sexta-feira, 9 de outubro de 2009

MISSÃO DA OEA ENTRA RUGINDO E SAI MIANDO DE HONDURAS

Chanceleres e diplomatas da Organização dos Estados Americanos, enviados especiais da imprensa mundial a Honduras e até eu caímos na manobra do governo golpista, que habilmente fez circular rumores de que estaria disposto a algumas concessões para viabilizar um acordo que pussesse fim à crise institucional no país.

Não foi o que aconteceu. A rigor nem houve negociações, só intransigência dos golpistas e suas recriminações ao que consideram um isolamento internacional injusto imposto a Honduras.

De quebra, ao serem admitidos pela OEA na mesa de negociações sobre o destino de Honduras, os golpistas obtiveram uma espécie (bastarda) de legitimação. Ou seja, mesmo desprezando-os, as nações vizinhas reconheceram que a solução da crise é impossível seu a sua anuência. Em termos de imagem, fortaleceram sua posição.

Algum dia saberemos se a intenção de Micheletti et caterva era apenas a de enrolarem, ademais ganhando tempo, ou trabalhavam com a hipótese de eventualmente aceitarem a restituição condicional do poder a Zelaya

A imprensa especula que esse plano B teria existido, mas, ao perceberem que não seria mais necessário, os golpistas o haveriam descartado. Vide, p. ex., o que disse a enviada especial da Folha de S. Paulo a Tegucigalpa:
"Desde o início da semana, o governo Micheletti vinha dando sinais de que poderia aceitar o retorno do presidente deposto, mas impunha como condições a Zelaya um gabinete pré-negociado e poder limitado.

"O discurso inflexível mostrado à OEA, porém, seria uma demonstração de força do grupo de conselheiros de Micheletti que defendiam a radicalização das relações. Dois assessores ouvidos pela Folha sustentam que era preciso 'demonstrar que Honduras não é uma república de bananas', que se curva à vontade internacional.

"A visita de congressistas americanos conservadores, que incentivaram o governo interino a resistir às pressões pela volta de Zelaya, reforçou a impressão de que o golpe começava a ser entendido - e que poderia ser aceito internacionalmente como um movimento para conter o crescimento da influência do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

"Um terceiro fator a fortalecer Micheletti foi a bem-sucedida estratégia para enfraquecer a resistência. O fechamento de meios de comunicação pró-Zelaya ajudou a diluir o apoio popular ao presidente deposto."
As maiores vulnerabilidades de Zelaya são os fatos de que a resistência popular não conseguiu derrotar o governo golpista; e o de que a proximidade das eleições dá aos acomodados e oportunistas a justificativa perfeita para não adotarem medidas realmente eficazes (ou seja, enérgicas, já que as brandas não surtiram efeito).

Foi de um ridículo atroz a missão da OEA entrar rugindo em Honduras, com a promessa de resolver definitivamente a questão, e depois sair miando que a solução deverá advir de "um diálogo exclusivamente hondurenho". Admissão mais explícita de fracasso e irrelevância, impossível!

"E o pior é que o golpismo poderá ter feito seu reingresso furtivo na cena política latino-americana, por conta da inépcia de quem poderia/deveria mantê-lo onde merecidamente estava: na lata de lixo da História" - foi o que afirmei duas semanas atrás, no artigo O Brasil num mato sem cachorro. Infelizmente, o desenrolar dos acontecimentos está confirmando meu melancólico prognóstico.

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