quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A TRAGÉDIA DA UNIÃO SOVIÉTICA: DO SONHO AO PESADELO.

No dia do 60º aniversário da Revolução Soviética, a Folha de S. Paulo a ela dedicou
um caderno inteiro, oferecendo uma página a cada um, em corpo miúdo, para
grandes jornalistas e intelectuais progressistas a dissecarem livremente,
sob todos os aspectos. A melhor análise, na minha opinião, foi a de
Paulo Francis (leia mais sobre ele aqui), cujo mau fim de vida,
infelizmente, relegou ao quase esquecimento sua
contribuição importantíssima ao pensamento de esquerda nas
décadas de 1960 e 1970. Daí a iniciativa de disponibilizar on line seu
artigo de então, dando aos leitores a oportunidade de travarem contato com
um nível de profundidade política que o vento levou, espero que não para sempre...
.
.
A REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE – 60 ANOS
DE LÊNIN, TROTSKI E STALIN.
.
Por Paulo Francis
Meu título causará surpresa em certos círculos, pela inclusão do nome de Trotski, afinal desalojado do poder em 1925, mas ela será explicada. Trotski é, na minha opinião, o autor intelectual da Revolução Soviética, o que ele próprio nega, modestamente, na sua monumental obra A revolução russa, atribuindo a honra a Lênin e às massas. 

E Trotski foi o principal inspirador de Stalin, o homem que o destruiu, um paradoxo aparente, intolerável para leninistas, trotskistas e stalinistas. Tenho muito a explicar, reconheço.

Antes, porém, eu diria que a Revolução Soviética é um dos três acontecimentos decisivos no que chamamos pitorescamente de civilização cristã, na cultura (Kultur) que emergiu do Império Romano a oeste de  Constantinopla, ou seja, a cultura ocidental. 

O primeiro é a Reforma de Lutero, que destroçou a coerência ideológica do cristianismo. O segundo é a Revolução Francesa, a partir de 1791, como decorrência do governo de Robespierre e Saint-Just (que me lembram extraordinária e respectivamente Lênin e Trotski). A Revolução Soviética é o mais profundo e cismático. 

Stalin, Lênin e Trotsky em 1919: os três líderes que abalaram o mundo.
A Reforma é um subproduto do nascimento do nacionalismo e do capitalismo. A Revolução Francesa eliminou as últimas travas feudais à explosão capitalista e liberal, mas é argumentável que a beneficiária central, a burguesia, já controlava os meios de produção quando tomou o poder no século XVI, na esteira da Revolução Industrial, que a nobreza e o clero se recusavam obstinadamente a aceitar como determinante do futuro, que está conosco até hoje, um decadente presente.

A Revolução Soviética surgiu do nada. Em nação alguma do mundo existia a condição sine qua non da tomada do poder pelo proletariado, que Marx e Engels haviam previsto e postulado em extensas análises. E, especificamente, haviam vetado países sem uma economia de abundância, industrial, sem uma numerosa classe operária urbana capaz de administrar os meios de produção. 

A Rússia de 1917 era semifeudal, possuía quando muito 3 milhões de operários, de uma população de 85% de camponeses, habituados secularmente a uma férrea autocracia lastreada espiritualmente pela reacionaríssima Igreja Ortodoxa. 

Marx achava possível revoluções socialistas na Alemanha, Inglaterra e EUA, que ele e Engels começavam a estudar, antes de morrer. Na Rússia, por escrito, decretaram um inequívoco nyet
Domingo sangrento : tropas do czar massacram manifestantes.

Considerariam a tese de Mao Tsé-tung ou a do líder vietnamita Ho Chi Minh grotesqueries, porque se basearam no campesinato à exclusão de um inexistente operariado urbano. Logo, a frase – e clichê – revolução marxista, muito usada pela nossa imprensa popular e por polemistas anticomunistas, deveria ser arquivada de vez. É um mito. Na hipótese mais caridosa, permanece inédita.

Lênin, ao contrário da lenda, aceitava a análise de Marx e Engels. Na sua luta contra os mencheviques, o centro da discórdia não era, não importa o que diga a propaganda comunista subsequente, que os bolcheviques pretendiam instalar o comunismo na Rússia e que os mencheviques desejavam primeiramente que o país passasse por uma fase capitalista. 

A briga era entre a concepção leninista do partido único, de revolucionários profissionais, a vanguarda, e a visão menchevique de um partido aberto a todos que simpatizassem com ideias socialistas. O chamado eurocomunismo de hoje é o retorno do reprimido menchevique à arena polêmica do comunismo.

Trotski favorecia os mencheviques no debate com Lênin, prevendo, corretamente, que a vanguarda levaria a uma ditadura, incompatível com o socialismo. Discordava, porém, dos grupos de Lênin e Martov (o líder menchevique) quanto à possibilidade de revoluções comunistas no que hoje chamaríamos de nações subdesenvolvidas. 
Estação Finlândia: a volta de Lênin  à Rússia em 1917.

Em 1905, ele e Parvus (brilhante teórico que depois se auto-degradou, servindo ao Kaiser na 1ª Guerra Mundial) desenvolveram a tese da revolução permanente, que, de relevante ao tema deste artigo, propõe que uma revolução socialista em país tão atrasado como a Rússia seria o estopim que conflagraria todo o mundo desenvolvido, levantando as classes operárias dos ditos, que, no poder, iriam em socorro da atrasada Rússia e, em pouco tempo, unidas, estabeleceriam o socialismo em escala mundial.

Em 1905, isso sugeria quimera ou, no máximo, especulação interessante, típica do brilho inegável de Trotski. Em 1917, porém, com as principais nações capitalistas da Europa arrasadas pela guerra, com levantes de marinheiros alemães e soldados franceses em reação ao morticínio, Lênin começou a dar crédito a Trotski. 

Em todos os livros contemporâneos dignos de créditos (o do menchevique Sukhanov é o melhor), quando Lênin desembarcou na Estação Finlândia, em Petrogrado, cuspindo fogo, o comentário dos outros bolcheviques foi que Lênin se transformara em trotskista. Os líderes bolcheviques, Stálin, Sverdlov, Kamenev e Zinoviev, estavam na linha marxista tradicional, de colaborar com os partidos progressistas que emergiram depois da queda do tzarismo em fevereiro, objetivando a entrada da Rússia na revolução capitalista.

Se Lênin se tornou trotskista, Trotski se converteu em leninista, isto é, aceitou os direitos à exclusividade revolucionária dos bolcheviques. Desse acordo nasceu a liderança real da Revolução Soviética. 
Kamenev e Zinoviev, os fura-greves da revolução.

Vale notar que, até julho de 1917, a maioria do Comitê Central do Partido Bolchevique ainda estava contra a tese de tomada imediata do poder proposta por Lênin e Trotski. Foi uma mudança no comportamento das massas bolcheviques, que se insurgiram nas ruas, que convenceu o resto da liderança comunista. 

Ainda assim, à última hora, Kamenev e Zinoviev, bolcheviques da velha guarda, alcaguetaram o plano de insurreição de Lênin e Trotski, o que levou Lênin a chamá-los de furadores de greve e a querer expulsá-los do Partido, do que foram salvos pela rara concordância e união de Trotski e Stálin. A tese de Trotski pressupunha que o Outubro soviético fosse seguido da revolução alemã.

Isso se tornou axiomático entre os bolcheviques. Ninguém acreditava que a precária Revolução Soviética se mantivesse em pé sozinha. 

Bem, em 1918, o levante spartakista de Rosa Luxemburgo e Karl Leibknecht fracassou na Alemanha, traído pelos sociais-democratas, aliados ao Exército imperial. Em 1923, nova tentativa redundou em semelhante fracasso. 

Até levantes em países subdesenvolvidos (Hungria) deram em nada. Em 1920, a tentativa do Exército Vermelho de levar a revolução sob ponta de baioneta à Polônia terminou em derrota. Data desse período o dilema da liderança bolchevique que terminaria resolvido no stalinismo.
Gênio militar de Trotski salvou a revolução

Lênin e Trotski subestimaram a capacidade do capitalismo vigoroso e intocado pela guerra dos EUA de revitalizar a decadente Europa burguesa. Não esperavam que os imperialismos pobres da Inglaterra e França tivessem forças de organizar uma intervenção na Rússia que terminaria envolvendo 22 países, acabando de arrasar o país, já devastado pela Guerra de 1914 e por viver na idade da pedra. 

Essa guerra civil, cujo cerne era a própria reação interna, custou a vida de 13 milhões de pessoas. Foi a guerra civil mais violenta da história e, no entanto, existe um mínimo de análise e de compreensão sobre o efeito que teve na psique dos bolcheviques. 

Atrocidades foram cometidas de lado a lado, mas está incontrovertivelmente provado que quem as iniciou foi a Legião Tchecoslovaca, a ponta de lança do intervencionismo de Clemenceau e de Lloyd George, os dirigentes da França e Inglaterra. 

Em julho de 1918, os bolcheviques dominavam o equivalente a 10% da URSS atual. Uma social-revolucionária, Dora Kaplan, tentou matar Lênin. Antes, os comunistas se haviam magnânimos. Soltavam generais tzaristas sob promessa de que não pegariam armas contra a revolução (não faziam outra coisa).  
Stalin acumulava poder na burocracia partidária

Aboliram, para escândalo de Lênin, cuja memória das gentilezas da Comuna de Paris era vívida, a pena de morte. Pensavam conciliar com todos os partidos, desde que reconhecessem a supremacia bolchevique. 

Pós-Dora Kaplan, Lênin chamou Félix Dzerzhinsky, revolucionário polonês, discípulo de Rosa Luxemburgo, cuja ambição professa era dirigir um comissariado de bem-estar da infância, e deu-lhe plenos poderes de combate à contrarrevolução, via a famosa Cheka, a antecessora da atual KGBNuma noite, conta Victor Serge, a Cheka matou 150 mil pessoas em Petrogrado, o sangue jorrava como água pelas ruas em direção aos bueiros. Começara o terror vermelho. 

Trotski erigiu do nada o Exército Vermelho e, revelando gênio militar que seus escritos sobre o tema já deixavam antever, derrotou a reação interna e os intervencionistas. A batalha decisiva foi em Leningrado, 1919, em que mulheres comunistas atacavam tanques usando facas de cozinha. 

revolução triunfara, embora a guerra civil só terminasse oficialmente em 1922. Triunfara, porém, sobre o quê? Em 1921, isolada do mundo, devastada internamente, com fome e canibalismo em todos os cantos, à URSS restava o partido único de Lênin, governando massas exaustas e hostis, que não entendiam as sofisticadas esperanças de uma liderança que sonhava ainda com a revolução mundial.
Marinheiros do Kronstadt se revoltam contra o terror.

O partido que se permitia uma “espantosa liberdade de debate”, na frase do historiador (hostil) Robert V. Daniels, se fracionara de tal forma que ameaçava o próprio suicídio. Lênin sugeriu e todos aceitaram que fosse proibida a formação de facções, de que se valeria Stálin mais tarde para esmagar todas as oposições. 

Em 1921, o levante dos marinheiros da fortaleza Kronstadt foi impiedosamente esmagado por Trotski, mas, no comentário de Lênin, iluminou dramaticamente a cena de miséria e sofrimento do povo. 

Lênin criou a NEP, Nova Política Econômica, economia mista, em que as grandes (e falidas) companhias do Estado permaneceriam sob controle estatal, mas aos camponeses e donatários de indústrias médias se permitiria o capitalismo. Foi um período de conciliação de classes que se estendeu até 1929, o período mais pacífico da Revolução Soviética até a ascensão de Kruschev, depois da morte de Stalin, em 1953.

Novamente, Trotski se insurgiu, ainda que disciplinadamente, dentro das reuniões do Partido. Trotski propunha a acelerada industrialização do país, a militarização do trabalho, um regime draconiano de desenvolvimento da indústria pesada (elaborado pelo economista Preobrazhensky), que seria adotado ipsis litteris por Stalin, pós-1929, sem reconhecer a autoria, porque expulsara o autor do país nesse mesmo ano e o mandaria assassinar no México, em 1940. 

As explicações de trotskistas ilustres como Isaac Deutscher, de que o programa de Trotski era para ser adotado voluntariamente pelo povo, que excluiria a inacreditável brutalidade de Stalin ao coletivizar a agricultura, são especulações interessantes, impossíveis de provar ou desprovar.
Preobrazhensky: draconiano.

Lênin não aceitou a tese de Trotski. É uma questão aberta se ele considerava a NEP um fenômeno transitório, o que é, claro, religiosamente afirmado pela propaganda comunista, ou se voltara à concepção social-democrata, menchevique, de que a URSS precisava de um período de desenvolvimento capitalista antes de ingressar no socialismo. 

O bolchevique favorito de Lênin, o benjamim do aartido, Nikolai Bukharin, acreditava na segunda hipótese, tanto assim que se aliou a Stalin para destruir a facção radical de Trotski (enriquecida depois de 1926 por Zinoviev e Kamenev) e caiu em 1929, defendendo os princípios da NEP. Nunca saberemos o que Lênin pensava realmente, pois morreu em 1924, sem deixar explicação, ao menos que tenha vindo a público.

Deixou, porém, o famoso testamento. Se, de um lado, propõe a retirada de Stalin do todo-poderoso cargo de secretário-geral do Partido, prevendo o futuro tirano por implicação, de outro, embora reconhecendo a superioridade de Trotski sobre os demais, critica-o pela “excessiva atração” (sic) por “métodos administrativos” (sic), essa última expressão um eufemismo de imposições de programas ao povo a chicote, o que seria a especialidade do stalinismo. 

Fora da URSS, Trotski, sem nunca rejeitar a tese do partido único e exclusivista, tornou-se um apóstolo do comunismo libertário, mas não era obviamente essa a posição dele nos tempos de Lênin, o que o testamento do líder especifica.

A violência com que Stalin industrializou a URSS na década de 1930 é provavelmente responsável pela vitória da URSS sobre a Alemanha nazista e por sua conversão numa superpotência que só rivaliza com os EUA. 

O custo humano dessas realizações, porém, faz estremecer a mente. Cinco ou dez milhões (os dez milhões são de Stalin, ditos a Churchill) de camponeses assassinados na coletivização entre 1929 e 1932, o assassinato de 1 milhão de comunistas nos expurgos de 1934-1939. sem falar de suas respectivas famílias e amigos, elevando o total a 20 milhões de vítimas. 
Era para exterminar os kulaks como classe, mas...

A destruição da fina flor da cultura russa, de Mandelstam a Babel, e o estabelecimento de uma aridez burocrática na vida cultural do país, que permanece até hoje. Uma tirania policial que antes de sua morte, em 1953, superava a de Adolf Hitler. 

E, finalmente, para manter paridade em armas com os EUA, a submissão do povo a indizíveis sacrifícios em nível de vida que, hoje, 24 anos depois da morte do tirano, continua mais baixo do que o da Bélgica, que a URSS, militar, incineraria em meia hora. 

Muito se discutiu na polêmica Stalin-Trotski sobre a posição do primeiro em favor de socialismo num só país e a visão internacionalista de Trotski. Há exagero de parte a parte. Stalin nunca desistiu da revolução mundial, nem Trotski rejeitou a possibilidade de desenvolvimento autônomo da URSS. Trotski não pôde provar o que faria, porque derrubado e assassinado. Stalin, porém, forçado a fixar-se na URSS graças ao renascimento do capitalismo europeu reabastecido pelos EUA, transformou a política externa soviética num modelo de cinismo e oportunismo que desmoralizou o comunismo tanto quanto o corrupto papado na era de Lutero. 

Em 1927, sob os protestos de Trotski, inaudíveis fora do país, Stalin forçou os comunistas chineses a se aliarem a Chiang Kai-shek, pois temia que uma revolução comunista na China atraísse o ódio capitalista contra a URSS. Chiang massacrou os comunistas. Daí nasceu a revolta de Mao Tsé-tung à tutela soviética. No fim da Guerra de 1945, para aplacar os EUA, Stálin continuou traindo Mao e apoiando Chiang. 

Na Iugoslávia, pelos mesmos motivos, na 2ª Guerra, queria que Tito partilhasse o poder com a monarquia. 
Mao Tsé-tung cansou de ser traído por Stalin 

Em 1938, na Guerra Civil Espanhola, à parte mandar assassinar implacavelmente todos os grupos esquerdistas não comunistas que lutavam contra Franco, iniciou a redução do auxílio ao governo republicano porque já planejava o Pacto de Não Agressão, vis-à-vis Hitler, de agosto de 1939. 

Na Alemanha de 1933, insistiu em que o PC considerasse os sociais-democratas os “verdadeiros fascistas”, cindindo a classe operária, o que facilitou a ascensão de Hitler. 

Também no fim da 2ª Guerra fez os comunistas franceses e italianos baixarem armas em face dos EUA, porque queria preservar a esfera de influência que reservara para a URSS no Leste Europeu (apesar disso, essa esfera lhe foi negada pelos EUA até que a URSS desenvolvesse armas nucleares). 

É difícil imaginar política mais sórdida e estúpida. Sem a cisão da classe operária alemã, Hitler só chegaria ao poder mediante uma guerra civil e é quase certo que, em 1933, se o Exército derrotasse socialistas e comunistas, teria posto no poder uma alternativa menos perigosa e agressiva do que Hitler. 

Da mesma forma, o Pacto de Não Agressão nazicomunista de 1939 é julgado obra de gênio de Stalin, pois desviou as fúrias de Hitler para o Ocidente europeu, o qual tentava persuadir direta e indiretamente ao Führer que a URSS seria o alvo ideal de conquista alemã. 

Esse raciocínio tem algum mérito até a invasão da Polônia por Hitler. Nesse período, a Inglaterra já se comprometera a defender a Polônia.
Pacto entre Hitler e Stalin: uma abominação!

Se Stalin, em vez de acumpliciar-se com Hitler, abocanhando metade da Polônia, lhe tivesse dado combate, haveria sido mais fácil derrotar Hitler então, pois, sabemos hoje, a máquina de guerra alemã era mais mistificação tática do que realidade. 

Já em 1941, quando Hitler atacou a URSS, dominava completamente a Europa, seus recursos e tropas. Colocou 144 divisões de elite vis-à-vis Stalin e 3 milhões de homens. 

Stalin obteve, apesar de tudo, a maior vitória militar do século, mas ao preço de 20 milhões de soviéticos e de devastações no país maiores que as da guerra civil de 1918-1922. 

Milhões de pessoas, no entanto, se sacrificaram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que o comunismo é a religião secular do nosso tempo.

Resta da URSS de Stalin a superpotência. Seus efeitos benéficos são indiretos. Inexistisse a URSS, os EUA, no seu período de expansão imperialista, que terminou com a Guerra do Vietnã, teria transformado o resto do mundo numa coleção de Cingapuras. Todo movimento insurrecto, ou meramente nacionalista, lançou olhos esperançosos na direção de Moscou, talvez porque o único breque à superpotência americana, e não, certamente, porque Moscou fosse a meca do internacionalismo revolucionário.

É difícil imaginar um único movimento comunista fora da esfera de influência soviética no Leste Europeu que aceite e admire o modelo soviético. E mesmo nessa esfera a indocilidade e ânsias de libertação são sensíveis, não em loucos santos do tipo Soljenítsin, mas em novas gerações de reformistas comunistas, que anseiam por apagar a onerosa herança do stalinismo que lhes foi imposta. 
Múmia do Lênin: "ruborizado, com toda a razão".

E dentro da própria URSS, tensões nacionalistas, a inexistência de um padrão de vida civilizado, das mínimas liberdades individuais, provocam agonias de que temos meros relances. 

O stalinismo é um monumental leviatã militar e policial. Espiritualmente, é um cadáver. Seus decrépitos líderes não sabem sequer o que fazer. É uma ditadura caduca que se sustenta pela força da inércia e na ponta de mísseis nucleares e nos tentáculos da KGB. 

Não era esse o sonho de Lênin e Trotski e, talvez, nem do próprio Stalin, no início de sua carreira. Mas foi a nação e o movimento que os três construíram e que cabe a gerações futuras reformular, eliminando deformidades e, principalmente, para purgar a alma de um grande povo, contar-lhe a verdade sobre sua história nesses tumultuosos sessenta anos.

Diversas circunstâncias históricas, principalmente a destruição do mundo burguês capitalista em 1914, deram margem à Revolução Soviética. Disso não resta dúvida. A mim, porém, me parece igualmente certo que, se não fosse o gênio de Lênin, Trotski e Stalin, essa revolução teria seguido um rumo muito diferente. A paternidade da URSS moderna é inequivocamente deles. E o que restou, no país que erigiram do feudalismo de 85% de camponeses, o que restou de cada um?

Lênin, homem simples, materialista convicto, está hoje transformado em ícone, ridiculamente mumificado na praça Vermelha, onde me pareceu ruborizado. Tem toda a razão. Deve estar em rotação permanente na cova. 

Trotski não existe na URSS ou é rotineiramente atacado pelos escribas dos burocratas gagás que administram o patrimônio de Stalin. Um crime histórico que dispensa comentários.
Por Paulo Francis

E o próprio Stalin virou assunto que não se discute em casa de famíliaDepois da superficial revisão do período Kruschev, colocaram de novo a mortalha sobre o governo desse novo misto de Genghis Khan e Pedro, o Grande, que reformulou completamente a história do nosso tempo. 

Dizia-se que a revolução devora seus filhos. A soviética repete a máxima em farsa: fez deles objeto de ridículo para os desinformados, que permanecem 99% da humanidade.
. 
EPÍLOGO
.
Profundo, brilhante e até profético, este texto do Paulo Francis não poderia ficar ausente das discussões que o centenário da Revolução Soviética suscitará ao longo deste ano, daí a minha decisão de resgatá-lo do injusto esquecimento.

E são muitas e muitas as lições que podemos extrair, a partir de tal pano de fundo. Destacarei duas:
  • a cisão do Partido Operário Social Democrata Russo, em 1903, se deu porque os fantasmas da destruição da frouxa Comuna de Paris tiravam o sono de Lênin, daí ele considerar imperativa a construção de um partido duro, de revolucionários profissionais submetidos a direção e disciplina rígidas, enquanto Trotski via nisto um ovo da serpente (primeiramente, o partido substituirá a classe operária, depois o Comitê Central substituirá o partido e, afinal, um tirano substituirá o Comitê Central). De certa forma, ambos estavam certos. Só um partido tipo jacobino, como o Bolchevique, conseguiria ter tomado o poder em 1917 e o sustentado nos anos seguintes contra a formidável coalizão de inimigos interno e externos. Mas, seu centralismo quase militar era mesmo terreno fértil para a tirania, como Stalin provaria.
  • Na inflamada discussão interna sobre se os bolcheviques deveriam ou não tomar o poder num país que nem de longe estava pronto para o socialismo, prevaleceu a tese de que a revolução soviética seria o estopim de uma sucessão de outras, começando pela alemã, cujo apoio permitiria construir o novo regime na Rússia em condições menos draconianas. Mas, abortada a sonhada sequência, a URSS contou apenas consigo mesma para superar seu acentuado atraso econômico, acabando por fazê-lo a ferro e fogo. Com isto, o chamado socialismo real soviético se tornou tão odioso e execrável que serviu como exemplo negativo para a máquina de propaganda burguesa dele afastar o proletariado das nações mais avançadas. E, embora a construção do socialismo em nações isoladas esteja completando um século de fracassos, até hoje a esquerda a continua tentando, em vão. Não seria o caso de voltar a apostar suas principais fichas na revolução mundial? Não é paradoxal a economia estar globalizada e os movimentos revolucionários terem praticamente abandonado o internacionalismo de outrora?
Por último, é impressionante como, em novembro de 1977, Paulo Francis já antevia (e ousava colocá-lo no papel!) o colapso do regime soviético. Quase ninguém o fazia na esquerda brasileira, que, depois da primavera de 1968, regredira ao mais tacanho maniqueísmo, com o consequente embotamento do espírito crítico.

Seria pedir demais que Paulo Francis, além disto, antecipasse que o leviatã sucumbiria principalmente por não conseguir incorporar os avanços tecnológicos da 3ª revolução industrial e começar a perder de goleada no front econômico, o que o forçou a optar entre a decadência irreversível ou a volta ao capitalismo. (por Celso Lungaretti)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

DOM PAULO EVARISTO ARNS, O PASTOR DE QUE SEU REBANHO CARECIA NUM TEMPO DE LOBOS: IMPRESCINDÍVEL!

"Há homens que lutam um dia, e são bons;
há outros que lutam um ano, e são melhores;
há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons.
Porém há os que lutam toda a vida, esses são os imprescindíveis."
(Bertolt Brecht)

Para os revolucionários que prezamos os direitos humanos, dom Paulo Evaristo Arns foi um daqueles imprescindíveis a que se referiu Brecht.

Neste Brasil de ganância exacerbada e competição insana que o capitalismo globalizado engendrou, é fundamental, até para servir de antídoto, respeitarmos e exaltarmos exemplos como o que ele deixou.

Quando o entrevistei longamente em 2003, dom Paulo já era um homem combalido, que caminhava com dificuldade e tinha problemas de audição — decorrentes, esclareceu-me, de ferimentos sofridos quando de uma tentativa de sequestro num país latino-americano (pretendiam obter, em troca, a liberdade de um chefão do narcotráfico).

Tal entrevista permanece bem atual, daí eu estar reproduzindo aqui seus principais trechos, sem alterações na forma como então a redigi. Não quis privar os leitores da oportunidade de conhecer-lhe a história a partir de suas próprias palavras, que tive o privilégio de escutar numa ensolarada tarde de dia útil, no convento franciscano que fica ao lado da tradicional Faculdade de Direito do largo São Francisco.

No final, apesar de sua dificuldade de locomoção, fez questão de percorrer comigo o longo caminho até a saída. E se despediu com uma frase marcante: "Precisamos contar essas histórias [do que aconteceu neste país durante a ditadura militar] às novas gerações. É importante que elas saibam de tudo isso!"

A MISSÃO DO EDUCADOR

Muitos programas pioneiros, na linha da inserção social, foram introduzidos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo entre novembro/1970 e maio/1998, período em que, como arcebispo metropolitano de São Paulo, dom Paulo foi Grão Chanceler da instituição.

Logo que se tornou o principal responsável pelos rumos desta universidade, dom Paulo fez a primeira visita ao Conselho da PUC. E disse: "Não quero uma escola de 2º grau melhorada. O que me interessa é que vocês façam uma pós que dê bons professores para todos os lugares do Brasil; e que todas as teses e tudo o que vocês discutirem além da escola se refira ao povo e ajude o povo. Que isso seja a norma daqui para a frente".

Os resultados não tardaram, diz dom Paulo. "A Arquidiocese se organizou em pastorais diferentes – p. ex., a Operária, a da Terra, a do Trabalhador –, então eu consegui que a Faculdade de Direito se interessasse em ir, durante a semana ou no sábado, à periferia e ver como se poderia ajudar essa população e quais os problemas reais da periferia. A mesma coisa aconteceu com a assistência social, que, aliás, está trabalhando nessa linha até hoje, com métodos sempre novos e recebendo apoio da Europa e de outros lugares, com uma eficiência muito grande."

Hoje, essas iniciativas pioneiras da PUC/SP encontraram muitos seguidores e há um sem-número de empresas e instituições esforçando-se para dar uma contribuição positiva à sociedade.

OFÍCIOS PARA VÍTIMAS 
DA DITADURA  

"Os estudantes da USP me procuraram em 1973 quando um colega [Alexandre Vannucchi Leme] foi assassinado pelos órgãos de segurança. Os estudantes se reuniram, uns 10 mil, e mandaram representantes à minha casa, à noite, para que eu fosse lá falar aos alunos. 

"Eu disse que era melhor reunir os estudantes, mas não dava para fazer no campus da universidade, porque ele estava cercado por policiais e oficiais do Exército.

"Então, decidi fazer na catedral. Eu disse: 'Na catedral, nós falamos o que queremos, e nós falaremos aos estudantes. Encham a catedral de estudantes e de povo, que nós diremos a verdade'. E foi o que eles fizeram. Às 15h, eu fui lá, fiz aquele ato solene em favor do estudante e celebrei a missa para o falecido. Fiz o sermão sobre o não matarás!, o mandamento central dos 10 mandamentos. Foi sobre isso que eu falei para eles, e eles participaram, vivamente, da missa e de toda manifestação religiosa posterior.

"Depois, em 75, foi a vez do Herzog; em 76, a do Manuel Fiel Filho; e em 79, a do Santo Dias, quando recebemos de 150 mil a 200 mil pessoas, que andaram desde a igreja de Nossa Sra. da Consolação. A multidão foi engrossando. Ao chegar na Catedral da Sé, não cabia nem na igreja nem na praça, então nós fizemos uma cerimônia mais curta, mas muito mais participada por todos os operários."
.
MISSA DE 7º DIA DE VLADIMIR HERZOG

Foi celebrada na Catedral da Sé, simultaneamente, por religiosos de três confissões: a católica (dom Paulo), a judaica (rabino Henry Sobel) e a protestante (reverendo James Wright).

"Quando o Herzog foi assassinado – lembra D. Paulo –, em 1975, os jornalistas me pediram que houvesse um ato ecumênico na catedral. Os judeus fazendo o ato deles em hebraico, portanto, não na língua que compreendêssemos. Foi impressionante e muito bonito."

Modesto, D. Paulo evitou comentar que sua decisão foi um ato de enorme coragem. Primeiramente, porque a alta hierarquia católica não viu com simpatia sua iniciativa de oficiar missa ao lado de um rabino e de um reverendo.
Depois, por ser um desafio frontal ao regime militar, que o ditador Geisel engoliu, pedindo apenas a D. Paulo que segurasse seus radicais, “enquanto eu seguro os meus”.

Finalmente, por ter, em nome de ideal de justiça e solidariedade cristãs, corrido o risco da ocorrência de tumultos e mortes que teriam um peso devastador em sua consciência de religioso.

Graças a ele, foi viabilizado o ato que acabou se tornando um divisor de águas: a partir desta vitória sobre a intimidação, a ditadura começou sua lenta, mas irreversível, marcha para o fim.

INVASÃO DA PUC EM 1977 

"Eu estava em Roma quando o Erasmo Dias, então secretário da Segurança do estado de São Paulo, invadiu a PUC sem dizer ou ter motivo nenhum. Os estudantes estavam em exame e os policiais destruíram mais de 2 mil cópias de documentos, estragaram o refeitório, danificaram os instrumentos musicais e até derrubaram um professor no chão.

"Eu fui chamado às pressas de Roma e, na manhã seguinte, já dei uma declaração ao desembarcar no aeroporto, dizendo que 'na PUC só se entra prestando exame vestibular, e só se entra na PUC para ajudar o povo e não para destruir as coisas'. Depois, nós fizemos toda uma reação contra eles e toda uma manifestação junto aos estudantes."

ELEIÇÃO DIRETA PARA 
REITOR DA PUC
.
"No início dos anos 80, nós queríamos nos opor ao regime totalitário que estava vigorando no Brasil e provar que funcionários, professores e alunos são igualmente capazes de escolher o diretor, o reitor ou o presidente da instituição.

"Antes eu reunia o conselho de cada classe, para ter uma certa democracia entre os professores, e pedia que me indicassem o nome. Achei que era pouca democracia. Então, pedi à reitora e aos três vices para haver uma escolha entre todos os alunos, que eu aceitaria o resultado e mandaria para a aprovação de Roma.

"E Roma aprovou imediatamente. Então, foi a primeira eleição dentro de uma universidade pontifícia católica e, também, foi a primeira vez que se escolheu um reitor entre todos os funcionários, alunos e professores."

Florestan Fernandes
CONTRATAÇÃO DE
 PROFESSORES PERSEGUIDOS 

"O ministro da Justiça ordenou a expulsão de vários professores da Universidade de São Paulo. Então a reitora da PUC me telefonou perguntando se podia admiti-los entre nós. Eu disse: 'Não só pode como  deve, porque são excelentes professores e patriotas'.

"O Florestan Fernandes até escreveu um artigo me agradecendo. Ele ficou satisfeito porque pôde dirigir os estudantes da pós-graduação na PUC da maneira mais livre possível.

Paulo Freire
"Quanto ao Paulo Freire, eu fui a Genebra para convencê-lo a voltar ao Brasil, depois de 10 anos de exílio. Garanti que eu iria cuidar da chegada dele aqui. 

"E mandei toda a nossa Comissão de Justiça e Paz, que eram mais de 40 pessoas, junto com amigos, para recebê-lo em Campinas.

"De fato a polícia o prendeu, mas, depois de duas horas de interrogatório, eles viram que todos estavam contra eles e soltaram o Paulo Freire, que ficou conosco, com uma grande amizade comigo, até o momento da sua partida."

CONVICÇÕES E ESPERANÇAS 

Sobre o Governo Lula, antes mesmo da crise do mensalão, D. Paulo já mostrava uma ponta de apreensão, ao se dizer esperançoso de que “o Brasil não perca esta ocasião e não afunde o barco em vez de conduzi-lo a uma margem da terra onde haja outra terra e outro céu, como diria a Sagrada Escritura; onde haja outra possibilidade de sonhar e outra possibilidade de viver com dignidade, mas para todas as pessoas e não só para uma parte".

E, inquirido sobre o menor engajamento atual da Igreja às causas sociais, ele finalizou com uma mensagem de esperança: "A Igreja é o povo. Se o povo se mobiliza bem, a Igreja também se mobiliza. Então, é preciso unir esses dois conceitos, o povo de Deus e o povo, simplesmente. Nós precisamos caminhar para a fraternidade, para uma possibilidade de todos serem respeitados como filhos de Deus e irmãos uns dos outros".

EPÍLOGO 

Não há como retratarmos a grandeza de um D. Paulo Evaristo Arns numa única entrevista. Faltou dizer, p. ex., que ele criou a Comissão de  Justiça e Paz de São Paulo e foi o grande artífice do projeto Brasil: Nunca Mais (livro sobre as violações de direitos humanos durante o regime militar), integrando também o movimento Tortura Nunca Mais, dele decorrente.

O principal, no entanto, é que suas gestões junto às autoridades salvaram a vida e evitaram a tortura de resistentes, no pior momento da ditadura.

Fiel ao espírito da igreja das catacumbas, foi o pastor que tudo fez para  que seu rebanho sobrevivesse a um tempo de lobos. Um imprescindível, enfim.

SOBRE O MESMO ASSUNTO, LEIA TAMBÉM: 
PERGUNTARAM A D. PAULO EVARISTO ARNS COMO GOSTARIA DE SER LEMBRADO. ELE RESPONDEU: COMO AMIGO DO POVO.