sábado, 21 de março de 2009

A MORAL DELES E A NOSSA

No último dia 6, o Centro Acadêmico XI de Agosto promoveu um debate sobre o Caso Battisti, na histórica Sala dos Estudantes da Faculdade de Direito da USP. Senti-me honrado em pisar o palco de tantas lutas pela liberdade.

Ao meu lado, o senador Eduardo Suplicy. No córner oposto, uma professora de Direito Penal e um italo-brasileiro pertencente a alguma entidade de comércio entre os dois países.

Suplicy apenas expôs longamente sua posição, leu a carta de Cesare que ele entregou pessoalmente ao STF e saiu para atender a outro compromisso. Fiquei sozinho para o debate.

Mesmo assim, como personagem histórico que passou por situações semelhantes às da via crucis de Battisti, eu conseguia equilibrar a discussão. Falava em nome do espírito de Justiça que Platão dizia ser inerente ao ser humano, contra a razão de Estado personificada pelos outros dois. Havia estudantes me aplaudindo.

Então, a professora tentou uma provocação, perguntando-me o que achava do episódio da deportação dos pugilistas cubanos. Supunha, evidentemente, que eu não os teria defendido como defendo o Cesare.

Respondi que, desde o primeiro momento, posicionei-me contra a sofreguidão com que tudo foi encaminhado. Não havia motivo nenhum para resolver-se o episódio a toque de caixa.

Deveriam ter recebido aconselhamento da OAB e da Anistia Internacional, decidindo, depois, sem pressa. A solução de afogadilho e o fato de haverem sido ambos tratados como párias ao retornarem a Cuba (tendo, portanto, feito a escolha errada) lançaram justificadas suspeitas sobre a lisura do comportamento das autoridades brasileiras.

Acrescentei que defendera os direitos humanos dos boxeadores em nome de um princípio, já que não nutria simpatia nenhuma por eles como seres humanos. Considerava-os mercenários.

Foi o suficiente para meus dois adversários pularem das cadeiras e começarem a berrar, em uníssono, que estava demonstrado o desprezo que os esquerdistas nutrem pelos homens simples, sua mentalidade desumana, etc. Demagogia barata.

Esperei as performances canastrônicas terminarem e, calmamente, comecei a lembrar resistentes que conheci e foram abatidos como cães pela ditadura militar, começando pelo meu saudoso companheiro Eremias Delizoicov, colega de escola desde o Primário, que aos 18 anos foi cercado pela repressão num sobrado do qual jamais poderia escapar e, mesmo assim, retalhado por 35 disparos, a tal ponto que o cadáver ficou irreconhecível.

Então, completei, defendo os direitos humanos de quem quer que tenha sido injustiçado, mas só respeito os cidadãos que buscam soluções coletivas, não individuais. Se os dois pugilistas consideravam que a vida em Cuba era um inferno, que lutassem junto com os dissidentes para torná-la um paraíso.

Agora, irem sozinhos ganhar fortunas no exterior, deixando o seu povo para trás, é uma atitude que jamais terá minha admiração. Pois não foi assim que eu e aqueles a quem realmente admiro agimos durante a ditadura militar.

Amuados, os contendores não retrucaram e o debate seguiu em outras direções.

Resolvi relatar este episódio porque li, no noticiário esportivo de hoje, que outro desses desertores cubanos, o também pugilista Juan Carlos Gomez, será o primeiro boxeador do seu país a disputar, como profissional, a coroa mundial dos peso-pesados.

Mas, o que me chamou mesmo a atenção foi o fato de que, já na nova vida, ele engravidou a filha do seu técnico e se recusou a casar com ela, dando uma resposta reveladora: "Vim aqui para ser livre".

Erislandy Lara, um dos que tentaram desertar no Brasil, é um verdadeiro Pinóquio, dando uma versão diferente do episódio a cada pronunciamento. Esse tal Gomes confunde liberdade com irresponsabilidade. Dá para respeitarmos gente assim?

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