terça-feira, 30 de setembro de 2008

Eleições na era dos partidos indiferenciados e gelatinosos

O Brasil tem 5.563 municípios.

O PT marcha para as eleições de domingo coligado ao PSDB em 1.095 deles (19,7%).

Ao DEM, em 957 cidades (17,2%).

E ao PPS, em 1.129 (20,3%).

Ou seja, em 3.181 municípios brasileiros (57,2%), o PT selou alianças com um dos principais partidos de oposição: os tucanos, os democratas ou o satélite de ambos.

Mais da metade das cidades do País já vive a era dos partidos indiferenciados: são todos farinha do mesmo saco.

Esta é outra explicação para a popularidade-recorde de Lula. Quando os partidos nada mais significam, os cidadãos apostam todas as suas esperanças em pessoas.

Seria interessante fazerem outra pesquisa de opinião, que aferisse a popularidade do PT. Com certeza, não atingiria nem a metade da lulesca.

Mas, homens providenciais morrem ou desabam do pedestal. E, quando isto acontece, nada deixam atrás de si, além de um povo órfão.

Partidos têm vida longa. Cabe-lhes manter a continuidade da luta por bandeiras históricas.

Quando se tornam gelatinosos, como os brasileiros, implodem as pontes entre passado, presente e futuro.

Aqui não há partidos no sentido tradicional do termo, com posturas ideológicas definidas e diferenciadas.

Há apenas o partido dos que estão no poder e tudo fazem para não deixarem entrar os que estão fora do poder, pois querem conservar as benesses do poder apenas para si.

E o partido dos que estão fora do poder e tudo fazem para terem acesso ao poder e suas benesses.

Hoje, a única referência que ainda imanta o povo brasileiro é um sexagenário.

Adiante, uma incógnita.

E os justificados temores de que estejamos decaindo sem nunca termos atingido o apogeu.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

PUNIÇÃO DOS TORTURADORES PÕE DESAFIOS ATUAIS EM 2º PLANO?

Em debate realizado anteontem (23) na USP sobre a punição das atrocidades cometidas pela ditadura de 1964/85, o professor de filosofia Paulo Arantes avaliou que a insistência da esquerda na reparação das "abominações do passado" denota a inexistência, na atualidade, de um horizonte de transformação radical da sociedade:

- É uma confissão de que o futuro passou para o segundo plano. De que ele só virá depois desse rodeio pelo passado. É uma confissão tácita de que o horizonte de transformação foi posto de quarentena.

Concordo plenamente.

Deixando de lado a retórica inflamada de palanque, eis como realmente se apresenta o problema:

1) golpistas derrubaram o presidente legítimo em 1964 e, durante 21 anos de usurpação do poder, generalizaram a prática da tortura a seus opositores, além de terem sido responsáveis por assassinatos, estupros. ocultação de cadáveres e outros crimes gravíssimos;

2) em pleno regime de exceção, no ano de 1979, foi promulgada uma Lei de Anistia que previamente os eximiu de responderem pelas bestialidades e ilegalidades cometidas, tendo como contrapartida a libertação de resistentes e a permissão de volta dos exilados;

3) redemocratizado o País, nenhum governo, muito menos o atual, se dispôs a desatar esse nó, começando pela revogação da anistia de 1979;

4) o ministro da Justiça Tarso Genro recentemente apontou um atalho (mantém-se a anistia como está e acusam-se os torturadores de crimes comuns) para transferir ao Judiciário um problema cuja solução teria de envolver os três Poderes.

Desde o nascedouro dessa proposta, tenho alertado que:

1) como o que houve no Brasil foi terrorismo de estado, para o qual toda a cadeia de comando concorreu (por ação ou omissão), seria uma verdadeira aberração jurídica punirem-se apenas os executantes e eximirem-se os mandantes;

2) ademais, fornece-se uma escapatória legal aos executantes, que poderão arguir o desrespeito ao princípio da igualdade de todos perante a lei;

3) finalmente, seguindo-se os trâmites e prazos usuais da Justiça brasileira, Deus e o mundo sabem que os acusados acabarão todos morrendo antes de serem punidos.

Cheguei a propor que, como alternativa, o governo e o Congresso negociassem um pacote que:

1) revogasse a anistia de 1979;

2) fixasse, definitivamente, a responsabilidade dos usurpadores do poder pelas atrocidades cometidas e por todas as violações dos direitos constitucionais dos cidadãos brasileiros ocorridos durante a ditadura de 1964/85;

3) anistiasse seus agentes, por motivos de ordem humanitária (idade avançada) e política (a inaceitável omissão do Estado, que deveria ter passado a limpo o período a partir do momento em que o País foi redemocratizado, em 1985);

4) estabelecesse, também definitivamente, que os atos praticados por cidadãos brasileiros no legítimo exercício do direito de resistência à tirania não constituíram crimes, devendo ser desconsiderados para todos os fins, inclusive morais, os Inquéritos Policiais-Militares da ditadura e as sentenças emanadas de auditorias militares.

Para a esquerda, seria trocar uma guerrilha jurídica interminável, cujos resultados acabarão sendo inócuos, por uma vitória moral indiscutível.

À direita restaria o prêmio de consolação de não ver seus carrascos na cadeia, pois tem sido esta a tônica de suas ruidosas tomadas de posição - algumas das quais configuraram visivelmente uma quebra de hierarquia, sendo, mesmo assim, engolidas pelo Governo Federal.

E se evitaria que indivíduos sórdidos se apresentassem à opinião pública como vítimas, utilizando suas doenças e idade provecta para fazerem chantagem emocional. A imagem final seria a de lhes haver sido concedida a graça de morrerem fora da prisão em que mereciam estar.

Ou seja, todas as arestas seriam aparadas: não haveria punições, esvaziando-se os focos que estão gerando conflitos no presente; mas, fixar-se-iam parâmetros legais importantíssimos para desestimular reincidências futuras no arbítrio.

Por que a esquerda nem cogita de se mobilizar nesta direção? simplesmente porque parece mesmo preferir usar as "abominações do passado" como pivô de mobilizações no presente, ao invés de oferecer "um horizonte de transformação radical da sociedade" aplicável aos dias atuais - até por causa da ambígua situação na qual se debate, com alguns dos seus quadros históricos hoje ajudando a manter o status quo.

Mas, com isto, quase nada de palpável se oferece às novas gerações que, majoritariamente, interessam-se mesmo é pelo que está acontecendo agora, encarando a ditadura militar como uma página virada de uma História que não lhes diz respeito.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"DEMOCRACIA INSTANTÂNEA" É UMA FALÁCIA PERIGOSA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 68,8% de avaliação positiva. 44,1% dos eleitores admitiram a possibilidade de votar no candidato por ele apoiado ou indicado. 15,5% votarão incondicionalmente no candidato por ele apoiado ou indicado.

Estes dados de uma pesquisa de opinião constituem o principal fato político da semana, se fiarmo-nos nos critérios da grande imprensa. São repetidos à exaustão e levados em conta na maioria das análises do quadro nacional, o que, como num círculo vicioso, faz aumentar ainda mais a popularidade presidencial.

Poucos se dão conta de que a democracia nasceu com os cidadãos decidindo periodicamente os assuntos relevantes por meio de votações em praça pública e hoje é exercida com os cidadãos colocando periodicamente seus votos em urnas.

A democracia instantânea é uma falácia perigosa, engendrada pela influência mesmerizante da indústria cultural. Pega o flagrante de um momento e lhe confere importância desmesurada, o que acaba por gerar conseqüências sobre os momentos seguintes.

Afora a possibilidade de que os resultados de uma pesquisa de opinião estejam sendo adequados aos interesses do contratante – como aconteceu no passado e nada impede que possa repetir-se no presente –, há outras formas de manipulação, mais sutis, a considerarmos, como a da própria formulação das questões.

A tal pesquisa responsável pela onda de euforia lulista indagou, p. ex., se os entrevistados, nas próximas eleições, votariam nos candidatos do governo para a continuidade dos programas sociais (75,3% disseram que sim). Ora, como não existe evidência nenhuma de que os candidatos oposicionistas extinguiriam os programas sociais, muito pelo contrário, verifica-se que a forma como foi redigida a pergunta está direcionando as respostas, não só a esta questão, como às demais.

E há o aspecto do timing: se a amostra for colhida num dia em que está em grande evidência um fato positivo para as finanças pessoais dos cidadãos, aumenta em muito a chance de constatar-se um estado de ânimo situacionista, enquanto os momentos de crise econômica adubam a rejeição a quem está no poder.

A época atual é pródiga em conclusões precipitadas: num dia, o noticiário nos faz crer que estamos às vésperas de outra sexta-feira negra, como a de 1929, que prenunciou uma década inteira de vacas magras; no outro dia, garante-nos que o rebate foi falso e as providências adotadas pelos Bancos Centrais evitarão o pior; no terceiro dia, o otimismo arrefece, dando lugar a novas apreensões; e assim por diante, numa verdadeira ciranda infernal.

Então, a escolha do momento certo para colher a amostra tem importância estratégica. Idem, a orientação político-ideológica de quem repercutirá os resultados da pesquisa, ou seja, principalmente a grande imprensa.

O poder maximiza o poder. Quem tem recursos para encomendar pesquisas e influencia sobre a caixa de ressonância (a mídia), está com meio caminho andado para obter o que quer.

É claro que precisa haver um mínimo de correspondência entre a percepção espontânea das pessoas e o peixe que se quer vender a elas.

No caso atual, a sensação é de que houve um pequeno aumento de poder aquisitivo dos mais humildes.

Um sem-número de analistas já discorreu sobre o assunto, então evitarei chover no molhado. O fato é que existe mesmo uma melhora econômica, a qual, entretanto, poderia ser bem mais significativa.

É a indústria cultural que, em última análise, amplifica o aspecto positivo (hoje a situação material está melhor que ontem) ou o negativo (a situação material poderia ser muito melhor que a de ontem, não fossem as chances desperdiçadas).

Não nos iludamos: a democracia instantânea é uma terrível ameaça à verdadeira democracia, pois influencia acontecimentos e gera conseqüências a partir de estados de espírito momentâneos e altamente manipulados pela indústria cultural.

Então, depois do carnaval, no pior sentido possível, que a mídia promoveu a partir de uma ocorrência policial, fez-se uma pesquisa de opinião e se constatou que o cidadão comum estaria ansiando por maior rigor policial e admitindo a tortura dos suspeitos.

Aonde isso nos leva? À barbárie, claro, se continuarmos a trilhar cegamente esse caminho. Daí a relevância da advertência lançada pelo jurista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira, ex-presidente da OAB e antigo secretário estadual da Justiça e da Segurança Pública (SP), no artigo “A sociedade precisa ser alertada” (Folha de S. Paulo, 23/09/2008):

– Os excessos que temos visto na luta contra o crime não são percebidos pela sociedade, que não conhece as leis nem os princípios constitucionais e crê no que é divulgado pela mídia. (...) Essas violações aos direitos individuais precisam ser denunciadas, para que não sejam louvadas por uma sociedade que as ignora e que desconhece os riscos que elas representam. Esse é o outro lado de uma questão que vem sendo posta de forma parcial e maniqueísta.

Há todo um empenho em reduzir o homem comum a mero joguete dos poderosos, que compra celulares e escolhe candidatos a cargos eletivos da mesma forma, a partir de impulsos induzidos por uma propaganda cada vez mais engenhosa e enganosa, que hoje vai muito além das inserções publicitárias.

Mas, a vida não é um eterno reality show – por mais que tentem tangê-la nesta direção os que gostariam de manipular os acontecimentos tão facilmente como manipulam os resultados das votações do Big Brother Brasil, selecionando para apresentação em horário nobre os bons momentos dos candidatos que querem ver mantidos e os tropeções dos que querem ver eliminados.

sábado, 20 de setembro de 2008

O POVO VAIA CHICO BUARQUE E TOM JOBIM. É O FIM DE UMA ÉPOCA

Na madrugada de 29 de setembro de 1968, uma vaia de dez minutos foi dirigida, em pleno Maracanãzinho, contra dois dos maiores expoentes de nossa música popular em todos os tempos: Tom Jobim e Chico Buarque.

Mais do que o desfecho infeliz de um evento artístico, esse inesperado e contundente repúdio de 20 mil pessoas àqueles que eram, respectivamente, um dos papas da bossa-nova e a maior revelação da nova MPB, marcou o fim de uma época.

Dois meses e meio depois, no dia 13 de dezembro, desceriam sobre o País as trevas do Ato Institucional nº 5. E, com o esvaziamento imposto às artes, seria exatamente a canção favorita do público daquele festival que se imortalizaria como símbolo da resistência ao totalitarismo: "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores" (ou, simplesmente, "Caminhando"), de Geraldo Vandré.

Canto do cisne do período de maior efervescência musical que o País já conheceu, o III Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, transcorreu em meio a passeatas que degeneravam em batalhas campais, mortes de opositores da ditadura, denúncias de torturas, ações armadas da esquerda, atentados dos grupos para-militares de direita.

O mês já começara mal, pois, logo no dia 2, o deputado federal Márcio Moreira Alves, numa sessão quase deserta do Congresso, proferiu o fatídico discurso que acabaria sendo o pivô da decretação do AI-5.

O então influente Jornal da Tarde (SP), naquele final de 1968, dia após dia dedicava suas manchetes e principais matérias ao “terrorismo”, fazendo alarmismo para enlouquecer a classe média e favorecer a linha dura militar na luta interna em que se decidia o rumo do regime.

Ambiente de festival - Este clima já se refletira na eliminatória paulista, que teve lugar no Tuca - Teatro da Universidade Católica de São Paulo, no dia 15 de setembro. Foi quando os baianos apresentaram composições que faziam uma correção de rumo no tropicalismo. Ao lançarem-no, no ano anterior, pareciam pregar o desengajamento dos jovens da política revolucionária, por que não?

O modelo 1968, entretanto, veio fortemente influenciado pela Primavera de Paris, o movimento neo-anarquista que levou a França às portas da revolução.

Aliás, foi um slogan das barricadas parisienses o ponto-de-partida da composição inscrita por Caetano Veloso no III FIC: “É proibido proibir”. O estribilho já veio pronto, mas os versos que ele criou foram corrosivos, geniais: “Me dê um beijo, meu amor/ Eles estão nos esperando/ Os automóveis ardem em chamas/ Derrubar as prateleiras/ As estantes, as estátuas/ As vidraças, louças, livros, sim/ E eu digo sim/ Eu digo não ao não/ Eu digo, é proibido proibir”.

Gilberto Gil seguiu o mesmo diapasão em “Questão de Ordem”, enfocando situações vividas pelos contestadores agrupados nas comunidades alternativas da Europa: “Se eu ficar em casa/ Fico preparando/ Palavras-de-ordem/ Para os companheiros/ Que esperam nas ruas/ Pelo mundo inteiro/ Em nome do amor”.

A maior parte da esquerda brasileira, entretanto, via com desconfiança esse anarquismo de classe média do 1º mundo; e com franca hostilidade as roupas coloridas, os cabelos desgrenhados, oa utilização das sacrílegas guitarras elétricas. Preferia os ritmos nativos, do samba carioca à riqueza musical nordestina; e o visual bem comportado, com os intérpretes se apresentando discretamente para não atrapalharem a compreensão da mensagem que os versos transmitiam. Era esta a tendência majoritária na eliminatória paulista.

Quando da reapresentação das cinco escolhidas para a final da fase brasileira, marcada para o Rio de Janeiro, Caetano Veloso, que já estava indignado com a não-classificação da música de Gil, explodiu de vez, face às ensurdecedoras vaias que o impediam de reapresentar adequadamente “É Proibido Proibir”.

Então, enquanto os Mutantes continuavam tocando uma trilha musical improvisada, Caetano fez um longo discurso, que foi depois lançado em disco com o título de "Ambiente de Festival". Eis alguns trechos:

– Mas, é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de aplaudir este ano uma música, um tipo de música que não teriam coragem de aplaudir no ano passado. Vocês são a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem.

– Quem teve a coragem de assumir a estrutura do festival e fazê-la explodir (...) foi o Gilberto Gil e fui eu.

– O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira.

– Gilberto Gil está comigo pra nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil. Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas estruturas. E vocês? Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos.

Chico e seu sábia intemporal - A finalíssima, no Maracanãzinho, iniciada no sábado (28 de setembro) e seguindo pela madrugada de domingo adentro, apresentou algumas músicas de qualidade superior. Como “O Sonho”, estréia daquele que seria um dos maiores nomes da MPB na década seguinte. O Jornal da Tarde (SP) se referiria ao ”menino Egberto Gismonti” como “um talento”, destacando a letra de “O Sonho” como a melhor dentre as inscritas por compositores que não atuavam em São Paulo, além da “muito boa harmonia e um ótimo arranjo”.

Os Mutantes compareceram com um trabalho de qualidade e impacto, “O Caminhante Noturno”, um dos ápices do seu início de carreira, com Rita Lee se apresentando fantasiada de noiva grávida (Arnaldo Dias Baptista foi de cavaleiro medieval e seu Irmão Sérgio, de toureiro). O sexto lugar não lhes fez justiça.

Toquinho e Paulo Vanzolini foram prejudicados pelo clima de festival, com platéia e júri tomados por emoções fortes, sem paciência para apreciar a sutileza e cristalina beleza de “Na Boca da Noite” (“Cheguei na boca da noite, parti de madrugada/ Eu não disse que ficava nem você perguntou nada/ Na hora que eu ia indo, dormia tão descansada/ Respiração tão macia, morena nem parecia/ Que a fronha estava molhada”).

Vista retrospectivamente, a sua classificação em oitavo lugar, atrás de “Andança” (Danilo Caymmi e Edmundo Souto, 3º), “Passacalha” (Edino Krieger, 4º), “Dia da Vitória” (Marcos e Paulo Sérgio Valle, 5º) e “Dança da Rosa” (Maranhão, 7º) nos dá um testemunho eloqüente sobre a incompetência do júri mais vaiado da história dos festivais.

Outras injustiçadas: “Canção do Amor Armado”, concepção grandiosa de Sérgio Ricardo, relegada a um irrisório nono lugar; “Oxalá”, ótima elaboração de uma história de capoeiristas, de autoria de Théo de Barros; e “América, América”, épico com que César Roldão Vieira reverenciou a figura mítica de Che Guevara.

Bela e intemporal, "Sabiá" é de uma safra em que Chico Buarque parecia alheio ao ambiente nublado da política (há quem faça a leitura de que a canção aludia à futura volta dos exilados, mas essa interpretação parece meio forçada, fazendo mais sentido a posteriori do que no momento dos acontecimentos).

Após o sucesso estrondoso de "A Banda", ele insistiu na linha lírica e nostálgica, com "Carolina", "Bom Tempo" (para quem, cara-pálida?) e "Bem-Vinda", tornando-se, nos festivais, uma espécie de antítese da esquerda convencional e também da anarquia tropicalista. Até Nelson Rodrigues, então o próprio arquétipo do reacionário, tinha palavras de elogio para Chico. Isto explica a vaia finalmente por ele recebida, depois de atravessar incólume vários festivais.

Não sem motivo, Chico Buarque se penitenciaria mais tarde, com a autocrítica “Agora Falando Sério” (“Agora falando sério/ Eu queria não mentir/ Não queria enganar/ Driblar, iludir/ Tanto desencanto/ E você que está me ouvindo/ Quer saber o que está havendo/ Com as flores do meu quintal?/ O amor-perfeito, traindo/ A sempre-viva, morrendo/ E a rosa, cheirando mal”).

Vandré e sua profissão de fé - "Caminhando" foi composta numa fase terrível para Geraldo Vandré, que estava rompido com as emissoras de maior audiência junto ao público de MPB (TV Record e rádio Jovem Pan), amargando uma desilusão amorosa, sendo hostilizado e gelado pelos estudantes de esquerda.

Fora-lhe muito danosa a publicação de uma foto no jornal Folha da Tarde (SP), na qual aparecia abraçado a Abreu Sodré, ajudando-o a escafeder-se do palco armado na praça da Sé, após ser apedrejado por manifestantes.

Governador de São Paulo por obra e graça da ditadura, Sodré tentara falar num ato comemorativo do 1º de maio, sendo surpreendido por uma reação organizada pelos movimentos operários do ABC e de Osasco, com o apoio dos estudantes.

Vandré era amigo do governador, que, inclusive, o esconderia mais tarde no próprio Palácio dos Bandeirantes, quando a repressão o perseguia. Mas, claro, preferia que essa ligação perigosa não se tornasse de domínio público. A mim e a alguns companheiros secundaristas, semanas depois, deu uma desculpa esfarrapada: “Estava bêbado. Não me lembro de nada do que fiz naquele dia”.

Devem-se às pressões que ele enfrentava, portanto, a comovente sinceridade com que reafirmou nessa canção os valores nos quais acreditava profundamente, à sua maneira romântica. Foi um Vandré machucado que subiu ao palco para cantar seu hino revolucionário, acompanhado apenas pelo próprio violão.

Talvez nem ele mesmo imaginasse o impacto que a "Caminhando" teria, acarretando-lhe tanta notoriedade quanto sofrimento. O certo é que, tido como artisticamente morto, Vandré enfrentou e venceu o maior desafio de sua carreira. Por conta disto, passou definitivamente à condição de mito, mas foi destruído como pessoa.

A vida não se resume em festivais - “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico, na interpretação de Cynara e Cybele, foi a surpreendente vencedora. O grande repórter Walter Silva, que esquecera um gravador ligado na sala de deliberação, revelou depois na Folha da Tarde (SP) que o presidente do júri, Donatelo Grieco, pressionou os demais jurados, advertindo-os de que os militares não aceitariam a vitória de “músicas que fazem propaganda da guerrilha”, como “Caminhando” e “América, América”.

A ameaça podia ser exagerada, mas o mal-estar causado na caserna por "Caminhando" foi bem real, por causa da estrofe "há soldados armados, amados ou não,/ quase todos perdidos, de armas na mão./ Nos quartéis lhes ensinam antigas lições,/ de morrer pela pátria e viver sem razões". Os militares chegaram a promover entre as tropas um concurso de versos que respondessem à "Caminhando", tendo Samuel Wainer sido pressionado (em troca de um favor recebido) a publicar no jornal Última Hora (SP) uma reportagem paparicando a medíocre poesia vencedora.

Quando a preferida do público foi anunciada em segundo lugar, o Maracanãzinho explodiu numa monumental vaia (a maior da história dos festivais), entremeada de gritos de “Vandré!” e “é marmelada!”. Tom depois comentou com Chico, que escapou da saia justa por estar em viagem pela Europa: "Foi como se o Corcovado tivesse caído sobre mim".

Mesmo distante, Chico sentiu duramente o golpe. Iniciava-se nesse momento a guinada que o levaria a tornar-se o principal expoente artístico da resistência à censura na década seguinte.

Havia motivo para a indignação da platéia. Reprimindo uma manifestação de rua, soldados tinham submetido estudantes a terríveis humilhações (chegaram a urinar sobre os jovens rendidos e a bolinar as moças). Isto despertou indignação generalizada na cordialíssima cidade maravilhosa. O FIC aconteceu logo depois e os cariocas adotaram "Caminhando" como desagravo. Vandré teve muito mais torcida lá do que em São Paulo.

Por mais que tentasse, ele não conseguiu convencer o público a respeitar Chico, Tom e as duas meninas do Quarteto em Cy, direcionando sua ira apenas contra o "júri que ali está". E, com clarividência, proferiu a frase célebre: “A vida não se resume em festivais”. Só não adivinhou que seria uma das primeiras vítimas da vida pós-festivais, quando os holofotes da arte não conseguiriam mais espantar as trevas.

Em alguns bairros da Zona Sul, as pessoas saíram às janelas quando Vandré bisava a “Caminhando” e cantaram junto, a plenos pulmões, descobrindo uma comunhão cimentada pela dor e revolta – que tão cedo não se repetiria, pois logo baixou sobre o País a paz dos cemitérios.

O Fino da Bossa - "Foi um período em que todo mundo estava junto. Aquele corredor da TV Record, aquelas salas de espera. O que pintou de música ali, o que se improvisou, o que se brincou, o que se fez de coisas que ninguém tinha visto! O que se discutiu, o que se chegou a uma conclusão. Era todo mundo segurando a coisa de braços dados e com muito amor." O depoimento de Elis Regina dá bem uma idéia do que foi a época de ouro dos festivais e do programa O Fino da Bossa, entre 1965 e 68.

Depois de a bossa-nova haver irrompido no fim dos anos 50 como a primeira manifestação musical da classe média emergente sob o desenvolvimentismo de JK, houve um refluxo e parte de seus expoentes procuraram dar novo fôlego ao movimento por meio de parcerias com sambistas do morro (Pixinguinha/Vinícius, Carlos Lira/Zé Keti, etc.). Já Sérgio Ricardo, Edu Lobo e Nara Leão tendiam mais para o engajamento político.

Quando houve o golpe militar, a repressão sobre sindicatos, grêmios estudantis e associações civis levou a uma valorização da música como oportunidade de reunião e palco de catarse (nos primeiros tempos não se censuravam shows, discos e até programas de TV). A fermentação musical nessas noitadas de boêmios e estudantes moldou uma extraordinária fornada de novos talentos, os quais, pouco a pouco, foram encontrando espaço para mostrar sua produção.

Primeiramente foram as noitadas de música popular promovidas pelo radialista Walter Silva no Teatro Paramount, no centro de São Paulo. O sucesso desses espetáculos foi notado pelo produtor Solano Ribeiro, que idealizou o 1º Festival da Música Popular, realizado no Guarujá (litoral sul paulista), em abril de 65, pela extinta TV Excelsior. Nele se deu a revelação de Elis Regina (cantora) e Edu Lobo (compositor), vencedores com "Arrastão". Curiosamente, passou despercebida "Sonho de um Carnaval", composição do então desconhecido Chico Buarque, que Vandré defendeu.

A poderosa TV Record imediatamente contratou Elis Regina e lhe entregou o comando do programa O Fino da Bossa (depois só O Fino), que estreou no dia 17 de maio de 1965 e foi apresentado semanalmente até 21 de junho de 1967. A emissora também conseguiu arrancar Solano Ribeiro da concorrente menor, incumbindo-o de organizar seus próprios festivais.

Seria em O Fino da Bossa e nos festivais da Record que se consagrariam Chico Buarque, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Elis Regina, Jair Rodrigues, Nara Lerão, Maria Bethânia, o Zimbo Trio e Milton Nascimento (este, cria do quarto festival, com "Sentinela", também alusiva à morte de Che Guevara, embora já houvesse tido uma participação destacada no II FIC da Globo).

Bandidos contra disparatados - No primeiro festival promovido pela Record, em setembro/outubro de 66, houve o empolgante duelo entre "A Banda" de Chico Buarque e a "Disparada" de Theo de Barros e Vandré, com ambas dividindo o primeiro lugar, para perplexidade das torcidas ruidosas e em número quase idêntico, de bandidos e disparatados. Enquanto isso, Caetano Veloso estreava com "Bom Dia" (interpretada por Maria Odete) e recebia o prêmio de melhor letrista.

Em setembro de 67, o festival seguinte da Record serviu para lançar o tropicalismo, com "Domingo no Parque" (de e com Gilberto Gil, acompanhado pelos Mutantes) e "Alegria, Alegria" (que o autor Caetano Veloso cantou junto com os Beach Boys).

Houve, além disso, o 2º festival da TV Excelsior, em junho de 66, vencido por Vandré com "Porta-Estandarte"; os I (66) e II (67) FIC, inexpressivos e que serviram apenas para introduzir Milton Nascimento, que encaixou três composições na final do II FIC: "Travessia" (2º lugar), "Morro Velho" (7º) e "Maria Minha Fé"; e até uma Bienal do Samba, que a TV Record promoveu no início de 68, com a vitória de "Lapinha", de Baden Powell e Paulo César Pinheiro.

O exemplo de O Fino da Bossa fez com que surgissem vários outros programas com artistas do mesmo elenco original, dispersando-os e enfraquecendo o movimento como um todo: Bossaudade, que reunia a velha guarda sob o comando de Elizeth Cardoso; Elza Soares e Germano Mathias; Pra Ver a Banda Passar, com Chico Buarque e Nara Leão; Show em Si-Monal; Disparada, com Geraldo Vandré; Ensaio Geral, com Gil, Bethânia e Marília Medalha; e, já em 68, Divino, Maravilhoso, com os tropicalistas.

Da mesma forma, brotaram festivais como cogumelos: o Universitário da Canção da TV Tupi, que revelou Ivan Lins, Gonzaguinha e Aldir Blanc; o de música carnavalesca, o do violão, etc. Até um festival de presidiários houve...

Ovo de Páscoa da trivialidade moderna - Em 1968, a saturação era inevitável. Aquela geração já cumprira seu processo de afirmação, renovando a estética musical e ajudando a sepultar os valores rígidos da sociedade patriarcal (que cederia lugar à amoral sociedade de consumo, já que a outra possibilidade, de caráter revolucionário, foi contida por um terrorismo de estado que, ninguém se engane, foi tão brutal quanto o do Chile, Argentina e outros países-irmãos).

"Quando os políticos estavam ameaçados - explicou certa vez Chico Buarque - a música ocupou um espaço que não era dela. Depois todo mundo pôde falar novamente, ressurgiram as oposições articuladas, fazendo com que o papel do músico como porta-voz, como messias, diminuísse. Em certo momento, shows substituíram comícios. Hoje, felizmente, há liberdade para todo mundo se manifestar, então o artista não precisa preencher essa função."

Se Chico Buarque gostou de se ter livrado dessa carga, Gilberto Gil já deu declarações em que recordava os velhos tempos com simpatia: "Não vamos mais nos defrontar com aquele talento nu, selvagem, como tribos que invadiram a cidade. Não existirão outras afirmações como a nossa - minha, de Caetano, da Bethânia. Há embriões de talento real nas pessoas que estão aparecendo agora, no meio desse ovo de Páscoa da trivialidade moderna. Mas, a coisa já nasce com características de produto. O que vier daqui pra frente, virá em contêineres, dentro daquelas caixas superarrumadas".

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

PESADELO GLOBALIZADO

Os Bancos Centrais executam movimentos desesperados, tentando evitar que o colapso de grandes companhias arraste toda a economia para o buraco de 1929.

Os investidores se refugiam em ativos menos inseguros.

O crédito escasseia e encarece.

Investimentos produtivos são adiados sine die.

Já não se discute se haverá retração econômica no futuro imediato, mas sim a amplitude dessa retração.

Existe até quem compare nossa situação atual à dos passageiros do Titanic, logo após o choque com o iceberg: o navio está afundando, mas ainda não nos demos conta.

A que se deve este tsunami que devasta a economia mundial, após tantos anos de crescimento significativo?

Os expertos sentenciam que os Bancos Centrais das nações desenvolvidas foram coniventes com operações mirabolantes, ultrapassando de tal maneira os ativos reais nos quais deveriam estar respaldadas que o desabamento do castelo de cartas era pura questão de tempo.

Mas, será que tudo se reduz mesmo a um mero desleixo das autoridades que deveriam evitar a transformação do mercado financeiro em cassino?

Ora, a alternância de fases de expansão e retração econômicas marca o capitalismo desde o seu início. Por que desta vez seria diferente? De onde os doutos economistas tiraram a idéia de que o crescimento agora seria ininterrupto? Isto me parece mais expressão de desejo do que análise isenta.

Segundo Marx, o pecado original do capitalismo é a mais-valia: como os assalariados não recebem de volta o valor total dos bens que produzem, estão impedidos de adquiri-los todos, daí o descompasso entre o estoque de produtos oferecidos e o poder aquisitivo dos consumidores.

Até a metade do século passado, isto se reequilibrava de formas dramáticas: desde as queimas de café para evitar a queda do preço internacional do produto (distribui-lo aos carentes estava fora de cogitação!) até as guerras, que geravam um mercado cativo para a produção excedente, na forma de armamentos.

Com o advento das armas nucleares, entretanto, os conflitos entre potências passaram a ter o pequeno inconveniente de poderem extinguir a espécie humana. Então, desde 1962, ano da crise dos mísseis cubanos, tais situações passaram a ser administradas com mais cautela. Os gigantes nunca mais se enfrentaram, passando a não intervir quando algum deles surrava um nanico da sua esfera de influência.

A desigualdade, entretanto, continuou caracterizando o capitalismo, com a agravante de que os formidáveis avanços científicos e tecnológicos das duas últimas décadas criaram plenas condições para proporcionar-se a cada habitante do planeta o suficiente para uma existência digna.

Em vez disso, o que houve foi um incremento ad absurdum das atividades parasitárias, totalmente inúteis para o ser humano, cuja expressão mais conspícua, claro, são os bancos, amos e senhores do capitalismo atual.

E, para que os bens e serviços continuassem sendo consumidos independentemente do poder aquisitivo insuficiente dos consumidores, expandiu-se a oferta de crédito também ad absurdum. Então, desde as nações até as famílias passaram a operar com as contabilidades mais insensatas, em que as contas nunca fecham e os débitos, impagáveis, são sempre empurrados para o futuro.

É sobre esse pano-de-fundo de artificialidade básica que se projeta a atuação dos grandes especuladores do mercado financeiro, cujo campo de ação foi enormemente ampliado pelo advento da internet.

Atribuir-lhes (ou às autoridades que não os policiaram suficientemente) a responsabilidade pela recessão anunciada é tão falacioso agora quanto, p. ex., na quebra da Bolsa em 1929. O nome do vilão sempre foi outro: capitalismo.

A indústria cultural, hoje totalmente a serviço dos poderosos, incute em seus públicos a noção de que a realidade presente é a única possível e as opções existentes são apenas as oferecidas dentro do sistema. Então, termos de conformarmo-nos com a etapa de vacas magras que se avizinha, como preço a pagarmos pela fase anterior, em que as vacas nem sequer foram realmente gordas, com o espetáculo do crescimento deixando muito a desejar...

Mas, salta aos olhos estarmos, isto sim, pagando pelas mazelas do capitalismo, que se torna mais nocivo à medida que aumenta o potencial (criminosamente desperdiçado!) para construirmos uma sociedade igualitária e livre, em que ninguém mais seja limitado pela necessidade.

Talvez o estímulo à diferenciação e à busca do privilégio tenha sido essencial no passado, como motivação para o homem dominar a natureza e alcançar a atual capacidade de geração de riquezas.

Hoje, entretanto, já temos tudo de que precisávamos. O que nos aflige não é mais a insuficiência de recursos, mas sim seu mau aproveitamento, com a desigualdade obscena condenando nações inteiras e parcelas da população de outros países a existências subumanas; e a prevalência de interesses particulares sobre o bem comum levando à dilapidação insensata dos recursos finitos do planeta.

Estamos recebendo mais um alerta de que o capitalismo, com sua irracionalidade intrínseca, torna-se cada vez mais uma força destrutiva direcionada contra a humanidade, podendo tanto infligir-nos a penúria, quanto fazer com que se abata sobre nós a fúria da natureza.

Mas, não há nenhum mandamento divino ou lei natural que nos obrigue a manter o rumo atual até o mais amargo fim. Tudo depende de vontade e consciência, corações e mentes. “Onde vivem os homens, a ajuda só pode vir dos homens”, disse o grande Brecht.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O RESCALDO DA GUERRA DOS FARRAPOS EVITADA

O pré-acordo ontem (16) firmado entre o presidente Evo Morales e os cinco governadores bolivianos rebelados veio ao encontro do que eu colocara no meu artigo de sete dias antes, Bolívia em Transe ( http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com/2008/09/bolvia-em-transe.html ): “O melhor que podemos esperar (...) é uma solução de compromisso, com os dois lados da crise boliviana forçados a ceder para evitar-se o pior. Sendo a alternativa um genocídio, temos mais é de torcer para que a operação apaziguadora chegue a tempo”.

Os presidentes sul-americanos, surpreendentemente, mostraram-se à altura do momento, com destaque para o nosso Luiz Inácio Lula da Silva e a chilena Michelle Bachelet. Houve, sim, um massacre a lamentar-se, no departamento de Pando, cujos responsáveis têm de ser punidos exemplarmente. Mas, perdas humanas e prejuízos materiais foram irrisórios, diante dos que certamente decorreriam de uma guerra civil.

Foram insensatos e irresponsáveis os que apoiaram a via das armas, pois, vencesse quem vencesse, o resultado seria o mesmo: a desintegração de um país paupérrimo e sofrimentos atrozes impostos a uma população miserável. O isolamento político a que acabou relegado é um merecido castigo para Hugo Chávez.

Vejam o que ficou acertado:
1) o governo aceitou devolver às regiões a parcela do imposto sobre o gás que havia redirecionado para pagar pensão a idosos, e compromete-se a não mexer nas porcentagens de royalties das regiões;
2) o governo reconhece as autonomias administrativas de Santa Cruz, Pando, Beni e Tarija;
3) a oposição se compromete a desocupar todos os prédios públicos ocupados nas últimas três semanas e aceita ter como base da discussão o texto constitucional aprovado por constituintes governistas no final de 2007;
4) o governo suspende por um mês, prorrogável, a convocação dos referendos para promulgar a nova Carta.

Ou seja, Morales abusara do seu poder ao apropriar-se do quinhão dos governadores sobre as riquezas naturais extraídas em seus departamentos; ademais, relutava em conceder-lhes as autonomias administrativas que há muito já deveriam estar desfrutando.

A oposição, por sua vez, extrapolou todos os limites no combate às reformas políticas de Morales, incorrendo em práticas ilegais que configuravam rebelião e tendiam a desembocar num golpe de estado.

Então, o desfecho do episódio acabou sendo o melhor possível: cada lado recuou dos excessos que cometera. E não se derramou sangue por motivos fúteis.

Pois, no fundo, o que se tratava era uma disputa por bens materiais, não por valores ideológicos – mesmo porque é inimaginável a construção do socialismo num país tão atrasado (tentativas congêneres, na contramão da socialização das riquezas pré-existentes com que Marx sonhou, sempre geraram aberrações totalitárias).

Então, permito-me repetir a conclusão de outro artigo (http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2008/09/lula-brilha-na-cpula-da-unasul.html ) que escrevi no calor dos acontecimentos:

“...se o principal motivo dessa crise é a divisão da grana proveniente das riquezas naturais bolivianas (...), não vale a pena morrer gente. Com um pouco de bom senso, pode-se chegar a uma divisão desse bolo que seja aceitável para ambas as partes.

“Que os seres humanos se sacrifiquem por causas realmente nobres, como a construção de uma sociedade com liberdade e justiça social. Não por mesquinharias.”

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

VEJA A QUE PONTO CHEGA A SORDIDEZ DA veja

"Muitos professores brasileiros se encantam com personagens que em classe mereceriam um tratamento mais crítico, como o guerrilheiro argentino Che Guevara, que na pesquisa aparece com 86% de citações positivas, 14% de neutras e zero, nenhum ponto negativo. Ou idolatram personagens arcanos sem contribuição efetiva à civilização ocidental, como o educador Paulo Freire, autor de um método de doutrinação esquerdista disfarçado de alfabetização. Entre os professores brasileiros ouvidos na pesquisa, Freire goleia o físico teórico alemão Albert Einstein, talvez o maior gênio da história da humanidade. Paulo Freire 29 x 6 Einstein. Só isso já seria evidência suficiente de que se está diante de uma distorção gigantesca das prioridades educacionais dos senhores docentes, de uma deformação no espaço-tempo tão poderosa que talvez ajude a explicar o fato de eles viverem no passado. ("Prontos para o século XIX", retranca complementar da matéria-de-capa "Você sabe o que estão ensinando a ele", edição 2.074 da revista Veja - http://veja.abril.com.br/200808/p_076.shtml )

"Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu Norte e Bíblia, esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os/as que a fazem, vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. (resposta de Ana Maria Araújo Freire, viúva de Paulo Freire - http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/viuva-de-freire-escreve-carta-de-repudio-a-veja/ )

Acreditando que os textos falem por si, recomendo aos meus leitores que leiam a íntegra das duas manifestações e tirem suas conclusões.

Só gostaria de acrescentar que, se eu tivesse sido consultado, Paulo Freire ganharia de 30 x 6 de Albert Einstein. Não por uma comparação da contribuição científica de cada um, mas porque a ingenuidade política de Einstein está associada a um dos maiores crimes contra a humanidade do século passado: a destruição de Hiroshima e Nagasaki.

É que físicos asilados nos EUA para escapar das perseguições do nazi-fascismo, temerosos do que Hitler poderia fazer com a bomba atômica, recorreram em 1939 a Einstein, pedindo sua ajuda para convencerem o governo estadunidense a iniciar seu próprio programa nuclear. Estavam há anos tentando conseguir verbas, em vão.

Einstein assinou a carta por eles escrita e a encaminhou ao presidente Roosevelt que, diante do peso da autoridade do maior físico vivo, encampou a idéia.

Quando os aliados vitoriosos ocuparam os centros em que os alemães tentavam criar sua bomba atômica, descobriram que o programa ainda estava num estágio bem embrionário. Ou seja, havia sido só um rebate falso.

O excesso de zelo de Leo Szilard, Enrico Fermi & cia., mais a malfadada assinatura de Einstein, dotaram os EUA de uma arma devastadora. E, como armas são produzidas para serem usadas, o fraquíssimo presidente Harry S. Truman mandou atirá-las sobre um Japão já vencido e que buscava apenas uma fórmula de rendição menos humilhante (queria preservar seu imperador).

O maior horror que a humanidade já presenciara foi, na verdade, apenas uma demonstração prática do potencial destruidor da bomba atômica, para intimidar Joseph Stalin, com quem Truman estava prestes a discutir a partilha do mundo.

Durante as décadas seguintes, o temor de uma guerra atômica entre EUA e URSS foi um pesadelo constante, com a ameaça chegando muito perto de concretizar-se durante a crise dos mísseis cubanos, em 1962.

Como as boas intenções pavimentam o caminho para o inferno, permito-me não acompanhar as loas generalizadas a Einstein. O gênio e o sábio se revelou um trapalhão funesto na principal atitude que tomou fora da torre de marfim.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

BOLÍVIA EM TRANSE

Está colocada mais uma vez em xeque, desta vez na Bolívia, a ilusão de que se possa promover revoluções nacionais, de cima para baixo, na era do capitalismo globalizado.

O script é sempre o mesmo: conquistar o governo central por meio do voto, para, a partir daí, tentar tomar o poder e revolucionar a sociedade.

Os resultados são sempre os mesmos: ou os revolucionários se tornam reformistas ao longo desse processo, desistindo de uma transformação maior e conformando-se em administrar o estado burguês de acordo com (e em comunhão de interesses com) os burgueses; ou o poder econômico os expele violentamente do governo.

No primeiro caso, evidentemente, está o Brasil de Lula, com a administração petista assegurando um ambiente favorável, como nunca antes neste país, para os bancos e o grande capital multiplicarem seus ganhos, enquanto distribui migalhas às massas para perpetuar-se no governo.

No segundo caso está a Bolívia de Evo Morales, que foi colocado no governo pela maioria de eleitores pobres e agora está descobrindo, da pior maneira possível, que a minoria dos ricos não aceita compartilhar suas riquezas por decreto.

Os ingredientes do golpe em gestação são clássicos. Como no Brasil de 1964, os governadores das províncias bolivianas mais prósperas estão no centro da articulação golpista, repetindo os exemplos de Adhemar de Barros (SP), Carlos Lacerda (RJ) e Magalhães Pinto (MG).

Os atos de sabotagem e os bloqueios adotados nos departamentos da Bolívia são uma atualização do locaute de caminhoneiros que preparou o terreno para o pinochetazzo.

De quebra, a mão sinistra dos EUA move os cordéis nos bastidores, como, comprovadamente, fez no Brasil e no Chile.

O pior é que, na seqüência do golpe, deverá vir um banho de sangue como o chileno, para quebrar a resistência da maioria da população, subjugando-a à minoria vitoriosa.

Salta aos olhos que, sem uma intervenção dos grandes da região, provavelmente concertada na OEA, Morales será derrubado e os povos indígenas do altiplano, massacrados.

E não há a mínima possibilidade de que tal intervenção venha reforçar a posição de Morales. O poder econômico, como sempre, prevalecerá, impedindo que Hugo Chávez, p. ex., vá com suas tropas socorrer o aliado.

O melhor que podemos esperar, em tal cenário, é uma solução de compromisso, com os dois lados da crise boliviana forçados a ceder para evitar-se o pior.

Sendo a alternativa um genocídio, temos mais é de torcer para que a operação apaziguadora chegue a tempo.

Depois, caberá à esquerda sul-americana efetuar uma profunda reflexão sobre suas estratégias e táticas, pois o prazo de validade dessas que levaram ao impasse boliviano caducou no século passado.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

VLADIMIR HERZOG É ASSASSINADO: O BRASIL REPUDIA O DOI-CODI

No dia 25 de outubro de 1975 morreu sob tortura Vladimir Herzog -- como dezenas de outros idealistas que foram vitimados pelos acidentes de trabalho nos porões da ditadura. Isto para não falar dos executados a sangue-frio e dos que tombaram nos tiroteios com a repressão.

Por que sua morte repercute tanto até hoje e, p. ex., as de Mário Alves e Joaquim Câmara Ferreira são choradas apenas por parentes e velhos militantes de esquerda? Afinal, ambos também eram jornalistas, tiveram uma atuação revolucionária das mais significativas e foram verdadeiramente massacrados pelos algozes. Mário Alves chegou a ser empalado com um cassetete dentado.

Há vários motivos. Primeiramente, chocou e até hoje choca sabermos que Herzog se dirigiu pelas próprias pernas ao encontro da morte, acreditando que sofreria apenas o interrogatório para o qual foi convocado.

Por que ele não desconfiou de que poderia ter o mesmo destino que tantos tiveram antes dele? Por um motivo simples: em 1975 a tortura já arrefecera, depois de dizimada a esquerda armada.

O auge da tortura se deu no período 1969/73, quando os militares reagiram ao enfrentamento aberto da esquerda estruturando a Operação Bandeirantes e os DOI-Codi's, que, inicialmente, se incumbiam apenas dos militantes da vanguarda armada. As organizações desarmadas, como o velho PCB, continuaram sendo por bom tempo atribuição dos Deops, que ainda se mantinham dentro de certos limites.

Cair na Oban significava não ter garantia nenhuma de sobrevivência, estar totalmente à mercê dos verdugos, enquanto no Deops só se morria por excessos praticados eventual e involuntariamente durante a tortura. Uma pequena diferença, mas significativa para quem caminhava no fio da navalha.

A Oban nasceu clandestina -- montada por oficiais das três Armas e policiais civis, com financiamento de empresários fascistas -- e foi legalizada após alguns meses, passando a funcionar em quartéis da Polícia do Exército (com exceção de São Paulo, onde continuou nos fundos de uma delegacia da rua Tutóia). Mesmo assim, desde o primeiro momento, tinha mais poder do que a estrutura legal dos Deops, chegando a arrancar presos políticos de suas mãos quando bem entendia.

Para seus integrantes, oferecia ganhos fabulosos e, no caso dos militares, a perspectiva de ascensão meteórica na carreira.

A esquerda armada expropriava bancos, executava operações altamente rentáveis como o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros. Então, seus integrantes às vezes tinham somas vultosas consigo. Na VPR e VAR-Palmares, p. ex., cada combatente dispunha de um substancial fundo de reserva, que deveria ser mantido intocado até uma circunstância extrema, como a de ele ficar descontatado e ter de fugir do País.

Dinheiro, armas, veículos e até objetos de uso pessoal dos militantes dessas organizações eram, por sua vez, expropriados pelos captores, que os dividiam a seu bel-prazer, nunca o restituindo aos proprietários originais.

Além disto, os empresários financiadores da repressão contribuíam para as caixinhas de prêmios pela captura ou morte de militantes clandestinos. Cada revolucionário importante tinha o valor previamente fixado, daí o empenho obsessivo dos rapinantes em chegar até eles. O bolo era dividido segundo a importância de cada qual no esquema repressivo, sobrando algum até para os carcereiros...

Moralização - Com a derrota da luta armada, o presidente Ernesto Geisel pretendia ir desmontando aos poucos esse estado dentro do estado. Militar de mentalidade prussiana, não admitia a existência de um poder paralelo "envergonhando a farda".

Ora, os rapinantes haviam se acostumado com um padrão de vida muito superior ao que lhe possibilitava seus soldos e já não conseguiam mais viver sem a rapina -- tanto que a notória equipe de torturadores da PE da Vila Militar do RJ envolveu-se com contrabandistas em 1974 e acabou sendo presa, interrogada... e torturada, provando um pouco do próprio veneno.

Então, para atrapalhar a "distensão lenta, gradual e progressiva" de Geisel, que incluía a desmontagem do aparelho repressivo de exceção, passaram a efetuar provocações que, esperavam eles, fariam a esquerda reagir. Valia tudo para despertarem o "fantasma do comunismo" que lhes era tão vantajoso.

Assim, uma base do PCB que fora formada na ECA/USP e se expandira com o ingresso de seus membros na carreira de jornalistas -- continuando, entretanto, bem longe de representar uma ameaça real ao regime -- acabou sendo escolhida como alvo. E o pobre Herzog em primeiro lugar, por ser um professor muito querido, com o qual os universitários presumivelmente se solidarizariam, uma vez preso.

Como a ECA era tida pela repressão como um celeiro de subversivos e nela certamente existiam agentes infiltrados, é difícil acreditar que essa base não constasse dos relatórios policiais havia muito tempo. O fato é que, até o final de 1975, não interessou estourá-la.

Aí, de repente, a repressão se deu conta de que a ditadura começaria a ser derrubada pela insidiosa infiltração subversiva na TV Cultura, com seus 1% de audiência em São Paulo...

Vlado, coitado, não levou em conta os bastidores do regime e seguiu confiante para o matadouro. Até pela estima que lhe devotava o governador Paulo Egydio Martins, estava certo de que em seu caso não abririam a caixa de ferramentas. Quão pouco valia a vida de um homem!

Os torturadores, ao excederem a dose, despertaram a indignação mundial -- para o que também concorreu a ascendência judaica da vítima, repetindo em escala ampliada o que já sucedera no final de 1969, quando da morte sob torturas de Chael Charles Schreier, militante da VAR-Palmares. Judeus são muito sensíveis à morte dos seus em circunstâncias semelhantes às do Holocausto.

Geisel e seu fiel escudeiro Hugo de Abreu aproveitaram a chance para minar o DOI-Codi sem despertar resistências na caserna. O presidente deu o ultimato de que uma morte como aquela não deveria se repetir. Antes que se completassem três meses, os torturadores erraram a mão de novo, levando à morte o metalúrgico Manoel Fiel Filho, também do PCB. Forneceram a Geisel motivo suficiente para exonerar o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Melo e desmontar o DOI-Codi, robustecendo seu projeto de abertura política.

Por último, devem ser lembrados o cansaço dos cidadãos que viviam sob terror policial desde 1969 e já não agüentavam mais o clima de autoritarismo e intolerância, mesmo porque, visivelmente, não havia mais uma ameaça verdadeira ao regime; a resistência dos jornalistas, que afinal se avolumou; e a coragem dos líderes religiosos de três confissões, que correram todos os riscos para, com a realização de uma missa ecumênica pela alma de Herzog na catedral da Sé, impedirem que mais esse assassinato fosse acobertado pela ditadura.

Atentados - Nem assim as tentativas de inviabilizar a redemocratização do Brasil cessaram de todo. Em 1976 houve atentados a bomba contra o semanário Opinião, a ABI, a OAB e a residência de Roberto Marinho, além do seqüestro e espancamento do bispo de Nova Iguaçu e do massacre dos militantes da gráfica do PCdoB. Em 1979/81, a ação dos grupos paramilitares de direita se intensificou, com novos ataques a entidades e cidadãos ilustres (como o jurista Dalmo de Abreu Dalari) e até os bizarros incêndios de bancas de jornais em que eram vendidas publicações alternativas.

Até que, em 30 de abril de 1981, o feitiço virou contra o feiticeiro: a bomba explodiu no colo do terrorista fardado que pretendia provocar pânico de conseqüências imprevisíveis durante em show musical no Riocentro. A maré mudou e a redemocratização foi consolidada.

Vlado merece todas as homenagens que continua até hoje recebendo e outras mais. É triste, entretanto, que não seja prestado tributo semelhante aos combatentes que enfrentaram a ditadura de armas na mão e morreram às centenas (inclusive executados friamente em aparelhos clandestinos da repressão, como a "Casa da Morte" de Petrópolis/RJ).

Enquanto a Resistência Francesa é cultuada em seu país, o Brasil continua dividido em relação ao papel dos que enfrentaram pela via armada os militares que derrubaram um presidente legítimo, fecharam o Congresso, cassaram mandatos, rasgaram a Constituição, proscreveram partidos e organizações da sociedade civil, praticaram a censura, torturaram, mutilaram, mataram e ocultaram cadáveres.

Os que ousaram opor-se ao poder de fogo infinitamente superior desses usurpadores despóticos são -- e deveriam ser sempre lembrados como -- heróis e mártires. Não basta o reconhecimento oficial, corporificado nas anistias federal e estaduais. Há muito ainda o que se fazer em termos de História e na batalha pela opinião pública.


Um bom começo seria o reconhecimento oficial de que os os inquéritos policiais-militares da ditadura não servem para respaldar acusações a ninguém nem para definir o papel histórico de nenhum dos antigos resistentes, pois foram contaminados pela prática generalizada da tortura; idem, os julgamentos a que civis foram submetidos em auditorias militares, sob leis de exceção e sem nenhuma possibilidade real de defesa.