "debate" as palavras de Celso e Lungarzo a favor de uma nova concepção "revolucionária" e os fatos colocados por Castor mantendo TODOS os fatos que coloco em todas as réplicas que fiz debatendo não, lutando contra essa novo conceito "revolucionário" .

HONDURAS RESISTE. E A LUTA CONTINUA. Qual o problema de um POVO ser contra a ditadura opressora? Qual o problema de um POVO querer ser o autor de uma nova constituinte?


“E por fim, desafio aos antigos resistentes a mostrar onde que O MAIOR, O MELHOR...” é uma linguagem de resistentes ou de humanistas. Se aparecer de fato um revolucionário que me explique isso e me faça aceitar isso, serei a primeira a jogar a toalha e segurar a bandeira "revolucionaria" que vi nos artigos "explicativos" sobre a AI e os "novos ideais revolucionários"

E Porque JUNTOS SOMOS FORTES e a base da pirâmide (POVO) não deve segurar o TOPO dela ( a elite opressora), seguirei nessa linguagem simplista dirigida a meus pares, o POVO. Pois para mim , dentro do que aprendi na convivência diária com revolucionários, humanistas, esse é o verdadeiro ideal da luta. E dessa forma simplista, não tão "jovem" quanto tentam me classificar antigos "revolucionários" e alguns antigos pares de ditadores , vou falando ao estilo Paulo Freire (pratica e/ou exemplos) dos ideais de Marx


Forte abraço

Fernanda Tardin


OS: Esqueci de colocar que não sou contra as ONGs, pelo contrario, sou contra o uso indevido para fins escusos feitos delas. Tanto que participei da fundação de uma federação do 3 setor, a primeira no Brasil, visando moralizar o 3 setor. Pouco fiz, como presidente dessa federação, mas fizemos sim , relatórios e combates a “projetos” que visavam lavar dinheiro, superfaturar recursos públicos, beneficiar empresas como a Aracruz Celulose. Defendemos sindicatos, movimentos sociais, lideranças comunitárias. E vi ( agora sim , uma colocação pessoal) a dificuldade de ONGs serias recrutarem recursos para desenvolver projetos. Infelizmente , muitas são as ONGs serias, mas poucas conseguem sobreviver ou implementar um projeto, justamente por causa da falta de parceiros ( gestores públicos) e ou aliados ( empresas), quase sempre contrários as propostas de inclusao dos projetos sociais dessas mesmas.

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Prezado Lungarzo

Como você bem ressaltou em seu arrazoado temos uma rede enorme para administrar e BATALHAR por dias melhores para o nosso Brasil e o mundo em geral.

Não tenho tempo para batalhas singulares. Nosso negócio é MASSIFICAR informação de qualidade em contraposição à mídia brasileira em particular e ocidental em geral.


Normalmente não faço isso, mas para economia de tempo e por ter assuntos MUITO mais importantes que esta pequena discussão, vou responder este seu artigo com ressalvas DENTRO do mesmo. Inclusive peço sinceras DESCULPAS por esse detalhe. Nossa ressalvas estarão em vermelho.

Abraço, Castor




O Jornalista Lungaretti, Honduras, Anistia Internacional e a CIA

Carlos Alberto Lungarzo

Membro de Anistia Internacional

Como militante de Direitos Humanos, no costumo em intervir em polêmicas políticas, mas neste caso não estou fazendo uma exceção. Na atual discussão entre o jornalista Celso Lungaretti e os membros de uma grande rede social, meu objetivo é apresentar uma opinião sobre a mesma e não participar nela.

Apesar de corresponder- me com Lungaretti desde há um ano, temos feito uma amizade muito forte, e acredito conhecer-lo bem. Surpreendeu- me que alguém forjado na luta armada, e tendo sido vítima da brutalidade do sistema, sustente uma posição política e humanitária tão saudável. Ele não parece um saudoso dos anos de chumbo e, com certeza, não trocou ideais profundos por uma posição confortável na nova burocracia populista. Sua opção por procurar confluência entre socialismo, revolução e Direitos Humanos, comum em alguns países da Europa, é difícil de encontrar na esquerda latino-americana. (
Este mérito não é apenas do Celso, é também de inúmeros companheiros de batalha. Eu, inclusive. NUNCA solicitei quaisquer ANISTIAS ou mesmo reivindiquei quaisquer cargos naquilo que você chama de “burocracia populista”, diga-se de passagem, até com justa razão
)

Embora tratados pelos revolucionários nacionalistas e terceiro-mundistas de “frescura burguesa”, os DH estão no cerne da verdadeira teoria marxista, antes de ser transformada numa espécie de “código penal” por Stalin e Mao. Eles se encontram na Crítica à Filosofia do Direito, na Sagrada Família, na Ideologia Alemã, mas também em decisões práticas, como os parabéns de Marx e Engels à Abraham Lincoln, louvando sua vitória sobre os racistas do sul. Esse respeito pelos DH foi herdado pelo Espartaquismo, pelo socialismo sueco, pelo solidarismo de Bourgeois; depois, mostrou-se com ilimitada generosidade na luta antifascista, especialmente na Espanha, e apareceu com um rosto cada vez mais humano na Nova Esquerda e no Maio de Paris.(
A rede castorphoto em momento algum se colocou CONTRA políticas pelos DHs. Nós somos contra quaisquer ONGs, sejam elas de DHs ou qualquer outra coisa. ONGs , A QUASE TOTALIDADE DELAS, são armadilhas para surrupiar dinheiros de GOVERNOS e instituições, sejam elas de direito público ou privado. ONGs fazem o MESMO papel que os JESUÍTAS fizeram para portugueses e espanhóis e outros países europeus na conquista das Américas, da Ásia e da África. ONGs, tal&qual essa padrecada pós medieval, são aquilo que em linguagem popular se chama “SANTO-DO-PAU- OCO”)


Em seus blogs de anteontem, Celso apresentou uma matéria singela, rigorosa, sem alarde, como é seu estilo, comentando a declaração de Kerrie Howard (diretora adjunta do Programa da Amnesty International para as Américas) sobre Honduras. Kerrie exige ao novo governo, surgido do golpe de estado que deslocou a Zelaya e colocou a Micheletti, uma apuração profunda e independente dos crimes cometidos contra os DH na gestão anterior, e a individualização e condenação dos responsáveis.(
Notou o BESTEIROL da diretora-adjunta? Ao “exigir” qualquer coisa de um governante ilegítimo ela está “legitimando” o indigitado.. .)


Isto se contrapõe à proposta de Lobo, que pretende “zerar” a situação com uma ampla anistia em que estão compreendidos vítimas e algozes. Lungaretti faz notar que, com algumas diferenças, esta é a política que se aplicou no Brasil, e da que agora todos reclamamos porque garante impunidade aos criminosos. (
No mesmo instante em que você se contrapõe a uma proposta ILEGAL, FEITA POR UM PSEUDO-GOVERNANTE que não é reconhecido pela ONU, nem pelo Brasil, nem pela quase totalidade dos países do mundo, você está REFERENDANDO uma ILEGALIDADE. A AI está RECONHECENTO o DIREITO desse pseudo governante ser representante de algo que ele NÃO É
)

Com sua habitual equanimidade, Celso ponderou alguns aspectos e considerou que a exigência de Anistia era justa. Pedir o julgamento dos torturadores, executores de brutalidade policial, homicídio e estupro, é atuar em direção a uma comissão de verdade e justiça e contra a impunidade. Aliás, não é isso o que, de maneira massiva e unanime, todos os membros das comunidades de esquerda do Brasil, tenham sido ou não vítimas diretas dos militares, está reclamando? (
É aí que mora a ingenuidade do Celso... NÃO é isso que “todos os membros da comunidade de esquerda do Brasil... está reclamando”. Essa comunidade está reclamando que um GOVERNO LEGÍTIMO, eleito em eleições limpas INVESTIGUE, APURE e submeta a julgamento os carrascos CIVIS OU MILICANALHAS QUE TENHAM COMETIDO crimes contra a humanidade durante a ditadura MILITAR brasileira. PERCEBEU A ENORME DIFERENÇA? A esquerda brasileira NÃO está referendando um regime ilegal, portanto ilegítimo do pós-64. Ela, ao contrário, está declarando a ILEGALIDADE e pedindo apuração dos crimes mencionados
) .

Para minha surpresa, uma rede social enorme, que transmite comunicados muito interessantes, e que defende idéias revolucionárias, não apenas criticou a posição de Lungaretti, mas qualificou o jornalista de ingênuo e simplista, levando seus sarcasmos ao limite do deboche (chamar alguém de ingênuo não é sarcasmo nenhum e muito menos deboche). Até mencionou a sugestão de um cibernauta que insinuava que Celso possuía interesses econômicos com as ONGs. Aqui, o autor do libelo declarou que não acreditava nisso. (E
não acreditamos MESMO. Temos certeza que o Celso foi apanhado no chamado CONTRA-PÉ
)

O cerne da disputa era Anistia Internacional, à qual o coordenador da rede e alguns participantes acusaram de ser um covil de agentes do imperialismo, membros da CIA, mercenários pendurados de ONGS, sinistros burgueses que queremos dar o “dito pelo não dito” (ou o “não dito pelo dito”, não sei bem qual foi o chavão). (
Este parágrafo vamos classificá-lo simplesmente como MENTIRA, e mentira GROSSEIRA. Consideramos que a AI compõem-se de alguns ESPERTALHÒES, alguns MANIPULADORES, uma grande maioria de INOCENTES ÚTEIS. Não são “covil”de coisa alguma e muito menos “sinistros” outras coisas; e o “dito pelo não dito”mencionado pela Nanda referiu-se apenas ao CASO HONDURAS como bem explicita o texto dela
)

Usando uma virtude que admiro (mas não invejo), que é a paciência extrema ainda com as posições mais aberrantes, Celso decidiu abrir um debate com os responsáveis dessa rede. Este debate ganhou em apenas três e-mails o mais alto nível da mais absoluta baixaria. (
Isso também é MENTIRA. Não houve baixaria alguma; o que houve foi apenas uma troca de e-mails mais dura, sendo que o Celso achou que eu não os repassaria, mas os QUATRO - não três – foram repassados na ÍNTEGRA para TODA a rede, inclusive para o EXTERIOR
.)

Acusou-se a Anistia Internacional de servir os interesses sionistas, numa confusão entre sionismo e terrorismo de estado israelense. (
Não faço confusão entre terrorismo de estado e sionismo. Mas o terrorismo de Estado praticado por Israel é promovido pelos SIONISTAS, ora no poder e referendados pelos ELEITORES de Israel
.) Mas, mesmo que se tome sionismo em seu sentido mais negativo, de nada serviu que Lungaretti mostrasse vários documentos de AI onde critica de maneira fundamentada e duríssima os diversos genocídios perpetrados por Israel contra os palestinos. Também mostrou outros tantos artigos com críticas recentes à fraca política de Obama, e sua posição medrosa face aos DH. (
Em momento algum criticamos os DOCUMENTOS gerados pelos INOCENTES ÚTEIS da AI para servir aos propósitos dos ESPERTALHÕES e MANIPULADORES. Elogiamos efusivamente os RELATÓRIOS, mas CRITICAMOS duramente como e por quais meios esses MAGNÍFICOS relatórios foram disponibilizados ao MUNDO. Aliás, diga-se de passagem que nossa opinião sobre a AI e ONGs em geral é compartilhada por inúmeros intelectuais, embora não estejamos nessa classificação, como, p. ex, Ignácio de Ramonet, Thierry Meissan e Raul Zibéchi. De que adiantam críticas se quase ninguém as lê? Cadê a COMPRA de espaço de MÍDIA? O Murdoch é um dos contribuintes da AI. Se ele cedesse ESPAÇO nos seus INÚMEROS jornais e revistas para publicação desses RELATÓRIOS maravilhosos haveria uma pequena chance de vermos algum vestígio de seriedade e não apenas MANIPULADORES E ESPERTALHÕES na AI.)


No debate entrou outra pessoa, afirmando que pedir uma investigação a um governador ilegítimo significa reconhecê-lo como interlocutor e lhe atribuir, então, legitimidade. É verdade que autoridades impostas pela força não podem ser tratadas, em todos os assuntos, como se fossem depositários de representatividade política, porém, a proibição de interagir com governos e lideranças que não sejam legítimas, nos levará ao mutismo. Quem faz uma lista das que são legítimas? (
Esse parágrafo é um SOFISMA de ÚLTIMA categoria. Aqui na nossa rede consideramos LEGÍTIMA a representatividade de um governante em eleições limpas e claras dentro de um regime constitucional referendado pelo povo.
)

Além disso, devemos deduzir que os que exigiram de Geisel e Figueiredo uma apuração dos crimes dos anteriores militares, o consideravam um governante legítimo? E será que valeria depois pedir a apuração desses fatos a um “legítimo” como Sarney, capacho do militares e tão macabro como eles? (
Só os IDIOTAS exigiram de Geisel e Figueiredo, ditadores MILICANALHAS de plantão, apuração de quaisquer crimes... Aliás a própria existência de uma “oposição” consentida (MDB) prolongou ainda mais a “vida”da ditadura milicanalha brasileira. Sarney é um OPORTUNISTA. Tão oportunista como uma ONG...
)

Além disso, como podemos entender o estreitamento de amizade com regimes brutais, governados por teólogos, que matam mulheres por apedrejamento, condenam cartunistas, treinam crianças para ser bombas infantis? Aliás, por que as eleições se Irão foram menos falsas que as de Honduras, quando quase 60% dos cidadãos as repudiaram? Será que alguns futuros e nada certos milhões de barris de petróleo justificam a cumplicidade com aqueles genocidas? Ou devemos acreditar que a resistência iraniana (que foi vista nas ruas há poucos meses e teve centenas de vítimas) é toda pró-sionista? (
Esta opinião sobre o Irã é sua mesmo ou é “deduzida” de suas leituras da MÍDIA OCIDENTAL? Ou talvez de algum RELATÓRIO da AI? Você tem recebido inúmeras postagens da nossa rede sobre a situação no Irã. Esses informes foram fornecidos, pela Al Jazeera, ou pelo Asia Times e outras publicações internáuticas devidamente traduzidas. Nós preferimos acreditar nesses artigos por serem mais críveis que os da BBC ou da CNN p. ex.
)

Devemos questionar, sem dúvida, a anistia brasileira de 1979 e pedir a sua reversão; mas, teria sido justo repelir a Anistia, e deixar que as pessoas que estavam presas continuassem apodrecendo na cadeia? Seria incorreto exigir de Sebastián Piñera que continue com as tarefas de Verdade e Justiça no Chile, e “apertar” Uribe para que apure os casos de paramilitares e parapoliciais? Afinal, eles são tão de direita como Lobo e possuem ainda muito maior poder que ele! Como explicam que nosso presidente, que esta rede apóia, chame “seu amigo” a Álvaro Uribe, e se condene a ONGS que se aproximam de Lobo, não para oferecer-lhe amizade, mas cobrar-lhe os crimes de seus predecessores? O que torna a direita hondurenha tão terrivelmente pior que a colombiana? (
Simples, Piñera e o Uribe foram ELEITOS em eleições LEGÍTIMAS, diferentemente do Calderón e BUSH que foram eleitos em eleições FRAUDULENTAS, p. ex.. Lobo também é uma FRAUDE.)


Lobo cometeu uma fraude institucional, usando um sistema eleitoral cujo principal candidato estava proscrito, porém Geisel, Figueiredo, e outros, foram simplesmente ditadores por força. Entendo que seria uma ingenuidade pedir que Pinochet ou Videla abrissem uma investigação sobre seus próprios crimes, porque isso exigiria condenar-se a si mesmos e a todos seus colaboradores. Mas, por que supomos a priori que Lobo está comprometido com os crimes do governo golpista quando ele nem mesmo era conhecido antes das eleições? (
Esse parágrafo é simplesmente ridículo... Além de descabido.
)

Como se faz, então, para aliviar a condição dos Direitos Humanos? É a política de “Tudo ou Nada” e “Quanto Pior Melhor” dos Tupamaros, dos Montoneros, do ERP da Argentina e do MIR do Chile? Devemos entrar com nossas tropas no coração das prisões hondurenhas para que o sistema tenha mais mortos e possamos nos gabarmos de sermos vítimas do inimigo? (
Os Tupamaros, o Sendero Luminoso, o MIR , os Motoneros, a ALN e outros movimentos de resistência na AL são HERÓICOS... Eles foram os VERDADEIROS lutadores pelos direitos humanos. Devemos nossa manca E FRÁGIL democracia a ELES, jamais a alguma ONG e muito menos à ação da AI
.)

A autora das críticas afirma também, que exigir de Lobo uma investigação sobre os crimes dos DH, significa desprezar o valor da resistência hondurenha. Esta visão do problema nos faz regredir a um modelo de luta que parecia superado. Com efeito, existe uma chance de que Lobo consiga parar, por meio de um julgamento, a continuidade da repressão. De fato, isso aconteceu em alguns países como Uruguai, embora não seja muito simples. Se considerarmos Lobo apenas um usurpador cujas ações carecem de valor (mesmo para punir torturadores) , a conseqüência será que os repressores terão liberdade absoluta, pois não há outra força equivalente à do governo para coagir os membros do exército e da polícia. (
NENHUM modelo de luta está superado. Quem decide pelo modelo de luta é o POVO atingido. O que devemos fazer, como libertários, é APOIAR a ESCOLHA daquele povo. Será que você esqueceu o quanto apoiamos o Vietnã? Ou os TALIBÃS? Ou a RESISTÊNCIA PALESTINA? Ou a IRAQUIANA? Aliás, cansei de assistir palestras da AI em SP sobre a crueldade dos ... VIETCONGS. Não é notável
?)

Então, reconhecer a Resistência Hondurenha como a única força política, implica atribuir-lhe toda a responsabilidade de lutar, e como essa resistência é notoriamente fraca (não é o Vietcong, nem Hammas, nem nada parecido), a continuidade da luta multiplicará as vítimas. Colocando em pratos limpos: haverá mais mortos e torturas, mais catástrofes humanitárias. .. Por que será que procuramos isso? É um retorno à política de entregar mais mortos para ganhar mais admiração do povo (como dizia na Argentina a guerrilha dos Montoneros)? (
A RESISTÊNCIA HONDURENHA é, hoje, a ÚNICA FORÇA POLÍTICA reconhecida internacionalmente naquele país. Inclusive pelo Brasil. Cabe a eles o modo de lidar ou promover essa resistência. Só a luta ensina
.)

Não apenas as ONGs de DH, mas quase ninguém acredita, pelo menos em Ocidente, que estimular o martírio de resistentes em condições assimétricas de luta, aumente as possibilidades de vitória. O que se vê no planeta todo, é que grupos mandados a lutar como “mártires” acabam sendo aniquilados. A idéia de que devem morrer todos os militantes populares que sejam necessários para desprestigiar o governo não é apenas repulsiva para a esquerda, mas para qualquer um que valorize a vida humana. Os movimentos, os países, os partidos valem porque estão formados por pessoas. É o contrário do que dizia Kennedy: é a gente que dá valor as nações e não as nações que dão valor as pessoas. (
As ONGs de DHs não podem nem querem, aliás, os ESPERTALHÕES e os MANIPULADORES, fingem que querem preservar alguém do “martírio”. Como já dissemos antes, a escolha da forma de luta é dos POVOS envolvidos. Aprendi isso com Ho-Chi-Min. Aqui no Brasil, veja você, estamos lutando pela INTERNET...)


Voltando à polêmica que é objetivo deste artigo, quero dizer que, sendo que essa discussão mistura sem muita lógica propostas políticas com declarações pessoais, que é necessário referir-se às agressões em ambos os níveis. A segunda principal comentarista diz:

“Quem referenda hoje um governador que manda tropa de choque em represália a manifestações de estudantes? Uai. Você recrimina? Mas os governadores em questão foram líderes estudantis, presos políticos, presidente da UNE e do DCE. De quem falo? De Hartung (ES) e de José Serra (SP)... ‘Ta vendo? O fato de ser ex, não os faz hoje companheiros/ camaradas”

Como a mensagem está no contexto da crítica a Lungaretti, não posso deixar de pensar que a “sutileza” vai dirigida a ele. A mensagem diz que alguns repressores atuais já foram os militantes, perseguidos ou presos políticos de ontem. Deve deduzir-se disso, então, que Celso, a quem eles não reconhecem como um revolucionário se utiliza sua condição de ex-perseguido para tirar vantagens da Anistia Internacional e “outras” dependências da CIA. Parece então que o enorme valor que significa a obra educativa e comunicacional de Celso é aniquilado pela “ingenuidade” de elogiar uma organização que se ocupa de algo tão lucrativo como os DH. (A
nossa rede e o Blog da Nanda repassaram e repassarão, tenho certeza, os artigos do Celso, mas não podemos deixar de alertá-lo da armadilha na qual está envolvido. Queremos o mesmo Celso combativo e DISCORDANTE de muitas das nossas ideias, mas nunca um eunuco ideológico cooptado como INOCENTE ÚTIL por quaisquer ONGs. Notadamente por uma ONG CLARAMENTE envolvida com AIPAC, NSA, CIA e outras entidades NAZI-SIONISTAS.
)

Como disse uma vez Theodor Adorno, atrás do desprezo pelos DH que mostram os movimentos terceiro-mundistas ou nacionalistas “de esquerda”, há um desejo específico de poder. Com suas críticas contra os abusos cometidos por agentes do estado, e contra os pactos com países que estão na liderança dessas violações (como China e Irã), as ONGs de DH se recusam a unir-se ao apóio cego aos governos populistas. É curioso, então, que os críticos das ONGs de DH, que as consideram estrangeiras, individualistas e contra-revolucioná rias apóiem governos que nada têm de revolucionários. Entendo que os partidários da Revolução Cubana possam interpretar que as objeções das ONGs de DH visam prejudicar o sistema (embora nem sempre seja verdade, e depende muito de qual ONG se fala). Ora, como se explica que os que acham contra-revolucioná ria a luta de AI e outras organizações, encontrem revolucionários os governos do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai? (
Nossa rede é profunda e CONSISTENTEMENTE defensora dos DHs e da AUTODETERMINAÇÃO dos povos. Mas não somos uma ONG. Não pedimos grana para ninguém. Não somos submetidos a quaisquer ESPERTALHÕES ou MANIPULADORES. Lembre-se sempre: os DHs em Cuba, já estive lá uns pares de vezes, são muito mais respeitados que, p. ex. nos EUA. O caso MEDICARE, gravíssimo, que atinge mais de 50 milhões de pessoas só nos EUA é assunto resolvido em Cuba. Essas bobagens de revolucionário e contra-revolucioná rio são isso mesmo: BOBAGENS. Só existe a LUTA diária e o trabalho para transformar o mundo e promover a melhoria de INFORMAÇÃO e CONHECIMENTO de um povo. O método de manter ou modificar suas instituições, seja por eleições, seja por guerrilha, seja por luta ideológica, é problema e decisão de cada povo
.)

Aliás, acusações de barricada rotulando alguém de agente da CIA, podem fazer sentido no seio de uma luta politiqueira pelo poder. Mas, não se entende essa atitude em pessoas que dizem lutar por um mundo melhor, e se identificam teoricamente com o socialismo. Mesmo se essas afirmações fossem verdadeiras, deveriam ser justificadas com um mínimo de provas. (
Não ROTULAMOS nomeadamente ninguém de “agente da CIA”, ou qualquer coisa como “politiqueira”ou mesmo “luta pelo poder”. Ora, você pede provas daquilo que é de conhecimento PÚBLICO... As ligações da AI com as organizações mencionadas são PÚBLICAS. E em NENHUM momento foram negadas...)


A crença de que tudo é um cambalacho, e que o mundo está cheio de espertinhos e aproveitadores (algo que parece fluir dos comentários da rede) é frequente na classe média e alta. (é claro que o mundo está cheio de ESPERTINHOS E APROVEITADORES; mas também está cheio de INOCENTES ÚTEIS que servem de bucha-de-canhã o para esses mesmos “espertinhos e aproveitadores”). Mas, esta não se propõe melhorar o mundo: apenas quer aproveitar uma fatia dessa fraude geral. São os que dizem: “É tudo mentira; a gente precisa viver, porque ninguém faz nada por você”, ou usam um ditado que foi famoso na Argentina durante a ditadura: “Deixa rolar, que se virem, não é coisa da gente”, se referindo aos quase 90 desaparecidos por dia. (
Essa foi uma guerra travada na AL e NÃO foi vencida até hoje. Estamos em plena batalha e sabemos que esta luta é cotidiana, ininterrupta e que JAMAIS terá fim. Aqui reafirmamos: as ONGs, em sua imensa maioria, são FRAUDES, e quanto maior a ONG maior a FRAUDE
.)

Desde meus começos na militância em DH escutei críticas semelhantes a estas, embora numa linguagem menos chula e com menos poluição conceitual. (
Não tente desqualificar nossa liguagem. Em momento algum usamos linguagem CHULA
). Nos anos 70, os Estados Unidos diziam que éramos marxistas, anarquistas, agentes cubanos e soviéticos, um leitmotiv que, apesar do anacronismo, foi repetido em 2005, quando nosso relatório contra as torturas aplicadas no Iraque enfureceu a G. W. Bush que quis fazer de conta que Anistia não existia. Não pôde! Até seus colaboradores mais fascistas conheciam todo o relatório, e na Casa Branca não se falava de outra coisa. (
As torturas, prisões ilegais, e crimes contra civis iraquianos foram denunciadas em PRIMEIRA MÃO pela Al-Jazeera e as denúncias POSTERIORES da AI e outras ONGs ocidentais de DHs foram disponibilizadas ANOS depois. Quando mais de I.OOO.OOO milhão de civis já tinham sido assassinados pela intervenção dos EUA e seus asseclas ocidentais no Iraque. A AI e as demais ONGs de DHs só pegaram “carona” nos inúmeros relatos já existentes.)


Afinal, deixou a seu portavoz “refutar” nossas denúncias e saiu da sala rasmungando: “Esta gente não ama América”. Quando existia a URSS, nossa fama de agentes da CIA estava em seu apogeu, mas a verdade é que nossos maiores críticos não eram os russos. Antes estavam os chineses, as ditaduras populistas e teocráticas de África e Ásia, os caudilhos e líderes demagógicos.

Finalmente, há um fato claro, que Lungaretti expõe com uma lucidez pouco frequente: o triunfo do humanismo é o triunfo da esquerda, e esse triunfo não acontecerá se não tivermos em conta a enorme tradição humanista de ocidente, que não fabricou apenas capitães de mato, bandeirantes e assassinos colonialistas.

Se quisermos voltar a ocupar algum posto na melhora da humanidade, devemos entender o que Celso lucidamente menciona: os povos desenvolvidos não aceitarão uma esquerda que os prive de sua liberdade, que os massifique, que os submeta a um tirano. A solidariedade internacional pode levar a sacrifício da vida pelo bem-estar do povo, mas não para aumentar o prestígio de caudilhos e ditadores. (
Estas opiniões do Celso, embora discordemos delas, são perfeitamente defensáveis e já distribuímos um sem número de conceitos embutidos em artigos do Celso e de outros dos quais discordamos.
)

Finalmente: ninguém é perfeito e toda instituição pode ser corrompida, mas isso tem sido infreqüente na Anistia. Os casos em que a corrupção ganhou (por vários anos) a batalha na Anistia Internacional foram poucos: aliás, o único exemplo que conheço é o do Brasil. (
Não acreditamos que a AI seja uma “instituição corrompida”. Ela, como todas as outras são uma espécie de MDB das organizações de informação e repressão dos países hegemônicos. Elas são a válvula de segurança. Aquilo que dá LEGITIMIDADE à OPRESSÃO e que amortece as consciências e a capacidade de luta daqueles que verdadeiramente lutam pela liberdade e auto-determinação dos povos.
)

Com efeito: fundada em 1986 por um autêntico lutador dos Direitos Humanos, o jornalista R. Konder, AI do Brasil foi astuciosamente “ocupada” por um grupo de empresários que se vincularam ao mercado e a trataram como uma ONG comum, trocando patrocínio por propaganda e lucro. Para este caso, se aplica perfeitamente a crítica do coordenador da rede da qual falamos. Entre outras, a indústria de brinquedos, cuja imagem é fácil de tornar simpática pelo caráter nobre das crianças foi uma isca útil. O chefe da Associação de Fabricantes e o Presidente da Anistia desenvolveram parcerias fantasiadas de defesa dos DH das crianças, que, na prática, eram campanhas publicitárias apoiadas no prestígio de AI.

Ora, logo que Londres tomou conhecimento deste e outros golpes, dissolveu, de maneira sumaríssima, e pela primeira vez em sua história, uma seção nacional. Por isso eu sou agora um membro Internacional, sem lar fixo, e me submeto à seção norte-americana.

(Mas este foi UM processo longo, que demorou 15 anos em desenvolver- se. Estou preparando há vários meses um detalhado artigo sobre este assunto). (Aguardaremos seu artigo caso nos honre com a remessa)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

DISSECANDO O PRIMARISMO POLÍTICO

Ao expor o primarismo político que grassa na esquerda virtual, escancarado nas diatribes contra a Anistia Internacional, eu não tinha ilusões quanto ao resultado.

Os companheiros com mais informações e melhor formação já nem se dão mais ao trabalho de confrontar o sectarismo dominante.

Sua atitude segue mais ou menos a racionália de um ótimo verso do poeta Capinan: "moda de viola não dá luz a cego".

Ou seja, guardam sua luz para si, dando como irremediável a cegueira dos autoritários de esquerda.

Esses novos bárbaros engendrados pelo refluxo revolucionário das últimas décadas, por sua vez, não têm a mais remota idéia de que a proposta original de Marx era levar a humanidade a um estágio superior de civilização, no qual cada homem pudesse desenvolver plenamente suas potencialidades, liberto dos grilhões da necessidade.

Marx nos apontou como objetivo último a instauração do "reino da liberdade, para além da necessidade". Quem luta atualmente por um objetivo tão formidável e, ao mesmo tempo, tão distante?

Uns se contentam em gerir o estado burguês no lugar dos burgueses, o que lhes dá condição de melhorarem um pouco a situação material dos trabalhadores e aliviarem, também um pouco, as agruras dos excluídos. Há um século seriam qualificados de reformistas.

Outros se fanatizam com projetos autoritários e personalistas de poder que, como bem lembrou o Carlos Lungarzo, têm mais afinidade com o fascismo original de Benito Mussolini do que com as políticas de esquerda.

Estes últimos, no afã de justificarem rudes transgressões dos direitos humanos, não hesitam em promover campanhas virtuais de descrédito da Anistia Internacional, da Human Rights Watch, da ONU e quem mais ainda preze os valores civilizados. Em sua marcha regressiva, implicitamente cancelam até a Grande Revolução Francesa.

É claro que, chegando aos 60 anos, não tenho prazer nenhum em ser alvo da sua irracionalidade em estado bruto.

Houve até quem colocasse em discussão se eu estaria sendo financiado pela CIA, o poder oculto atrás da AI, segundo a interpretação conspiratória da História... Ao atribuir motivos tão pequenos aos outros, esse cidadão projeta uma imagem horrorosa de si próprio.

Mas, alguém tem de empunhar a bandeira da esquerda libertária, mantendo viva a promessa de que os ideais revolucionários e a promoção dos direitos humanos voltarão a ser uma e a mesma coisa, norteando a nossa luta.

E, à falta de um companheiro com mais méritos e saber, eu cumprirei esse papel.

Simplesmente porque não consigo suportar a idéia de que um jovem tentado a fazer algo para melhorar o mundo, ao considerar a opção revolucionária, o faça a partir de modelos tão reducionistas, atrabiliários e pouco inspiradores como os de Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad.

Enquanto eu tiver forças e lucidez, continuarei repisando: isso que hoje passa por atuação de esquerda é quase nada, perto da visão grandiosa que os profetas do marxismo e do anarquismo descortinaram para a humanidade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

REVOLUÇÃO x DIREITOS HUMANOS: CONVERGÊNCIA OU ANTAGONISMO?


Prezados amigos

A ingenuidade mostrada pelo Lungaretti no artigo abaixo chega a ser comovente...

Acreditar que os GOLPISTAS hondurenhos, civis e militares, sejam julgados pelos mesmos tribunais que afastou Zelaya da chefia do poder executivo sem qualquer acusação VERDADEIRA é ser muito, mas muito INGÊNUO.

Acreditar numa organização (Anistia Internacional) que defende a legalização das eleições FRAUDULENTAS de Honduras e que espera que o BENEFICIÁRIO dessa fraude julgue alguém, vai às raias do RIDÍCULO. Aliás, em comentário anterior mencionei qua a AI é patrocinada pelo que há de mais CANALHA no mundo ocidental: a NSA (National Security Agency, USA) e a AIPAC (lobby sionista nos EUA) além de outras organizações de interesses privados do mundo ocidental.

A simples postura de PEDIR algo a um governo(?) ilegítimo já mostra reconhecimento internacional de um GOLPE de estado e reconhecer como poder legítimo um OPORTUNISTA como Porfírio Lobo.

As assertivas acima tornam o artigo abaixo simplesmente RISÍVEL e, pior, digno de COMPAIXÃO por uma pessoa que sempre, ou quase sempre, se colocou ao lado dos desvalidos e despossuídos nesta nossa luta pela emancipação da Pátria Grande.

Abraços a todos e nosso pesar pelo Lungaretti ter caído na esparrela da AI.

Castor Filho

* * *

Castor,

espero que desta vez você conceda espaço para o contraditório, disponibilizando a seus leitores aquele "outro lado" que a grande imprensa aboliu.

Parece-me que um de nossos objetivos na internet é exatamente o de resgatar as boas práticas jornalísticas, ocupando o espaço que a mídia patronal deixou vago. Mas, não será com simplismo e sectarismo que vamos lograr tal objetivo.

A Anistia Internacional é exatamente o que eu disse que é, a principal ONG que atua mundialmente na defesa dos direitos humanos.

Quanto a patrocínios, vêm de quem se dispõe a oferecê-los; o importante é se eles implicam ou não contrapartidas incompatíveis com o escopo do patrocinado.

Decerto, há instituições para as quais ter seu nome associado à respeitadíssima AI significa um reforço tão significativo de imagem, que este é o único retorno que colhem do patrocínio.

Você alega que um lobby sionista nos EUA patrocina a AI. E daí? Eu não darei a mínima, enquanto a Anistia estiver produzindo relatórios e adotando posicionamentos tão críticos às práticas de Israel como o que recentemente noticiei (Anistia Internacional acusa: Israel monopoliza água potável em Gaza) e como estes outros:
Israel/consciências aprisionadas: jovens estão presos por se negarem a prestar o serviço militar

Israel/territórios palestinos ocupados: acesso imediato dos trabalhadores humanitários e observadores essenciais

Israel/territórios palestinos Ocupados: é preciso investigar imediatamente o bombardeio israelense a um prédio da ONU em Gaza

Israel/territórios palestinos ocupados: nova investigação traz esperanças às vítimas de crimes de guerra

Israel/territórios palestinos ocupados: é preciso proteger a população civil de Gaza e de Israel

É necessária uma voz européia mais firme para desbloquear a crise humanitária do Oriente Médio

Israel/territórios palestinos ocupados: Gaza – a investigação da ONU deve ser ampliada

Israel/territórios palestinos ocupados: fim dos ataques ilegais e atendimento das necessidades emergenciais de Gaza

O Conselho de Direitos Humanos da ONU deve ajudar a população civil encurralada no conflito de Gaza
Ou seja, relacionei dez diferentes textos emitidos pela AI, com críticas consistentes e incisivas às atrocidades/iniquidades israelenses.

Nada mais se pode esperar de uma organização humanitária, além de enviar seus observadores para o palco dos acontecimentos e depois pressionar os transgressores com seus relatos, argumentos e autoridade moral. E isto a Anistia faz, exemplarmente.

Você também dá a entender que a AI tenha o rabo preso com uma seguradora estadunidense. Como se explicam, então, os relatórios/posicionamentos abaixo? É só abrir e conferir:
EUA: mensagens contraditórias do presidente Barack Obama sobre as medidas antiterroristas em seus primeiros 100 dias de governo

EUA: a revisão das condições de Guantánamo não aborda importantes questões de direitos humanos

Israel/territórios palestinos ocupados: nova remessa de armas para Israel - o presidente Barack Obama deve deter estas exportações

EUA: os primeiros 100 dias do Presidente Obama em matéria de medidas contra o terror

EUA: os vídeos da CIA demonstram a necessidade de investigar a fundo a “guerra contra o terror”
Ou seja, em todos os episódios envolvendo Israel e EUA que estariam no foco de uma organização de defesa dos direitos humanos, a AI não se omitiu. Fez sempre o que se impunha.

Querer mais do que isto é que constitui ingenuidade. Temos de tirar de cada instituição a contribuição que ela pode dar à causa da liberdade e da justiça social. A da AI é valiosíssima, como nós mesmos pudemos constatar muito bem quando estávamos sendo massacrados pela ditadura militar.

De resto, devem ser consideradas as sábias ponderações do Carlos Lungarzo, militante da Anistia Internacional há três décadas:
"Durante a ditadura de Micheletti houve em Honduras numerosos ataques contra manifestantes pacíficos, estupros, aplicações de tortura, brutalidade policial e alguns homocídios, que não podem ser comparados com a violência defensiva (muito pouca, afinal) dos partidários de Zelaya, que só pensavam em se defender.
"O governo de Lobo, mesmo que seja desagradável para uma visão social humanitária da sociedade, é um fato real, e exigir-lhe que preste conta pelos crimes do governo que lhe facilitou o acesso ao poder é uma atitude de sensatez que visa a punição dos crimes de estado, a não repetição dos mesmos, e a reparação das vítimas. Certamente, muitas pessoas (entre as quais me incluo) preferiríamos pedir a Evo Morales ou Hugo Chaves que façam justiça em Honduras, mas isso é impossível.

"Então, acusar aos que exigem que Lobo não seja complaciente com os criminosos de estado, não significa estar reconhecendo sua legitimidade eleitoral, menos ainda desprezando a resistência: implica admitir que ele tem o poder oficial, e seu governo é o único que pode, neste momento, fazer essas apurações".
Por último, quero ressaltar que não caí em esparrela nenhuma nem vejo a causa dos desvalidos e dos depossuídos como incompatível com a defesa dos direitos humanos. Muito pelo contrário.

Já publiquei vários textos importantes do Conselho de Direitos Humanos da ONU, da Human Rights Watch e da Anistia Internacional; e continuarei a fazê-lo, sempre que estiverem certos em seus posicionamentos (quase sempre estão!).

Quando meu blogue Náufrago da Utopia completou um ano, em agosto último, já disse tudo que tinha para dizer sobre esse tipo de críticas. Só me resta repetir:
"...enunciei que sua missão seria a defesa dos ideais revolucionários e dos direitos humanos, bem como o exercício do pensamento crítico; e que estas três bandeiras seriam defendidas simultaneamente e em pé de igualdade, jamais priorizando-se uma em detrimento da outra.

"Trocando em miúdos, os direitos humanos não são sacrificáveis às conveniências revolucionárias. Luto por uma revolução que os contemple a todo momento, não por uma que os negue no presente, na esperança de restabelecê-los num futuro que acaba nunca chegando.

"Do stalinismo e da esquerda autoritária estou fora há muito tempo e continuarei apartado pelo resto dos meus dias."
CELSO LUNGARETTI

* * *

Prezado Lungaretti

Em primeiro lugar não existe isso de "outro lado" entre pessoas que lutam por um propósito comum. Outra coisa, não pretendo resgatar quisquer "boas práticas jornalísticas", pois isso NUNCA existiu, não existe e jamais existirá.

O Objetivo Maior da rede castorphoto é DESTRUIR o jornalismo, os jornais e assemelhados, incluindo os JORNALISTAS tal como os conhecemos hoje. Esta é a razão do porquê da rede castorphoto (assim mesmo com letra minúscula) ser uma rede de informação e NÃO uma rede de discussão como tantas outras. E que cresce diariamente...

Nosso trabalho é simples:
- Juntamos montes de endereços (e-mails)
- Dividimos por áreas de interesse
- Dividimos novamente entre 70 colaboradores diretos e 283 colaboradores indiretos (cada um desses colaboradores tem sua própria lista pessoal de distribuição, a qual varia de 150 a 220 e-mails por colaborador).

Temos uma estimativa criada através de informações e práticas de controle que hoje, tão logo transmitimos um e-mail por um dos nossos 25 endereços, incluindo aí minha lista pessoal da qual você faz parte, cerca de 40.000 pessoas terão disponibilizados em suas CPs este e-mail em aproximadamente 60 minutos, em média.
- Tomamos o MÁXIMO cuidado em transmitir apenas mensagens que INTERESSAM aos objetivos POLÍTICOS da rede castorphoto. Quer dizer: NÓS TEMOS LADO e não compartilhamos os ideais pseudo-democráticos aos quais você eventualmente idealizou e/ou pretende ver realizado.

Penso que agora você terá entendido os OBJETIVOS e COMPROMISSOS da rede castorphoto.

Outro assunto: Anistia Internacional

Esta é uma organização semelhante aos Repórteres Sem Fronteiras ou Médicos Sem Fronteiras e a quase totalidade das ONGs de DHs. Isto é, uma organização PAGA, DIRIGIDA E COORDENADA por INTERESSES CONTRÁRIOS àqueles propostos pela rede castorphoto.

A AI, sem dúvida a maior ONG de DHs do mundo, pode produzir quantos relatórios quiser, contratar quantos cientistas puder, alinhar em seus quadros quantos HOMENS DE BOA VONTADE (como você e o Lungarzo, p. ex.) conseguir, mas ela terá sempre um INTERESSE MAIOR e inconfessável: a manutenção do "status quo" no mundo, seja na POLÍTICA internacional (com suas investidas pontuais e segmentadas nas políticas nacionais), seja na ECONOMIA mundial, seja na aplicação do TERRORISMO DE ESTADO. Tudo conforme os interesses de seus PATROCINADORES.

Um parêntese: em 1964 logo após o golpe de 1o. de abril, mês de maio, apareceu no Mackenzie (SP) uma comitiva da AI chefiada por um hindu que falava inglês de Oxford, para DEFENDER e REFERENDAR o golpe de estado aqui na terrinha. E mais, percorreu praticamente TODAS as universidades da cidade (USP, PUC, Sedes Sapientie e outras) num trabalho que pode ser classificado de catequese. Tudo patrocinado pela EMBAIXADA DOS EUA.

Você enviou uma quantidade de RELATÓRIOS, provavelmente caríssimos e realizados por homens mulheres seríssimos, mas que NINGUÉM, exceto uma minoria menos que mínima e que pouquíssimo ou nenhum IMPACTO causará na HUMANIDADE.

A razão é simples: A AI perderia todo o seu patrocínio se comprasse, p. ex., várias PRIMEIRAS PÁGINAS e TEMPO EM JORNAIS TELEVISIVOS pelo mundo para DIVULGAR esses mesmo maravilhosos relatórios que você me enviou. Sabe o porquê? Porque massificar esses relatórios na MÍDIA NÃO INTERESSA AOS DONOS DO MUNDO. Interessa apenas aos INGÊNUOS que acreditam nos belíssimos relatórios os quais, como diria minha avó, serão lidos por "meia dúzia de três ou quatro".

Fico imaginando um desses relatórios nas primeiras páginas do NYTimes, do WPost, do USA Today, do The Times da FSP, do O Globo. Ou como chamada de "capa" do CNN News, CBS News, do JN da Globo etc. etc.

Quer dizer: eles gastam uma graninha para pagar os competentes e sérios fazedores de relatórios maravilhosos e ECONOMIZAM na DIVULGAÇÃO desses mesmos relatórios. Seria e É muita ingenuidade ACREDITAR nessas ONGs de DHs...

Pode ser, é até mais provável, que existam alguns "colaboradores" interessados tão somente na GRANA angariada por essas ONGs do que nos DHs propriamente ditos. Afinal, é apenas uma maneira de ganhar a vida...

P'ra terminar: Honduras é apenas um "prato" entre muitos para o apetite dessas ONGs de araque. Produzir o ÓBVIO é fácil. Nós, da rede castorphoto, distribuímos DIARIAMENTE para INÚMEROS países da AL, Brasil inclusive, os "sites" de Honduras com relatos do povo partícipe da luta contra a Golpe de lá. P'ra que AI ou outra ONG qualquer fazer um "relatório" sobre o que lá ocorre se temos o próprio testemunho do povo local? É o mesmo que acreditar que existe um governo Lobo em Honduras... Pedir algo a um governo que não existe é referendar sua existência. Cadê a seriedade disso?

Seria outro RELATÓRIO GOLDSTONE? Aquele que serviu para Israel, os EUA e toda a direitona "morrerem de rir" do sofrimento do povo palestino...

Caro Lungaretti, sabemos o quanto você penou durante a vigência do golpe militar em nosso país, mas isso não lhe dá "carta de alforria" para servir de "bucha de canhão" para a "maior ONG de DHs no Mundo" totalmente vinculada e obediente aos interesses dos EUA.

E nem mencionei o FATO da expulsão da AI da Venezuela por MENTIR vergonhosamente no "relatório" sobre DHs naquele país...

Abraço

Castor

* * *

Castor,

desde que os movimentos revolucionários surgiram, sempre houve vários lados. A diferença é que com os companheiros de outras tendências discutimos, enquanto aos inimigos combatemos.

P. ex., no nosso caso são evidentes as divergências estratégicas (entre um libertário e um autoritário) e táticas (entre quem pretende desenvolver um jornalismo realmente informativo/formativo/opinativo, na suposição de que a verdade seja sempre revolucionária, e quem pretende apenas fazer panfletarismo de esquerda).

Sua visão sobre direitos humanos é exatamente a dos que os sacrificam em nome de valores que acreditam ser maiores. Como Stalin.

E sua miopia em relação ao Relatório Goldstone e à Anistia Internacional é simplesmente estarrecedora. Com tais preconceitos, a esquerda jamais voltará a disputar o poder nas nações centrais -- aquelas que, por terem as forças produtivas mais desenvolvidas, acabam traçando o caminho que as demais seguirão, segundo Marx.

Ou seja, seus conceitos nos condenam a permanecermos como a vanguarda dos países atrasados. Os meus tentam tornar a esquerda de novo influente nas nações que determinam o futuro da humanidade.

Já o fomos. Poderemos sê-lo novamente. Mas, não com arbitrariedades e truculência, pois os cidadãos civilizados hoje são ciosos de sua liberdade. Não a trocam por caudilhos e homens providenciais.

E, se a sua rede não admite a discussão, viola um valor sagrado para a esquerda resultante da negação do stalinismo, à qual sempre pertenci.

Então, é hora de separarmos nossos trabalhos.

E, como a transparência é, para mim, um valor fundamental, publicarei em meus espaços os quatro textos desta polêmica que você sonegou do seu público. Eu não a sonegarei do meu.

CELSO LUNGARETTI

ANISTIA INTERNACIONAL EXORTA LOBO A PUNIR BESTAS-FERAS DE MICHELETTI

Graves violações de direitos humanos foram cometidas pelo governo golpista de Roberto Micheletti, com os agentes de segurança hondurenhos fazendo "uso excessivo da força" ao reprimirem protestos contra a deposição do presidente constitucional Manuel Zelaya.

A conclusão é da Anistia Internacional, a mais respeitada ONG dedicada à defesa dos direitos humanos em todo o planeta, cujos representantes, depois de ouvirem "dezenas de testemunhas", saíram de Honduras convencidos de que ocorreram execuções ilegais, torturas, estupros e prisões arbitrárias no período subsequente ao 28 de junho em que Zelaya foi arbitrariamente expulso do país:
“Centenas de pessoas que se opunham ao golpe de Estado foram agredidas e detidas pelas forças de segurança durante os protestos nos meses seguintes. Mais de dez teriam sido mortas durante os conflitos, de acordo com relatos”.
No relatório que acaba de divulgar, a AI garante, ainda, que ativistas de direitos humanos, líderes oposicionistas e juízes sofreram ameaças e intimidações; e que meninas e mulheres foram abusadas sexualmente.

Kerrie Howard, vice-diretora da AI para as Américas, exige providências do presidente eleito de Honduras, Porfírio Lobo, que tomará posse nesta 4ª feira (27):
"O presidente Lobo deve garantir um novo começo para os Direitos Humanos em Honduras ao garantir que os abusos cometidos desde o golpe de Estado não sejam esquecidos nem fiquem impunes".
Lobo, entretanto, já anunciou que pretende fazer aprovar uma anistia ampla, beneficiando tanto Zelaya e seus partidários quanto os golpistas de Micheletti.

Algo assim como a Lei de Anistia brasileira, que igualou as atrocidades cometidas pela repressão política aos atos praticados por civis que resistiam ao despotismo.

Há, claro, diferenças entre ambos os golpes:
  • os militares brasileiros viraram a mesa sem terem o aval de nenhum Poder, enquanto em Honduras o Legislativo e o Judiciário respaldaram o afastamento de Zelaya;
  • mas, Manuel Zelaya foi privado do seu direito constitucional de defender o mandato que conquistou nas urnas, pois o expulsaram ilegalmente de Honduras, ao invés de julgarem-no pela tentativa promover um plebiscito talvez ilegal;
  • então, o governo de Micheletti acabou sendo tão ilegítimo quanto o dos generais ditadores do Brasil, e os atos de que a AI o acusa devem ser chamados pelo que foram, terrorismo de estado para preservar uma tirania;
  • e, como o afastamento de Zelaya não cumpriu os rituais democráticos, ele e seus partidários não são, até agora, culpados de delito nenhum, apenas acusados;
  • então, não tem o mínimo cabimento colocar no mesmo plano tais acusações e os assassinatos, torturas, estupros e intimidações perpetrados pelo governo ilegal de Micheletti.
Aqui também cabe um paralelo, com a tese ridícula e juridicamente indefensável que Ives Gandra Martins e outros defensores da ditadura brasileira difundem, de que supostas intenções totalitárias das forças de esquerda justificariam a derrubada de um presidente legítimo e a imposição do totalitarismo no Brasil por parte dos golpistas de 1964.

Concluindo: está certíssima a AI quando exorta Lobo a levar aos tribunais as bestas-feras de Honduras.

E Zelaya jamais deve aceitar uma anistia que o coloque no mesmo plano dessas bestas-feras.

Se for este o preço para viver livremente e retomar a carreira política em seu país, a única opção digna para ele é mesmo o exílio.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

"FOLHA" FAZ NOVA PROVOCAÇÃO

Ives Gandra Martins é um advogado tributarista que ensina a grandes clientes como pagarem menos, ou nenhum, imposto de renda.

Ou seja, presta relevantes serviços à causa da desigualdade social, já que alivia os ricos das mordidas do leão, enquanto os pobres, não contando com assessoria jurídica da mesma qualidade, acabam se sujeitando a tributos injustos e até ilegais.
Houve tempo em que ele era atração exclusiva do jornal O Estado de S. Paulo, eternamente alinhado com os interesses empresariais.

Agora, a Folha de S. Paulo também lhe concede espaço de articulista. E não na sua área específica, mas para falar sobre o que desconhece e não tem isenção para abordar: ditadura militar x resistência.

Seu artigo de hoje (22), Guerrilha e redemocratização, não passa de uma síntese da propaganda enganosa que os sites fascistas trombeteiam sobre o período de 1964/85 e, mais especificamente, sobre a terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos.

Parece que, ao lecionar Direito na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e na Escola Superior de Guerra, foi ele quem recebeu lições dos alunos: ensinaram-lhe o Torto.

Diz que, ao resistir ao terrorismo de estado implantado pelos golpistas de 1964, "a guerrilha apenas atrasou o processo de retorno à democracia".

Justifica as atrocidades ditatoriais com a falácia de que os verdadeiros responsáveis foram os que não se submeteram a viver debaixo das botas, pois "ódio gera ódio, e a luta armada acaba por provocar excessos de ambos os lados". É a velha piada do brutamontes se queixando de haver machucado a mão ao esmurrar a cara de um fracote...

Minimiza a contribuição dos movimentos de resistência à democratização, que, segundo ele, se deveu principalmente à atuação da OAB e de alguns parlamentares.

Aponta Hugo Chávez como eminência parda do PNDH-3 ("o programa é uma reprodução dos modelos constitucionais venezuelano, equatoriano e boliviano"), o qual estaria sendo "organizado por inspiração dos guerrilheiros pretéritos" (leia-se Paulo Vannuchi).

E insinua que a presidenciável do PT tem esqueletos no armário, pois, se forem apurados também os excessos porventura cometidos pelos resistentes, "isso não será bom para a candidata Dilma Rousseff". [Se tivesse algo consistente para dizer faria acusações concretas, ao invés de servir-se de indiretas para insuflar suspeitas, sem correr o risco de ser acionado por calúnia e difamação.]

Caso essa visão distorcida e tendenciosa da extrema-direita, expressa pelo Gandra Martins, tivesse a mínima relevância à luz dos valores civilizados, seria fácil refutar seu artigo de amador que invade destrambelhadamente a seara dos profissionais.

Mas, nem ele é importante como analista político, nem os artigos de Opinião da Folha são referencial para coisíssima nenhuma atualmente.

O jornal da ditabranda está sempre laçando fascistas acidentais para escreverem textos provocativos, capazes de motivar muitas refutações. Quer dar a impressão de que ainda é um veículo polêmico, trepidante.

Não farei o seu jogo, pois tanto a Folha de S. Paulo quanto o ideário que norteou o artigo de Gandra Martins só merecem de mim o mais absoluto desprezo.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

GOVERNO BELUSCONI LANÇA A "OPERAÇÃO MÃOS SUJAS"













A "Lei Berlusconi" repete a "Lei Fleury": casuísmo
para manter delinquente poderoso fora das grades.

Quando o grande promotor Hélio Bicudo obteve a condenação do delegado Sérgio Paranhos Fleury pelos crimes cometidos como líder do Esquadrão da Morte de São Paulo -- quadrilha de policiais que executava contraventores e, apurou-se depois, era financiada por um grande traficante para eliminar seus concorrentes --, os deputados subservientes à ditadura criaram uma lei com o objetivo exclusivo de evitar que ele ficasse merecidamente atrás das grades.

Apelidada de Lei Fleury, ela alterou a regra segundo a qual os condenados em primeira instância deveriam aguardar presos a sequência do processo. Abriu-se uma exceção para os réus primários, com bons antecedentes e residência fixa.

Foi a retribuição do regime militar a um de seus principais carrascos, responsável pela tocaia contra Carlos Marighella, pela chacina da Lapa, pelo dantesco suplício que antecedeu o assassinato de Eduardo Leite (o Bacuri) e, enfim, por um sem-número de homicídios e torturas.

Em nome do serviço sujo e sanguinário que efetuou a partir de 1968 na repressão política, anistiaram-no informalmente das atividades paralelas que ele antes desenvolvera, ao atuar no radiopatrulhamento de São Paulo.

A introdução de uma lei casuística, para aliviar a situação de um poderoso nos processos que já estavam em curso, é até hoje motivo de opróbrio para o Estado brasileiro -- uma das muitas aberrações que marcaram o período 1964/85.

A Itália está prestes a seguir um dos nossos piores passos -- e em plena democracia! Não tem sequer a atenuante de serem ilegítimos os seus representantes que propõem tal descalabro.

O Senado italiano aprovou nesta 4ª feira (20) projeto de lei do Executivo alterando o prazo de prescrição dos processos judiciais, de forma que aqueles nos quais premiê Silvio Berlusconi é reu (fraude fiscal e suborno) passem a prescrever em seis anos e meio, ao invés dos dez anos atuais.

Ou seja, o governo Berlusconi propôs uma lei que beneficia Berluconi... e o Senado baliu amém.

Se a Câmara também coonestar essa imundície, o premiê terá conseguido escapar pela tangente de todos os processos que lhe são movidos.

Que dizer de um país que aceita ter como primeiro-ministro não um cidadão inocentado das acusações que lhe foram feitas, mas sim um contraventor favorecido pela prescrição dos seus delitos?! Ainda por cima, utilizando em causa própria os poderes que lhe foram concedidos pelo povo italiano.

Também pela tangente, Berlusconi está conseguindo escapar da condenação a que faria jus por ter dado cobertura política à Cosa Nostra na década passada. Esteve a soldo do chefão responsável pelo assassinato de um juiz e seus cinco seguranças.

Se concretizada, a virada de mesa vai produzir um verdadeiro terremoto na Justiça italiana: o número de processos que prescreverão poderá chegar a 100 mil, incluindo grandes casos de falência fraudulenta, como o da Parmalat.

E o Executivo e o Legislativo, acumpliciados, terão conseguido abortar a cruzada contra a impunidade desenvolvida pelo Judiciário, seguindo a tradição dos heróicos magistrados que ousaram confrontar a Máfia com a Operação Mãos Limpas.

Emblematicamente, é um político que protegia mafiosos o atual pomo da discórdia.

Berlusconi encabeça a Operação Mãos Sujas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

LIGA DOS DIREITOS DO HOMEM APELA A LULA POR BATTISTI

Comumente referida apenas como LDH, a Liga Francesa para a Defesa dos Direitos do Homem e do Cidadão é a mais prestigiosa ONG empenhada na observação, defesa e promulgação dos DH na República Francesa, em todos os domínios da vida pública; integra a Federação Internacional de Direitos Humanos.
Eis a íntegra da mensagem que enviou ao presidente Lula:
Paris, 24 de Novembro de 2009.

Exmo. Sr. Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República Federativa do Brasil

Senhor Presidente,

Vossa Excelência ouviu as graves acusações, de terrorismo e mortes, que pesam sobre Cesare Battisti. Vossa Excelência ouviu também seus defensores explicarem a total ausência de provas e testemunhos quanto à sua culpa, o papel extremamente duvidoso dos “arrependidos” durante o processo, as suspeitas que pairam sobre várias peças do dossiê.

O senhor também ouviu, senhor Presidente, alguns italianos, de esquerda como de direita, reclamarem sua extradição. As ofensas midiáticas e diplomáticas não deixam espaço para a dúvida e para pontos de vista contraditórios. Esta súbita obstinação contra um homem com o qual ninguém se preocupou durante tantos anos bem demonstra que Cesare Battisti se tornou um mero trunfo político-eleitoral. Por que não se preocupam com os outros italianos exilados, de extrema-esquerda e, sobretudo, de extrema-direita, com comprovada responsabilidade em atentados?

Vossa Excelência é o chefe de um grande país, o Brasil, e se, num primeiro momento, outorgou um refúgio político a Cesare Battisti tendo em vista sua situação e em conformidade à Constituição brasileira, também viu, num segundo momento, o Supremo Tribunal Federal assenhorear-se do caso, e viu pessoas que, por sua vez, tentaram transformá-lo num trunfo de política interna. Para essas pessoas, mais uma vez, pouco importa o destino de um homem.

Após a resolução do Supremo Tribunal Federal, o destino de Cesare Battisti passou a depender única e exclusivamente de Vossa Excelência. Vossa Excelência sabe que Battisti vem protestando há vários anos, afirmando que jamais dirigiu essa organização de que fazia parte, e que jamais cometeu os crimes de que é acusado. Porém, ninguém o escuta, e aparentemente pouco importa a seus acusadores que ele seja culpado ou inocente. Para eles, Battisti é antes de tudo um símbolo. E o discurso desses acusadores não fala de Direito, mas da vingança, essa inimiga da Justiça.

O caso Battisti cria um imenso mal-estar em todos os amantes da justiça e da liberdade: será justo condenar um homem e, o que quer que ele tenha feito, deixá-lo morrer, simplesmente por ter se tornado, nos últimos cinco anos, um objeto de troca, o trunfo de querelas políticas e de transações econômicas nacionais e internacionais? Este seria o extremo oposto de um ponto de vista humanista.

O engajamento pode levar à rebelião. A rebelião, quando fracassa, pode levar à prisão. A rebelião, quando vitoriosa, pode levar à responsabilidade política. E a política, por necessidade, leva a compromissos. Isso nós compreendemos, senhor Presidente, como compreendemos que Vossa Excelência se encontra diante de um problema complexo. É uma imensa responsabilidade. É também um imenso privilégio perante a Justiça e a História. Ao dizer “não” à extradição deste homem, Vossa Excelência poderá refutar essa iniciativa selvagem, em que a vida de um homem nada significa quando os poderosos, um Estado, ou até multidões clamam pelo sacrifício de um bode expiatório.

Pois bem sabe Vossa Excelência que a pessoa de Cesare Battisti não pode se reduzir a um mero símbolo. Cesare Battisti é antes de tudo um ser humano. A seu pedido, ele interrompeu sua greve de fome. Isso prova que ele confia em Vossa Excelência.

Também nós confiamos. Pois estamos seguros de que o presidente da República Federativa do Brasil não deixará que se entregue esse homem a um país que clama tão tardiamente, e com excessiva ferocidade, por uma injusta vingança. E a História há de lembrar.

Rogamos que aceite, senhor Presidente, os protestos de nossa admiração e a expressão de nosso imenso respeito,

Jean-Pierre Dubois
presidente da Liga dos Direitos do Homem (LDH)

Michel Tubiana
presidente honorário da Liga dos Direitos do Homem (LDH)

(com a colaboração de Gérard Alle, escritor,
Comitê francês de apoio a Cesare Battisti)

domingo, 17 de janeiro de 2010

CRISE MILITAR TEM DESFECHO PÍFIO E DEIXA INDEFINIÇÕES


Em tempos de um futebol menos robotizado, os torcedores sabiam que, do craque, sempre se pode esperar um lampejo salvador, mesmo faltando apenas um minuto e ele nada tendo feito de útil nos 89 anteriores.

Colunista veterano também é assim. Canso de ler diatribes de jovens internautas contra os Albertos Dines, Clovis Rossis e Jânios de Freitas da vida. E tenho vontade de recomendar-lhes, como Pelé fez, gesticulando à torcida vascaina que o vaiava no finalzinho de um jogo que o Santos perdia por 1x0 no Maracanã: "esperem e verão!".

Vira e mexe eu reverencio aqui os grandes artigos desses três, que já não os produzem com a assiduidade de outrora, mas continuam capazes de esgotar o assunto quando acordam inspirados.

O de Jânio de Freitas na Folha de S. Paulo neste domingo (17), Precisamos, em vão, é simplesmente obrigatório, com destaque para este parágrafo:
"É preciso discutir o que significa, para o regime e para a cidadania, o poder autoatribuído pelos comandos militares e reconhecido pelo presidente da República de impedir, sobrepondo-se à ordem institucional proclamada, medidas autorizadas ou determinadas pela Constituição. Os militares não se tornaram democratas, como têm atestado tantas demonstrações do seu apego à memória da ditadura. Mas, daí a interferir na função e na autoridade de um poder constituído, vai a distância entre regime constitucional democrático e a falência desse regime, da Constituição e da cidadania".
Os militares deram um murro na mesa em 2007, para impedir que os brasileiros exercessem seu direito à memória e à verdade.

Têm atrapalhado de todas as formas o esclarecimento de episódios históricos e até o resgate dos restos mortais pelos quais as famílias clamam -- muitas delas, coitadas, acalentando até hoje a sofrida esperança de que seus desaparecidos não tenham sido executados, hajam escapado.

Alguns militares já foram até pilhados pela imprensa (nada menos que o Fantástico!) fazendo fogueirinha dos registros de crimes antigos, sem que nada lhes acontecesse.

E, nas últimas semanas, voltaram os fardados a tentar impor sua autoridade ao próprio presidente da República, que é seu comandante supremo.

Justiça seja feita: desta vez o que houve não foi, propriamente, uma rendição incondicional de Lula, que, entretanto, perdeu ótima oportunidade para colocar os comandantes insubordinados no seu lugar, demitindo-os no ato.

Ele reagiu com certa indiferença ao ultimato dos militares e respectivo ancião de recados (aquele civil que gosta de se fazer fotografar em uniforme de campanha...), deixando a decisão para depois de suas férias e, finalmente, reduzindo tudo a um copidesque semântico que não desprestigiou ostensivamente nem o ministro da Defesa (Nelson Jobim) nem o dos Direitos Humanos (Paulo Vannuchi)... mas equivaleu um balde d'água fria atirado nos brasileiros que prezam a democracia e os valores civilizados.

Ou seja, Lula apenas se livrou de um problema espinhoso, transferindo o abacaxi para o grupo interministerial que vai elaborar o projeto de lei instituindo a Comissão Nacional da Verdade; e para o Congresso, que dará a palavra final.

Só daqui a bom tempo saberemos se vai mesmo existir uma Comissão da Verdade, se ela apurará mesmo o que tem de ser apurado (as atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85) e se o Estado brasileiro oferecerá ou não aos militares o contrapeso meramente propagandístico de incluir no pacote a investigação de excessos cometidos pelas vítimas durante uma luta de resistência à tirania.

Isto, claro, se houver vontade política para se dar um xeque-mate nesta questão em pleno ano eleitoral.

Caso contrário, tudo dependerá do perfil ideológico de quem vai estar envergando a faixa presidencial a partir de 2011.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

BLEFE MILITAR FRACASSA E IMPRENSA CAI NO RIDÍCULO

O parto da montanha foi um rato: nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cedeu como os comandantes militares exigiam, nem rechaçou explicitamente sua chantagem como os democratas prefeririam.

Com seu habitual estilo contemporizador, primeiramente deu tempo ao tempo, esperando a temperatura política baixar.

Depois, fez retoques semânticos na terceira versão do Programa Nacional de Direitos Humanos, conforme o ministro da Defesa (Nelson Jobim) propôs e o dos Direitos Humanos (Paulo Vannuchi) concordou.

[A reunião, segundo a imprensa, durou apenas "pouco mais de meia hora", reforçando a impressão de que os atores estavam mesmo é posando para suas respectivas clientelas, bem ao estilo do teatro político...]

Então, onde se dizia que a Comissão Nacional da Verdade iria apurar os crimes cometidos pela repressão política, agora está dito que o foco de suas investigações serão as violações de direitos humanos.

Ponto para os militares? Nem tanto. Pois não se-lhes concedeu o que eles mais gostariam de ver no papel: a equiparação das atrocidades da ditadura às ações violentas dos resistentes. Tal mostrengo foi considerado inaceitável, felizmente.Só que não se cravou a estaca no coração do vampiro, pois competirá à Comissão "identificar e tornar públicas as estruturas utilizadas para a prática de violações de direitos humanos, suas ramificações nos aparelhos de Estado, e em outras instâncias da sociedade".

Ou seja, nesse balaio entra qualquer coisa, conforme o gosto do freguês.

É óbvio que as estruturas transgressoras dos direitos humanos, ramificadas nos aparelhos de Estado, nada mais eram do que o DOI-Codi, os Dops (depois Deops) e os serviços secretos do Exército, Marinha e Aeronáutica,

Quanto às ramificações dessas estruturas em outras instâncias da sociedade, aí há pano para manga.

Democratas colocarão neste escaninho:
  • a Operação Bandeirantes, filha bastarda que nenhum pai registrou em cartório (foi estrutura informalmente por militares e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas) mas deteve poder de vida e morte sobre os resistentes;
  • os aparelhos clandestinos da repressão, como a Casa da Morte de Petrópolis e o sítio do delegado Sérgio Paranhos Fleury, para onde eram levados os resistentes cuja prisão não se pretendia formalizar, pois estavam marcados para morrer e evaporarem;
  • os procedimentos ilegais, criminosos e hediondos efetuados no âmbito da Operação Condor;
  • o Comando de Caça aos Comunistas (que voltou ao noticiário ultimamente por conta da incontinência verbal de um de seus quadros históricos) e bandos congêneres de paramilitares;
  • os terroristas que lançavam bombas em instituições como a OAB e a ABI, incendiavam bancas de jornais e planejaram o atentado do Riocentro.
OS CORVOS E SEUS GRASNADOS

Mas, o Jarbas Passarinho e outras aves de mau agouro decerto vão grasnar que as vítimas também cometeram excessos, ao reagirem à truculência dos governos golpistas e respectivos carrascos.

E seus grasnados soarão em volume exageradíssimo na grande imprensa, ensurdecedores a ponto de abafar os argumentos dos seres humanos sensatos e justos. Como sempre.

Então, tudo doravante dependerá, inicialmente, do grupo interministerial que vai elaborar o projeto de lei instituindo a Comissão da Verdade; e depois, de sua tramitação no Congresso Nacional.

O primeiro deveria concluir seu trabalho até 21 de abril, para constar das comemorações do dia de Tiradentes. Vamos ver se o timing será mantido.

Mesmo que não haja prorrogação, dificilmente o Congresso dará à luz essa lei nos oito meses finais do Governo Lula. Ainda mais se tratando de um ano eleitoral, em que o esvaziamento de suas sessões já se tornou uma melancólica rotina.

O balanço final do episódio, portanto, é:
  • apesar de alguma ambivalência no tocante à Comissão da Verdade, a decisão de Lula manteve a integridade do PNDH-3;
  • caberá aos democratas, com sua mobilização, evitarem que seja desfigurado adiante;
  • o abacaxi só será efetivamente descascado (ou não) pelo próximo Governo, a quem caberá colocar em prática ou manter no limbo as iniciativas do PNDH-3;
  • os alarmistas da grande imprensa caíram em ridículo total, ao apresentarem como golpe de estado um pacote de medidas que o Governo tem pleno direito de propor, mas cuja implementação depende do crivo parlamentar, como é regra nas democracias.
Talvez o mais auspicioso deste episódio tenha sido a constatação de que Lula aprendeu a dar o justo peso aos blefes militares.

Há dois anos e meio, uma nota oficial do alto comando do Exército o fez desistir da cassação do habeas corpus que os criminosos da ditadura militar previamente se concederam: impôs a diretriz de que a Lei de Anistia permaneceria intocável, no âmbito do Executivo.

De lá para cá, Lula adquiriu uma melhor percepção da força de que realmente dispõem os reacionários: não passam de liliputianos que os holofotes da mídia fazem parecer gigantes.

E está se permitindo até escarnecer das tempestades em copo d’água da imprensa, como quando negou que Jobim, Vannuchi e os comandantes militares o tivessem pressionado com pedidos de demissão:
“A única coisa que chegou na minha mão foram divergências entre dois ministros, que foram resolvidas hoje [13/01]".

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

CASO BATTISTI: LÍDER DA BANCADA DE BERLUSCONI AMEAÇA O BRASIL

O estilo de vida de ontem se mantém na Itália de hoje. Tomara que a desonra acabe amanhã...

O senador italiano Maurizio Gasparri, líder da bancada governista, acaba de deitar falação à Ansa, ameaçando: se o Brasil não extraditar o perseguido político Cesare Battisti, poderá haver "nefastas consequências" para o relacionamento entre os dois países.

Numa atitude de extremo desrespeito para com o primeiro mandatário da Nação brasileira, Gasparri tenta ganhar no grito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, esquecendo-se, inclusive, de que não é ele o seu interlocutor protocolar, mas sim o presidente do Senado José Sarney.

Além da demonstração que deu de grosseria e desconhecimento das regras mais elementares da diplomacia, ele ainda incorreu noutro primarismo atroz: arrogou-se a questionar o presidente de uma república estrangeira não por declarações que tenha dado, mas pelas intenções que a mídia lhe atribui.

Assim, Gasparri disse esperar "que não seja verdadeira a notícia veiculada pela imprensa brasileira", de que Lula tende a confirmar a decisão soberana que o Governo brasileiro tomou um ano atrás.

Seria o caso de Sarney também dar entrevista a alguma agência noticiosa internacional, manifestando sua esperança de que não seja verdadeira a notícia veiculada pela imprensa italiana de que o premiê Silvio Berlusconi já prestou serviços à Máfia...

O certo é que as pressões insultuosas e descabidas das autoridades italianas sobre o Brasil começaram em janeiro/2009, quando o ministro da Justiça Tarso Genro, no exercício de suas prerrogativas, concedeu o refúgio humanitário a Battisti (depois absurdamente questionado pelo Supremo Tribunal Federal, num de seus muitos julgamentos recentes em que motivações políticas prevaleceram sobre a letra e o espírito da Lei).

Já daquela vez o direitista Gasparri havia revelado toda sua prepotência, ao qualificar de "patetice" a decisão de Genro .

E os destemperos verbais italianos não pararam mais, em flagrante contraste com os tímidos protestos que eles emitiram quando o presidente francês Nicolas Sarcozy lhes enfiou idêntico sapo goela adentro, no Caso Marina Petrella.

OS PONTAPÉS DA BOTA ITALIANA

Eis algumas das reações intempestivas dos herdeiros de Mussolini no ano passado:
  • ministros e até autoridades de segundo escalão ousaram conclamar Lula a revogar a decisão do seu ministro da Justiça, insultando a ambos e cometendo, também daquela vez, a gafe diplomática de não levar em conta a posição do presidente brasileiro, cujas interfaces são o presidente Giorgio Napolitano e o premiê Silvio Berlusconi;
  • o embaixador foi chamado à Itália para consultas e "discussão de novas diretrizes”;
  • o vice-presidente da bancada governista na Câmara dos Deputados da Itália pregou a suspensão das relações com o Brasil;
  • aproveitando o fato de estarem presidindo o G-8 (grupo dos países ricos), os italianos insinuaram que poderiam dificultar o almejado ingresso do Brasil;
  • o vice-prefeito de Milão conclamou os italianos a boicotarem os produtos brasileiros;
  • o vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado exortou os italianos a boicotarem o Brasil como destino turístico;
  • o ministro da Defesa Ignazio La Russa (aquele neofascista que até hoje homenageia os militares da República de Saló que enfrentaram as forças aliadas na 2ª Guerra Mundial...) e o subsecretário das Relações Exteriores defenderam o cancelamento de um amistoso futebolístico com o Brasil, enquanto a ministra da Juventude recomendou que os jogadores entrassem em campo com faixas de luto; e
  • o ministro da Justiça Angelino Alfano admitiu publicamente que não pretendia cumprir a promessa feita às autoridades brasileiras, de que, caso concedessem a extradição, a pena de Battisti seria reduzida para 30 anos, o máximo permitido por nossas leis.
Coerentemente, o jurista Dalmo de Abreu Dallari já explicou que o governo italiano, a despeito das promessas mentirosas que faça, não tem poder para modificar uma sentença judicial definitiva, daí a existência de um impedimento constitucional intransponível para a extradição de Battisti.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

CRISE MILITAR: NOVA BATALHA DE ITARARÉ?

1930. As tropas insurgentes de Getúlio Vargas vêm do RS para tentarem tomar a capital federal (Rio de Janeiro). Os efetivos leais ao presidente que elas querem depor, Washington Luiz, esperam-nas na cidade de Itararé, divisa entre SP e PR. Canta-se em prosa e verso aquela que será a mais formidável e sangrenta das batalhas.

Mas, nem um único tiro é disparado: antes, o presidente bate em retirada, entregando o poder a uma junta governativa.

Ironizando, o grande humorista Aparício Torelly escreve que, como nada lhe reservaram no rateio de cargos governamentais entre os vencedores, ele próprio se outorgaria a recompensa:
"O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram exercer o seu patriotismo a tantos por mês em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve".
Uma batalha que não houve é o desfecho para o qual, a crermos na Folha de S. Paulo desta 2ª feira (11), os ministros Nelson Jobim (Defesa) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) estariam encaminhando a divergência sobre se a Comissão Nacional da Verdade investigará apenas as atrocidades cometidas pelos carrascos da ditadura militar ou vai oferecer um contrapeso propagandístico à direita militar, incluindo os atos de resistência praticados pelas vítimas:
"O governo articula uma solução de meio termo para a questão nevrálgica do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos: em vez de acrescentar ao texto do programa a investigação da esquerda armada durante a ditadura militar (1964-1985), como querem as Forças Armadas, seria suprimida a referência à 'repressão política' na diretriz 23, que cria a Comissão da Verdade.

"Ou seja, a questão seria resolvida semanticamente, sem especificar a apuração de excessos de nenhum dos dois lados. O texto passaria a prever a apuração da violação aos direitos humanos durante a ditadura, genericamente, sem especificar de quem e de que lado.

"Essa proposta está sendo colocada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, e poderá ser aceita pelo ministro de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, que aposta numa 'solução de meio termo'."
Como não sou humorista nem participo da política oficial, só me resta dizer que transformar tudo numa Batalha de Itararé será uma afronta à dor dos torturados e à memória dos assassinados; e lembrar ao companheiro Vannuchi que ambiguidade e ambivalência não salvarão sua honra.

O que Jobim propõe, em última análise, é uma fórmula que implicitamente repetirá o descalabro da anistia de 1979, colocando no mesmo plano as bestas-feras de um governo golpista e os cidadãos que arriscaram sua vida e sua sanidade física e mental para confrontar uma tirania atroz.

A redação imprecisa não evitará que se produza exatamente aquela situação que, na entrevista publicada no domingo (10), Vannuchi afirmou ser motivo suficiente para ele pedir exoneração do cargo: a transformação do PNDH-3 "num monstrengo político único no planeta, sem respaldo da ONU nem da OEA".

Torço para que o jornal da ditabranda esteja mentindo mais uma vez e que nem sequer passe pela cabeça de Vannuchi ceder à manobra de Jobim.

Pois a manchete da Folha quase me fez vomitar.

domingo, 10 de janeiro de 2010

GUERRA DA SUCESSÃO FAZ DO PROGRAMA DE DIREITOS HUMANOS UM ALVO

Dica de filme para o presidente Lula...

Mal entrou 2010, a campanha presidencial foi deflagrada para valer.

Não se iludam: é isto que está por trás do bombardeio contra a 3ª versão do Programa Nacional dos Direitos Humanos.

E os litigantes também acabam de ficar totalmente definidos. A verdadeira disputa não se vai travar entre Dilma Rousseff, José Serra, Marina Silva ou quem quer que seja.

Será entre o campo da direita, que detém o poder real -- o econômico --, traduzido na absoluta tendenciosidade com que a indústria cultural hoje aborda os tatos políticos, expressando sempre os interesses dominantes e invariavelmente mandando às favas a apuração e a disponibilização da verdade; e o campo da esquerda, que tenta contrabalançar a inferioridade de forças magnificando seus trunfos, quais sejam o fato de geralmente estar defendendo o bem comum contra a ganância predatória e a desumanidade capitalistas, a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as ações do Governo Federal e a capacidade de mobilização dos movimentos sociais.

As escaramuças dos dois últimos anos já prenunciavam uma guerra cruenta. Duas delas, principalmente: o Caso Cesare Battisti e a polêmica sobre a punição dos torturadores do regime militar.

Em ambas, o fato gerador foi deturpado e superdimensionado ao extremo, em função do propósito obsessivo da direita de impor derrota contundente ao que há de mais representativo da esquerda no Governo Lula.

Daí o tratamento editorial de parcialidade absoluta, grita histérica e rolo compressor goebbeliano que a grande imprensa adotou, revelando, ademais, indisfarçado empenho em direcionar os acontecimentos, tangendo-os na direção contrária dos direitos humanos e das práticas civilizadas.

Agora, é para valer: a preliminar acabou e já estamos na partida principal.

Os primeiros a contestar o PNDH-3 foram os que estão na linha de frente do esquema direitista: comandantes militares que até hoje defendem a barbárie protagonizada por seus colegas de farda durante a ditadura de 1964/85.

UMA VELA PARA DEUS, OUTRA PARA O DIABO

Como no passado, os representantes dos interesses mais espúrios e retrógrados continuam acendendo uma vela para Deus e outra para o diabo: sonham com o êxito eleitoral, mas não descartam uma virada de mesa se vierem a sofrer a terceira derrota consecutiva.

Daí a insistência com que tentam atrelar a caserna aos seus propósitos de conquista do poder, exatamente como faziam durante os governos de Getúlio Vargas, Jânio Quadros e João Goulart.

As forças democráticas, entretanto, rechaçaram firmemente a pressão descabida que eles tentaram exercer sobre o comandante supremo das Forças Armadas -- o que, aliás, deveria ter-lhes valido (e também ao seu ancião de recados) a imediata destituição, como insubmissos que atropelaram a hierarquia e se manifestaram sobre o que está fora de sua alçada nas democracias.

Lula perdeu uma boa oportunidade para esmagar o ovo da serpente, mas não deu mostras de que se vergaria ao blefe militar: simplesmente postergou qualquer decisão por prazo indefinido (alguns disseram que se posicionaria quando voltasse de suas férias, outros em abril, mas poderia também ser nunca...).

Quando sua blitzkrieg atolou na indiferença presidencial, o Estado-Maior direitista lançou uma segunda ofensiva, no último dia 7, mobilizando uma constelação de efetivos secundários, mas fortes ao serem utilizados em conjunto.

O toque de clarim para o ataque, como sempre, foi dado pelo Jornal Nacional; as evidências de ação orquestrada saltaram aos olhos.

Enquanto os eternos golpistas nem sequer enrubeceram ao tentarem vender como uma tentativa de golpe o que não passou de ingenuidade canhestra do secretário especial de Direitos Humanos Paulo Vannuchi, coube ao comentarista político Fernando de Barros e Silva dissipar a cortina de fumaça:
"...o documento (...) prevê iniciativas em praticamente todas as esferas de governo.

"Da taxação de grandes fortunas à descriminalização do aborto, do enquadramento dos planos de saúde ao financiamento público de campanha (...) tem-se a impressão de que nesse programa tudo pode porque, no fundo, nada é para valer...

"Abrindo tantas frentes sem que de fato se comprometa com nenhuma, o ministro Paulo Vannuchi passa por promotor de eventos. O decreto que Lula assinou é um documento oficial, mas, sem efeito prático, confunde-se com uma carta de intenções."
Ao incluir nessa colcha de retalhos problemas que não são cacterísticos ou exclusivos da área de direitos humanos, Vannuchi parece não ter levado em conta o magnífico trunfo que concedia, de mão beijada, ao inimigo, na batalha para formar opinião.

Multiplicou e imantou os adversários, colocando a todos sob o comando dos inimigos ideológicos.

Ou seja, propiciou a formação de uma coalisão contrária praticamente invencível.

LUTA EM VÁRIAS FRENTES: PÉSSIMA ESTRATÉGIA

O quadro se delineava tão desastroso que nem me animei a fazer comentário para público mais amplo. Restringi a avaliação ao meu blogue:
"Lutarmos em todas essas frentes ao mesmo tempo é péssima estratégia. Não sabemos nem por onde começar.

"O que essa gente quer é o aval do Lula para retalhar e desfigurar todo o PNDH, inclusive a importantíssima instituição da Comissão Nacional da Verdade.

"Se eu estivesse no lugar do Paulo Vanucchi, nem tentaria resistir a esse rolo compressor. Abriria mão de algumas medidas, para retirar do campo de batalha parte dessas forças (algumas não passam de adversárias circunstanciais, as outras são inimigas figadais).

E fincaria pé na manutenção das que realmente importam..."
Talvez seja presunção acreditar que Vannuchi esteja seguindo o meu conselho, mas foi exatamente a linha de defesa que ele escolheu, ao condicionar sua permanência no governo ao não desvirtuamento da proposta realmente importante do PNDH-3, a instituição da Comissão Nacional da Verdade.

Sua tomada de posição é manchete (principal chamada de capa) da Folha de S. Paulo deste domingo (10): Vannuchi ameaça demissão se plano punir torturados. Eis os principais trechos:
"...Paulo Vannuchi, disse ontem à Folha que (...) pedirá demissão caso o terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos seja alterado para permitir a investigação de militantes da esquerda armada durante a ditadura militar (1964-1985), como exigem o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e as Forças Armadas.

"...'o que não posso admitir é transformarem o plano num monstrengo político único no planeta, sem respaldo da ONU nem da OEA', disse.

"Ele condena a tentativa de colocarem no mesmo nível torturadores e torturados. Uns agiram ilegalmente, com respaldo do Estado, os outros já foram julgados, presos, desaparecidos e mortos, comparou o secretário, citando o próprio presidente Lula, que foi julgado e condenado a três anos (pena depois revista) por liderar greves no ABC."
CAPITULAÇÃO ENSEJARIA DERROTAS AINDA PIORES

Foi o que eu afirmei no meu artigo de domingo passado:
"...o imperativo é que não se desvirtue a nova versão do PNDH.

"Que haja mesmo uma Comissão da Verdade, incumbida de levantar o véu que ainda encobre muitas práticas hediondas da ditadura.

"E que nem sequer se cogite a concessão da contrapartida que os militares estariam exigindo: a apuração simultânea dos excessos eventualmente cometidos pelos resistentes.

"Pois há uma diferença fundamental entre o que fizeram agentes do Estado por determinação de um governo golpista e o que fizeram cidadãos no curso de uma luta de resistência à tirania, travada em condições dramáticas e de extrema desigualdade de forças.

"O certo é que essa pretensa isonomia vem sendo há muito reivindicada nos sites de extrema-direita como o Ternuma, A Verdade Sufocada e Mídia Sem Máscara; nas tribunas virtuais dos militares, tipo Coturno Noturno; pelos eternos conspiradores do Grupo Guararapes; pelos remanescentes da ditadura (Jarbas Passarinho), da repressão (Brilhante Ustra), etc.

"No fundo, o que os comandantes militares estão querendo é munição propagandística para, contando com a conivência de setores da imprensa, tentarem diminuir o impacto das atrocidades da ditadura que deverão vir à tona.

"Daí ser fundamental que o Governo rejeite cabalmente tal pretensão."
Colocada a questão como Vannuchi acaba de colocar, temos de lhe dar total apoio e respaldo. O PNDH pode ser alterado em outros pontos, há penduricalhos passíveis de serem removidos, mas do que ele tem de essencial não devemos abrir mão, em nenhuma hipótese!

Mais: mesmo Vannuchi sendo, como admitiu, "um fusível removível", jamais deverá deixar o Ministério antes daqueles que estão no governo para melhor fazerem oposição ao governo, como os ministros da Defesa e da Agricultura.

Capitular ante um desafio tão frontal como o que a direita lhe lançou é pavimentar o terreno para muitas outras derrotas, até a derrocada final -- que o presidente Lula tenha isto bem claro na sua mente.